Elida Tessler apresenta instalação com 1.018 lupas Omar Freitas/Agencia RBS

Obra "Desertões", com lupas que ampliam trechos de "Os Sertões"

Foto: Omar Freitas / Agencia RBS

Exatas 1.018 lupas presas à parede circunscrevem e ampliam diferentes trechos do texto do livro "Os Sertões", de Euclides da Cunha. Um dos primeiros trabalhos a fisgar o olhar do visitante ao chegar na Bolsa de Arte, "Desertões" logo entrega: estamos entrando no universo de Elida Tessler, onde a arte e a literatura formam um campo poético e conceitual no qual a artista cria colocando em articulação a imagem visual e a palavra escrita.

– Tudo isso se relaciona com a literatura e vem de livros, como sempre – comenta a artista na montagem da exposição "365", que tem inauguração nesta segunda-feira (5/10), às 19h.

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Com proposição curatorial de Eduardo Veras e Gabriela Motta, essa é a primeira mostra individual de Elida na galeria – e também a primeira individual desde "Gramática Intuitiva", retrospectiva apresentada em 2013 na Fundação Iberê Camargo. Professora do Instituto de Artes da UFRGS, com doutorado e pós-doutorado na França, onde viveu entre os anos 1980 e 1990, Elida é uma artista de trajetória consolidada, com exposições no Brasil e em diversos países. Em Porto Alegre, participou das Bienais do Mercosul de 1999 e 2011 e foi, ao lado de Jailton Moreira, responsável pelo Torreão, saudoso espaço alternativo e de experimentação voltado à arte contemporânea que funcionou entre 1993 e 2009 na Capital.

Agora, em "365", Elida reúne trabalhos realizados ao longo de exato um ano. O número do título da exposição faz referência ao endereço da Bolsa de Arte – a Visconde do Rio Branco, 365 –, tomado pela artista como um mote para tratar do tempo e do espaço, ambos temas que, de certo modo, percorrem e relacionam os sete trabalhos em exposição.

Ao longo de uma das paredes, estão alinhados 22 relógios em funcionamento. A obra, chamada "O Tempo Passa", é inspirada no romance "Ao Farol", de Virginia Woolf. Todos os ponteiros foram sincronizados no mesmo horário, mas com o decorrer do tempo cada relógio seguiu seu próprio compasso, em desacerto com os demais. O motivo é um detalhe fundador do trabalho: os ponteiros são, na verdade, hastes retiradas de uma antiga máquina de escrever que foi do pai da artista. Um comentário imediato? A ideia de cada coisa possa ter o seu próprio tempo.

– Ou aquela ideia de que, para alguns, o tempo passa devagar, para outros, passa rápido – diz a artista.

Perto desse trabalho, uma mesa exibe o que parece ser um mostruário arqueológico da mesma máquina de datilografar. Ela foi desmontada em suas mínimas peças – 617, no total –, todas distribuídas no tampo lembrando uma espécie de partitura. Para a artista, a superfície branca organizada conforme linhas e as partes da máquina ali expostas são como uma carta endereçada ao seu pai, de quem ela herdou a máquina. O título, "Carta ao Pai", foi retirado do livro de mesmo nome de Franz Kafka.

Ao fundo da galeria, Elida apresenta um escaninho dividido conforme os dias dos 12 meses do ano. Estão ali classificadas pelas datas de chegada cartas que ela recebeu neste último ano, desde que pediu a amigos que enviassem a ela por correio correspondências para o endereço da galeria. São mais de 150, e outras continuarão a chegar durante a exposição, que segue até 7 de novembro. Há novamente, nesse trabalho, uma referência literária: o poema "Habitar o Tempo", de João Cabral de Melo Neto.

– Como sugere o título, esse poema fala de habitar o tempo – diz Elida. – Quando percebi que o número do endereço da galeria correspondia ao tempo de um ano, pensei que havia chegado a minha chance de habitar o tempo.

Na Bolsa de Arte, Elida também apresenta "Phosphoros", um múltiplo no qual a artista se apropria de uma caixa de fósforos para criar um trabalho em pequenas dimensões partir do tema de "Fahrenheit 451". Cada um dos 122 palitos traz inscrito o título de um livro e de seu respectivo autor que são queimados tanto no livro de Ray Bradbury quando no filme de François Truffaut. No verso, a caixa traz a seguinte inscrição: "Arrisque suavemente e mantenha distância do resto", que adapta a frase "Risque suavemente e mantenha distância do rosto". O trabalho já foi apresentado em uma coletiva no Museu de Arte do Rio (MAR).

– Quando penso no meu trabalho, vejo que disponho coisas e me disponho às coisas. Vou absorvendo o que me passa. Acho que tenho essa capacidade de absorção, que vem da literatura, mas também do cotidiano – conta Elida.

Dois trabalhos apresentados em "365" serão lembrados por quem já conhece a produção de Elida. Um deles é o fichário "Gaveta dos Guardados: Biblioteca", que reúne mais de 17 mil fichas bibliográficas antigas do Instituto de Artes da UFRGS que saíram de uso com a informatização das bibliotecas. A obra foi apresentada na citada mostra da Fundação Iberê Camargo.

Outro trabalho são os livros que integraram "Ist Orbita", realizado pela artista junto ao professor e tradutor Donaldo Schüler, a propósito da 8ª Bienal do Mercosul, em 2011. Trata-se de uma enciclopédia de 138 volumes que, à época, foi instalada na Garagem dos Livros, promovendo um entrecruzamento entre o acervo do sebo situado em frente à Usina do Gasômetro e textos de Donaldo.

Um dos principais parceiros e colaboradores de Elida, Donaldo foi também quem repassou à artista o exemplar de "Os Sertões", datado de 1938, usado na citada obra "Desertões" integrante da exposição "365". A origem desse trabalho, se assim pode-se dizer, foi um curso ministrado por Donaldo e do qual Elida participou envolvendo a leitura da referida obra.

– Donaldo disse: "Faça com o livro o que tu quiseres, quando tu quiseres". Esse tipo de estímulo me é caro e precioso, no sentido de que tenho em mãos algo que não sei muito bem o que é, mas com o que posso fazer algo, no meu tempo, esse tempo que é o tema central dessa exposição, que prefiro chamar de disposição – diz Elida.

Colocar em intercâmbio o que inicialmente pertence aos domínios estritos da literatura e das artes, propondo uma espécie de escrita visual que se movimenta entre noções conceituais e gestos poéticos, é uma espécie de síntese motora que ajuda a compreender a pesquisa que Elida desenvolve em sua produção, da qual se tem a oportunidade de vislumbrar sua porção mais recente nesta individual que a artista apresenta na Bolsa de Arte.

365 – ELIDA TESSLER
Abertura nesta segunda-feira (5/10), às 19h. Visitação de segunda a sexta, das 10h às 19h, e sábado, das 10h às 13h30min. Até 7 de novembro. Entrada gratuita.
Bolsa de Arte (Visconde do Rio Branco, 365), em Porto Alegre, fone (51) 3332-6799.
A exposição: a artista Elida Tessler apresenta trabalhos realizados ao longo do último ano que, em comum, têm o tempo como tema.

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