Encenado em três países, Odiseo.com começa circulação por Santa Catarina nesta segunda (5) em Itajaí Cristiano Prim/Divulgação

A atriz Milena Moraes interpreta a cantora brasileira Elisa

Foto: Cristiano Prim / Divulgação

Conectados via Skype, três atores em três países diferentes encenam Odiseo.com, espetáculo que estreou no ano passado em Florianópolis e começa nesta segunda (5) a circular por Santa Catarina. A primeira cidade a receber a montagem é Itajaí, onde a atriz Milena Moraes contracena em tempo real com o ator Juan Lepore, conectado diretamente do 10º Festival Internacional de Teatro Mercosur 2015, em Córdoba, na Argentina, e com a atriz Amalia Kassa, na Alemanha. Serão duas sessões, às 19h e às 21h30min, seguidas de conversa com a produção.

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A circulação da montagem é viabilizada pelo Prêmio Elisabete Anderle de Estímulo à Cultura, e passará ainda por Blumenau (26), Joinville (27) e Criciúma (28). A entrada é gratuita e recomendada para maiores de 18 anos, sempre em residências. Os interessados devem enviar e-mail para odiseopuntocom@gmail.com, indicando o nome da cidade e horário da sessão, além dos nomes completos _ até dois por solicitação. A confirmação será feita e-mail de acordo com a disponibilidade de vagas, com a indicação do endereço da encenação.

Odiseo.com foi escrito por Marco Antonio de La Parra e direção e concepção de espaço de André Carreira. Mais informações em odiseopuntocom.com.

CRÍTICA: Valmir Santos, crítico de teatro, jornalista, editor do Teatrojornal

A disputa de presenças

Quando escreveu a peça A Voz Humana (1929), o francês Jean Cocteau rebatia quem o acusasse de instrumentalizar seus textos com "estruturas maquinais". Pois acabara de testar uma pegada mais essencial com um monólogo. Num quarto desarrumado, uma mulher aguarda a ligação telefônica do amante que recém a abandonou. Coube ao dispositivo mediar a oralidade, a escuta, os silêncios e o sentimento amoroso em pedaços. Virou sua obra mais montada ao redor do planeta. Oito décadas depois, Odiseo.com sugere que o músculo da voz expandiu para o corpo inteiro e vaga pela rede mundial de computadores materializando os rearranjos amorosos sob os mesmos intangíveis mistérios da paixão.

O espetáculo conjuga outros formatos de relação e de percepção da arte a partir de ferramentas velozmente incorporadas na pele e na alma de quem vive nas cidades médias urbanas. O edifício teatral, o palco, a plateia, a coxia, os refletores, enfim, essas convenções inexistem por aqui. São as alteridades da comunicação e a discussão da qualidade de atenção (leia-se presença) nos relacionamentos que atraem para a arena dessa navegação antiespetacular.

O código mais assimilável talvez seja o do clássico mote da triangulação dos amantes (ele e ela) e da mulher dele. Três situações combinam planos ficcionais captados por webcam em tempo real.

Coabitantes desse percurso, os espectadores brasileiros e argentinos não têm diferença no fuso horário. Já o relógio local alemão está adiantado cinco horas. Em Itajaí, vinte espectadores roçam os ombros um no outro, bem instalados, para acompanhar, na sala de um sobrado, no bairro São Judas, a intimidade à distância entre a cantora Elisa, amante brasileira que faz dali sua casa, na atuação de Milena Moraes, e o executivo argentino Ulises, hospedado em algum hotel dessas cadeias globais, talvez em Pequim, na atuação do ator Juan Lepore, que também abriga um pequeno público em sua casa, em Buenos Aires.

A terceira figura a pontuar essa história é Laura, de quem se saberá pouco, mas com a qual ele é casado e divide o mesmo teto na capital argentina, sob atuação da chilena Amalia Kassai, moradora em Bremen, na Alemanha.

A observação crítica aportada desde o olho a olho com Milena Moraes constata como ela sustenta o campo da intimidade sem esmorecer, tendo por testemunhos 20 pessoas. Estamos entre quatro paredes e é como se ela de fato se encontrasse sozinha, desnuda em tesão e apaixonada por Ulises.

Apesar do aparato que a cerca e das infiltrações performativas , Milena reflete agudamente os conflitos de Elisa preservando a instância do dramático. Estirada no sofá-cama, deslocando-se até a cozinha ou ao banheiro, subindo as escadas para tomar banho no que se presume a suíte (em muitas cenas a atriz está oculta), atendendo sua mãe ao celular, o fato é que o público sente a presença de Elisa permanentemente.

As reações de Elisa ao discurso titubeante de Ulises na webcan tornam a presença dele na tela igualmente poderosa nos jogos eróticos, nos rompantes, nas solidões. Ele tem dois filhos e não para em casa, vive nas nuvens, viajando a negócio. Ela é mãe de uma filha, está em processo de separação e nutre expectativa de que Ulises também deixe Laura.

Entre as interfaces que desdobra, Odiseo.com oferece uma experiência limítrofe da representação em flerte deliberado com conceitos da instalação e da performance. Nada de novo com as desterritorializações e experimentos de fronteiras. Em vez do rasgo tecnológico, sobrepõe-se a valorização do ator.

A parceria do Grupo Teatral (E)xperiência Subterrânea, de Florianópolis, com o Centro Latinoamericano de Creación e Investigación Teatral, da Argentina, ora ganha ares de trama de telenovela, pela familiaridade temática, ora atalha com a tensão dos filmes de John Cassavetes. É o teatro defendendo seu lugar na disputa de presenças.

* A crítica foi escrita durante o 4º Festival Brasileiro de Teatro Toni Cunha, realizado entre 7 e 16 de agosto em Itajaí

 

 

DIÁRIO CATARINENSE
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