Peter Hook que me perdoe: "Music Complete" é o melhor disco do New Order desde "Technique" Nick Wilson/Divulgação

Foto: Nick Wilson / Divulgação

O New Order sempre foi uma banda meio paradoxal. Para começar, nasceu de uma morte – o suicídio de Ian Curtis (1956-1980), vocalista do Joy Division, expoente do pós-punk britânico. Remanescentes, Bernard Sumner (guitarra, teclados e, a partir de então, voz), Peter Hook (baixo) e Stephen Morris (bateria) recrutaram a namorada deste último, Gillian Gilbert (teclados), e estabeleceram a nova ordem: paulatinamente, a sonoridade soturna foi cedendo espaço a uma mistura de rock e eletrônica. Sob influência do quarteto alemão Kraftwerk e do produtor e compositor italiano Giorgio Moroder, o grupo da cidade de Manchester trocou as sombras pelas luzes das boates. Mas, enquanto as batidas de Everything's Gone Green e Blue Monday convidavam para a dança, as letras exprimiam angústia.

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Outra contradição: o grupo sempre investiu na imagem – tornaram-se clássicas as capas de disco criadas pelo designer Peter Saville –, mas seus integrantes nunca gostaram de ser "a" imagem (aparecem em fotos em um único álbum, Low-Life). O mais novo paradoxo é que, no seu primeiro disco sem Hook (ele e Sumner brigaram em 2007), o cara que dava a assinatura musical da banda – o baixo melódico e agudo, empunhado na altura dos joelhos –, o New Order realizou seu melhor e mais dançante trabalho desde Technique (1989).

Music Complete é, oficialmente, o 10º disco da banda, agora um quinteto formado por Sumner, Morris, Gilbert, Phil Cunningham e Tom Chapman, o substituto de Hook. Na minha contagem, porém, desprezo Lost Sirens (2013), que só trazia sobras de estúdio de Waiting for the Siren's Call (2005), e incluo Substance (1987), que reuniu pela primeira vez um bocado de singles, alguns deles remixados ou regravados especialmente para o disco duplo.

Music Complete, o título, tem um sentido quantitativo – fazia 10 anos que o grupo não entrava em estúdio e, enfim, completava a gravação de um disco – e outro qualitativo: as músicas estão, de fato, completas, bem trabalhadas, extensas (nove das 11 faixas têm duração superior a cinco minutos, e quatro delas ultrapassam os seis minutos), cheias de camadas, texturas, mudanças no ritmo, com uma variedade de instrumentos e sintetizadores, efeitos e barulhinhos. Essa riqueza joga para o devido segundo plano os versos de Sumner, que nunca foi um grande letrista, mas ainda capaz de oferecer alguns refrões memoráveis – vide Superheated, dueto apoteótico e açucarado com Brandon Flowers, um dos convidados especiais.

O baixista Tom Chapman emula seu antecessor em canções como Restless (já batizada de "a Regret" deste álbum, em referência à clássica faixa de abertura do disco Republic, de 1993), mas, sem Hook, o New Order se permitiu experimentar. People on the High Line, por exemplo, funde baixo e guitarra do funk dos anos 1970 com o piano matador da house italiana dos anos 90. A Itália, mais precisamente Giorgio Moroder, é forte influência, como se percebe em Tutti Frutti e na arrasadora Plastic, cuja harmonia hipnótica evoca I Feel Love, parceria do produtor italiano com Donna Summer.

É como se Sumner, Morris e Gilbert retomassem as raízes da banda, porém com roupagem contemporânea. O New Order primitivo – de Ecstasy e Video 586 – viaja ao futuro em Unlearn this Hatred, que tem bem audível a mão de Tom Rowlands, do Chemical Brothers. A épica Nothing But a Fool remete a discos como Low-Life e Brotherhood, com suas transições entre um clima deprê e algo que se pode classificar de melancolia solar (há um momento sublime a 1min54s da faixa).

Singularity constrói uma ponte mais longa em direção ao passado. Sua introdução sinistra caberia perfeitamente em um disco do Joy Division, com baixo e bateria em um transe triste. Mas aí, como a lembrar que eles se chamam New Order, entram os beats sacolejantes, os sintetizadores pulsantes, a voz suave e um pouco desafinada de Sumner. A propósito: sua tibiez e sua timidez emprestam aos versos uma espécie de verdade. Dançar parece ser mesmo o jeito de reverenciar "todas as almas perdidas que não conseguiram voltar para casa" citadas no refrão.

Cinco convidados especiais (e suas conexões com o New Order)

>> Elly Jackson

A doce voz do La Roux – que faz um synthpop oitentista – aparece em Plastic (apenas nos backing vocals), Tutti Frutti e People on the High Line. Elly abriu shows do New Order em uma turnê de 2014.

>> Iggy Pop

Depois de cantar com o New Order Love Will Tear Us Apart e Transmission, clássicos do Joy Division, em um show pró-Tibete realizado em Nova York, em 2014, o roqueiro americano recita a letra de Stray Dog. Seu disco The Idiot (1977) influenciou o Joy Division. Diz a lenda que, antes de se enforcar, Ian Curtis ouviu o LP mais uma vez.

>> Tom Rowlands

Cara-metade dos Chemical Brothers, coescreveu e produziu Singularity e Unlearn this Hatred – além de providenciar o ragazzo que fala em italiano em Tutti Frutti. Os Chems são da mesma Manchester onde nasceu o New Order, uma das bandas que fez a cabeça da dupla na adolescência. No disco Surrender (1999), Bernard Sumner cantou, tocou guitarra e produziu Out of Control.

>> Brandon Flowers

O vocalista do The Killers – nome da banda fictícia que estrela o clipe de Crystal, do New Order – canta com devoção de fã em Superheated. Em dois shows do Killers em Manchester, Flowers chamou Sumner ao palco para dividir os vocais em Bizarre Love Triangle, clássico do New Order. Os Killers gravaram Shadowplay, do Joy Division, para a trilha sonora do filme Control (2007), sobre Ian Curtis.

>> Joe Duddell

Fez os arranjos de cordas e conduziu a Manchester Camerata em cinco faixas. Duddell, que já trabalhou com as bandas locais James e Elbow, realizou um sonho de adolescente ao colaborar com o New Order.

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