"Quero despertar a sensação de que o poema é muito vivo", diz a artista plástica catarinense Fê Luz Marco Favero/Agencia RBS

Na exposição Palavra em Fluxo, poetisa visual apresenta seus poemas por meio de diferentes experiências sensoriais 

Foto: Marco Favero / Agencia RBS

Esqueça os livros tradicionais e entediantes declamações de poesia. Na exposição Palavra em Fluxo, em cartaz no Museu da Imagem e do Som de SC até o dia 09 de fevereiro, a artista plástica catarinense Fê Luz propõe um outro jeito de sentir a poesia, uma experiência sensorial em que o texto não é preso ao papel e a palavra aparece em vídeos, áudios e até objetos.

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Poetisa visual com três livros publicados - Dormir Pedra Acordar Passarinho, Pequenas Quinquilharias para Colecionadores Precoces e Verbalizações do Amor em Transe - Fê Luz leva para a exposição diferentes formas de composição de seus poemas, mesclando falas de artistas e amigos com sons do cotidiano, captados com seu próprio celular. Incansável, a artista voltou recentemente de Portugal, onde foi a única catarinense entre os cinco brasileiros que participaram do evento Raias Póeticas: afluentes ibero-afro-americanos de arte e pensamento.

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Ela também já vem coletando e criando materiais novos para futuros projetos. Mas, por enquanto, está animada com a exposição no MIS, que é dividida em dois momentos - Infrapoesia, que se apropria de signos urbanos e códigos de sistemas computacionais, e Matéria em Suspensão, uma poesia viva, onipresente e sempre em movimento.

Artista plástica explica seu processo de trabalho. Confira a entrevista:

Poesia sonora
Convido pessoas para interpretarem meus poemas em línguas diferentes: grego, francês, alemão, espanhol. Está sendo bem legal porque o poema sai, expande-se, não é mais só meu. Quando a gente faz um livro, qualquer obra, já não é mais seu, vai pro mundo. Mas ouvir um poema por outra pessoa é uma coisa muito bonita, porque já é interpretação do outro, com o sentimento do outro. É uma coisa da qual eu não tenho controle, porque leria diferente. E gosto de que aquilo já não seja mais do meu jeito. É um dos objetivos da poesia, eu acho.

Intervenções urbanas
Alguns vídeos da exposição mostram intervenções urbanas com poesia. Já fiz bastante coisa nessa área. Tenho um trabalho bem conhecido aqui em Florianópolis que se chama Vendem-se Frases Avulsas. São estênceis de frases à venda com preços caríssimos em que questiono os valores da sociedade e o valor da poesia na vida das pessoas. São um pouco profundas, filosóficas, mas são frases. Eu estou nesse momento mais minimalista. Em vez de textos enormes, frases, palavras e coisas mais sucintas que acho que têm mais a ver com nosso tempo de hoje, que é mais rápido. Para as pessoas perceberem o trabalho de poesia na rua, não pode ser um texto muito grande. Ninguém tem tempo para isso.  

Intervenção Vendem-se Frases Avulsas Foto: Cristina Wolff / Divulgação

Infrapoesia
É um movimento que tá acontecendo no Brasil. É a continuação da poesia concreta, o movimento mais importante no Brasil dos anos 50 para cá, em que a palavra se torna um elemento visual. A infrapoesia vai além porque ela é o ruído que sobrou da poesia concreta. Venho trabalhando esses sinais e caracteres, como acentos e colchetes, desde meu terceiro livro. Eles permitem ler sem ler. São barulhos, ruídos. Você pode respirar aquilo, se quiser. É a imagem do escrito. É uma sensação que cada um lê da sua maneira.  

Palavra em fluxo
Eu não gosto de explicar, porque é legal que o outro descubra. Esse é o lance da poesia e de qualquer arte. Se você fala "fiz essa pintura pensando nisso", não dá nem chance do outro descobrir outras coisas. Mas acho que queria despertar a possibilidade da palavra e da poesia estarem em todos os lugares. A Palavra em Fluxo é poesia na rua, em casa, no cinema. É essa multiplicidade que a palavra tem. Esse poder de transitar em tantas linguagens ao mesmo tempo, que sai do livro e não fica presa só à prateleira. Eu quero despertar isso, essa sensação de que o poema é muito vivo. E mostrar um pouco da minha trajetória com experiências diferentes com a palavra.

Academia
A poesia e a palavra são universais. É elemento de comunicação. A possibilidade de inventar palavras é ao mesmo tempo uma brincadeira de criança, uma coisa ancestral e uma coisa do futuro. Sempre vai existir. Eu invento palavras, não tenho limites. Sou bem livre na minha criação, quero continuar tendo essa liberdade que eu tenho. A academia nos limita às vezes, tem de referenciar tudo. Quem é muito da literatura e da teoria vê referências e releituras no meu trabalho nas quais eu nem tinha pensado. Prefiro que os outros façam isso por mim para eu continuar bem livre. Isso me dá bastante vigor, acho que é o que faz meu trabalho existir.  

Agende-se
O quê: Exposição Palavra em Fluxo, de Fê Luz
Onde: Museu da Imagem e do Som de Santa Catarina - MIS/SC, no Centro Integrado de Cultura - CIC (Avenida Governador Irineu Bornhausen, 5600, Agronômica, Florianópolis)
Quando: até 09/02, de terça-feira a sábado, das 10h às 20h30min. Domingos e feriados, das 10h às 19h30min
Entrada gratuita
Informações: (48) 3664-2650

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