Carlos Schroeder: Apesar do desastre da política cultural em SC, novas iniciativas resgatam a literatura Léo Cardoso/Agencia RBS

Livros da coleção 'Autores Catarinenses' lançada pela editora Unisul no ano passado

Foto: Léo Cardoso / Agencia RBS

Embora as políticas públicas para a difusão e o fomento da cultura em Santa Catarina sejam um desastre de proporções nucleares, algumas iniciativas vem se sobressaindo, especialmente no quesito memória da literatura.  A Editora Unisul, com apoio da Academia Catarinense de Letras, lançou no ano passado a Coleção Autores Catarinenses, com títulos de difícil acesso ou raros, como Assembleia das Aves, de Marcelino Dutra, publicado originalmente em 1847,  eMares e Campos - Quadros da Vida Rústica Catarinense (1895), de Virgílio Várzea; e Arcaz de um Barriga-Verde (1930), de José Boiteux. E vem mais por aí: autores como João Silveira de Souza (1824-1906), Luiz Delfino (1834-1901), Duarte Paranhos Schutel (1837-1901), José Cândido Lacerda Coutinho (1841-1900), Delminda Silveira (1854-1932), João da Cruz e Sousa (1861-1898), Juvêncio de Araújo Figueiredo (1864-1927) e Ildefonso Juvenal da Silva (1894-1965) também serão resgatados pela coleção.

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Quase-memória

Uma coleção que vale ouro: a recém-lançada João do Rio, da editora Carambaia, reúne uma seleção de artigos produzidos entre 1899 e 1919 em três volumes (Crônica, Folhetim e Teatro) com um projeto gráfico encantador. João do Rio foi o pseudônimo mais famoso de Paulo Barreto (1881-1921), um dos autores mais controversos do início do século XX: cronista prolífico, também foi crítico de arte, romancista, ensaísta e contista. Conquistou uma vaga na Academia Brasileira de Letras aos 29 anos e denunciou a miséria dos excluídos, algo  que não tinha espaço algum na imprensa da época. Deixou 25 livros e mais de 2.500 textos publicados em jornais e revistas.

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Vale a pena ler de novo

Um adesivo avisa: ¿Acho melhor não comprar¿. Mas como não sucumbir ao projeto gráfico e acabamento de Bartleby, o escrivão – Uma história de Wall Street, lançado em 2005 (mas com pelo menos sete reimpressões) pela extinta Cosac & Naify? Para ler o livro você deve puxar uma fina linha que desobstrui a capa e, por fim, com uma régua plástica que vem com o livro, abrir as páginas não refiladas do miolo. Com todas as páginas abertas, a fonte itálica nos leva ao universo do norte-americano Herman Melville, autor de Moby Dick,e ao ousado escrivão Bartleby, que resolve simplesmente não fazer mais nada da vida, ócio absoluto; e começa a passar os dias em estado de contemplação, sempre com a frase ¿Acho melhor não... copiar, escrever, ir embora etc.¿ Até que ele se torna um estorvo tão grande que nem mesmo seu patrão, um altruísta, se compadece. Bartleby acaba na prisão por excesso de contemplação (vadiagem, diz a polícia) e, num certo dia, não abre mais olhos o pobre Bartleby.  O posfácio de Modesto Carone explicita como o autor da curta história fascinou Borges e Lawrence; tanto que o primeiro classificou a história de Bartleby com uma conclusão simples: a obra de Kafka projeta sobre Bartleby uma curiosa luz ulterior.

Escrita em 1853, essa obra prima (que para Gilles Deleuze desafia toda a psicologia e a lógica da razão) inspirou o escritor espanhol Enrique Vila-Matas no seu impagável Bartleby & Companhia, onde um escritor resolve voltar à ativa depois de 25 anos de eclipse literária e passa a fazer notas de rodapé para um romance inexistente. Ele usa o artifício de escrever sobre escritores do Não, os escritores da renúncia, que abandonaram a escrita depois de um relativo sucesso, como Rulfo, Salinger, Rimbaud e também ágrafos como Clément Cadout, cujas suas ¿obras completas¿ foram seu epitáfio. ¿Há algum tempo que persigo o amplo espectro da síndrome de Bartleby na literatura, há algum tempo que estudo a doença, o mal endêmico das letras contemporâneas, a pulsão negativa ou a atração pelo nada que faz com que certos criadores, embora tendo uma consciência literária muito exigente (ou talvez precisamente por isso), nunca cheguem a escrever; ou escrevam um ou dois livros e depois renunciem à escrita; ou, depois de avançarem sobre uma obra fiquem, um dia, literalmente paralisados para sempre.¿

Bartleby, o escrivão – Uma história de Wall Street e Bartleby & Companhia são dois livros que fazem cada vez mais sentido: são livros do não, do silêncio, algo quase impossível nesta era de opiniões gritantes, neste país que fez da opinião (e não do conhecimento) a sua maior bandeira.

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