Polêmico e original, ERRO Grupo celebra 15 anos de teatro Diorgenes Pandini/Agencia RBS

Foto: Diorgenes Pandini / Agencia RBS

Colocar a arte no mesmo nível do cotidiano nem sempre é fácil. É preciso tirá-la de um pedestal, arrancá-la de dentro de construções seculares encerradas em si mesmas e na memória do que um dia foi para jogá-la na rua, sem que ela seja uma experiência intelectual. Apenas uma experiência. Ao provocar o público a sair do ponto de observador distante da obra artística, o ponto onde essa obra é por vezes inatingível, o ERRO Grupo insiste há 15 anos em levar o teatro para ocupar o espaço urbano e democrático. 

Desde a criação a premiada companhia de Florianópolis escolheu a rua como palco e cenário de suas montagens. Muitas vezes polêmicas, escatológicas ou irônicas, as peças do ERRO fogem das linguagens clássicas e do aspecto museológico do teatro tradicional. 

- Queremos uma poética dos anos 2000. Nossa tentativa é buscar uma linguagem nova. Tem mais gente querendo fazer teatro do que assistindo e a gente pensa sobre isso. O público está ansioso para entrar no jogo - diz o diretor, dramaturgo e ator Pedro Bennaton. 

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E o público entra. Mesmo que nem sempre saiba que já é parte do jogo e que é um agente ativo da obra teatral. E assim os atores Pedro Bennaton, Luana Raiter, Luiz Henrique Cudo e Sarah Ferreira, mais os cerca de 10 colaborares, persistem no erro e o acerto, e vem fazendo história na cena teatral brasileira.  

TEATRO PARA QUEM NÃO VAI AO TEATRO

Quando começou em 2001, a questão "arte para quem?" permeou as pesquisas e o fazer artístico do grupo ERRO. Isso os levou ao espaço urbano, por não quererem estar apenas em salas expositivas e sim chegar num público que talvez nunca tenha ido ao teatro. Esse querer ir para fora é uma herança da universidade pública. Depois de uma grande greve no ano 2000, que interrompeu as aulas da Udesc por 120 dias, os então estudantes de artes Cênicas desenvolveram ações performáticas para sair de dentro dos muros da universidade e alcançar a população. 

 Embora o embate com o sistema capitalista esteve sempre presente de alguma forma, o ERRO deixa claro que não faz teatro de mensagem. É um grupo que se posiciona e produz peças de enfrentamento com os poderes instituídos. 

 A primeira montagem, por exemplo, Adelaide Fontana, foi apresentada na vitrine de uma loja na Rua Felipe Schmidt, Centro da Capital, e convidava à reflexão: o teatro não está à venda. 

Espetáculo "Adelaide Fontana", apresentado dentro de uma vitrine Foto: Ver Descrição / Ver Descrição

De lá para cá apresentou quase 20 trabalhos, entre peças, performances e ações, rodou por 60 cidades do Brasil e por países como Espanha, Estados Unidos, Romênia e França e coleciona prêmios. Um número espetacular se levar em consideração que são peças de enfrentamento com poderes instituídos, gratuitos e na rua. 

CIDADE-SEDE É A RUA 

Em celebração aos 15 anos o ERRO Grupo realizou no começo do ano o projeto Persistência, contemplado com o Prêmio Catarinense de Teatro do Edital Elisabete Anderle de Estímulo à Cultura. Durante os meses de janeiro e fevereiro eles promoveram ciclos de debates sobre temas pertinentes ao cotidiano da Capital, como a desordenada relação com o turismo, o transporte público e a Ponte Hercílio Luz. Promoveram também cursos abertos à comunidade e a artistas. Todos os encontros ocorreram na esquina das ruas Trajano com Felipe Schmidt, no Centro, local eleito como Cidade-Sede da companhia. 

- Ocupar a rua é imprevisível. São estabelecidos todo tipo de relação e muitas pessoas só se dão conta de que era teatro quando estão indo embora. Há quem não entenda que é um trabalho de arte - diz a atriz Sarah Ferreira. 

Se pedir a ela para puxar na memória situações extremas de interação com os transeuntes, com o público ativo e aquele que estava passando e foi pego de surpresa ou com os moradores de rua, a lista inclui xingamentos de "malucos" a participação na cena. 

- A linguagem que utilizamos é contrária à arte popular, mas é uma linguagem acessível porque está na rua. A gente não vai sair porque as pessoas não entendem - complementa o ator Luiz Henrique Cudo. 

REALIDADE E FICÇÃO

Os trabalhos do ERRO seguem uma cronologia e coerência. A mistura entre realidade e ficção é um ponto de interesse comum nas montagens. 

- Esse posicionamento "entre" é muito potente. É uma zona limítrofe interessante porque ajuda a trazer a realidade para a peça e podemos agir sobre a ficção - diz a atriz e dramaturga Luana Raiter. 

Montagem de "Enfim Um Líder" Foto: Ver Descrição / Ver Descrição

Ela lembra de uma apresentação do espetáculo Carga Viva, de 2002, quando um ator foi roubado de cena e público não só participou como construiu a dramaturgia. 

- Coisas acontecem e a gente repensa. Em 2006 a gente observou a questão da insegurança na cidade e apresentamos isso no espetáculo Desvio, que resultou numa das atrizes sendo abordada pela polícia. Não era inocente, sabíamos que tinha um enfrentamento com a lei. Não somos vítimas - ressalta Pedro Bennaton. 

Montagem de "Hasard", de 2012 Foto: Ricardo Wolffenbüttel / Agencia RBS

INTERCÂMBIO NA ARGENTINA E EUA

No dia 8 de março alguns integrantes do ERRO viajam para Argentina e em abril participam do festival PEN World Voices, em Nova York, onde farão a performance Any Body na rua Washington Mews (mews são ruas que antigamente eram estrebarias). 

Algumas peças do ERRO

Adelaide Fontana (2002)
Carga Viva (2002)
Enfim Um Líder (2007)
Formas de Brincar (2010)
Hasard (2012)
Geografia Inútil... (2014) 


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