Sem sangue, sexo e magia, Red Hot Chili Peppers vivem apenas de açúcar Ellen von Unwerth/Divulgação

Flea (baixo), Josh Klinghoffer (guitarrra), Chad Smith (bateria) e Anthony Kiedis (vocal): cada vez mais brancos e sem groove

Foto: Ellen von Unwerth / Divulgação

Você sabe que a velhice chegou quando acha o 11º disco dos Red Hot Chili Peppers pão-com-molho demais e um colega bem mais moço o considera o melhor álbum da banda. Ambos têm boas razões para avaliar o recém-lançado The Getaway desse jeito. Um tem como referência a primeira década do grupo, identificada por grooves, mau comportamento & hábitos ainda piores. O outro conheceu o quarteto já em adiantado processo de aerosmithzação – ou seja, só emplacando baladas – e, com a falta de curiosidade típica de sua faixa etária, pensa que foi sempre assim.

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O leitor imberbe e a leitora pubescente podem não se interessar em saber, mas é inegável o embranquecimento da banda ao longo dos anos. Daqueles tempos de funk (o legítimo, não o carioca), não ficou nada de sangue nem de sexo e muito menos de magia. A matriz negra foi desaparecendo aos poucos até que sobrasse somente açúcar em doses cada vez mais cavalares a partir de Californication (1999). Isto posto, não há dúvida de que The Getaway é o trabalho em que os Chili Peppers transitam com mais desenvoltura desde que empalideceram. Em suma, é o melhor dos piores discos do grupo.



Com Danger Mouse (Gnarls Barkley, Broken Bells) na produção, as pimentas finalmente se encontraram no mundo inofensivo que escolheram habitar. Nas mãos do produtor, o instrumental ardente que não combinava com a proposta foi enquadrado. Tudo soa mais contido, sutil, à feição das melodias doces de The Longest Wave ou Sick Love. Um tantinho de veneno, apesar da diluição, é sugerido apenas em Go Robot. Mesmo assim, com a devida “customização” para as novas gerações não se apavorarem com o que restou de picância.

Um axé para a melancolia
Catarinense radicado em Maceió, Wado vem aí com Ivete, seu “disco de axé”. Calma lá: é que o novo trabalho tem muito de guitarra baiana, com certeza mais animada do que o tom meio melancólico que pontuou as incursões anteriores do artista. Pela amostra que já está circulando do disco, o single Alabama, o papo é sério. Embora não fique deslocada dentro do que ele vem apresentando desde que surgiu com o até hoje imbatível Manifesto da Arte Periférica (2001), a canção traz uma levada samba-reggae pronta para descer o Pelourinho. O toque pessoal vai na letra. Em vez de levantar poeira, versos como “sangue nas folhas, sangue na raiz” remetem a Strange Fruit, o clássico anti-racismo cantado por Nina Simone.




LANÇAMENTOS

Graveola, Camaleão Borboleta – Com influências que vão de ritmos regionais a Novos Baianos, de pop a psicodelismo, os mineiros justificam os mimetismos do réptil que batiza o disco. O outro bicho do título surge quando esses elementos todos são transformados em algo que dá liga ao trabalho, como Back in Bahia e Maquinário.



Rough Guide to Brazilian Jazz – Coletâneas do gênero costumam ser uma armadilha: ou caem no lado mais batido da bossa nova ou trazem algum sambinha com cara de macumba para gringo. Essa também derrapa, mas se salva por trazer um panorama da cena nacional do estilo com base no trabalho de gente esperta como Tulipa Ruiz, Bixiga 70 e Juçara Marçal.


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