Carlos Schroeder: Um clássico da literatura romena acaba de chegar às prateleiras do Brasil reprodução/Reprodução

Capa do livro "Corações cicatrizados", de Max Blecher

Foto: reprodução / Reprodução

A editora Carambaia acaba de lançar um clássico da literatura romena: Corações cicatrizados (231 páginas, R$ 79,90) de Max Blecher (1909-1938), com tradução de Fernando Klabin. O romance narra a história do jovem Emanuel, que estuda Medicina em Paris quando descobre sofrer do mal de Pott, uma tuberculose óssea que afeta a coluna vertebral. O protagonista parte então para Berck-sur-Mer, balneário no litoral norte da França especializado no tratamento da enfermidade. Na cidade, cinco mil pacientes provenientes de todos os cantos do mundo se submetem à terapia, que consiste na imobilização do corpo por um colete de gesso. Envoltos nessa carapaça, os doentes são forçados a passar meses deitados, à espera de que seus ossos quebrados e roídos sejam endireitados e consolidados. Mas nada de monotonia: não precisam ficar restritos à cama. Locomovem-se com a ajuda de maqueiros e até sozinhos, em charretes adaptadas, puxadas por cavalos. Eles procuram levar uma vida quase normal, mas sempre na horizontal.

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Edição primorosa e filme

Com tradução direta do romeno, o volume tem capa envolta em tecido, reproduzindo a trama do gesso que imobiliza os pacientes de Berck. Outro detalhe do projeto gráfico: quando Emanuel é imobilizado e tem de viver deitado, o texto muda de orientação, e a leitura passa a ser na horizontal. Corações cicatrizados chegará em breve também aos cinemas: o livro foi transformado em filme pelo diretor romeno Radu Jude, vencedor do Urso de Prata de Melhor Diretor no Festival de Berlim de 2015.

 Vida real

Assim como o personagem Emanuel, o autor Max Blecher também recebeu o diagnóstico do mal de Pott quando estudava em Paris, aos 19 anos. Blecher é frequentemente comparado pela crítica a Franz Kafka, Bruno Schulz ou Robert Walser, o que eu acho um exagero (mas é um autor que merece ser descoberto pelo público brasileiro). Blecher nasceu em 1909 na província da Moldávia, viveu em Paris e, por causa da doença, passou temporadas em sanatórios da França, Suíça e Romênia. Ligado aos modernistas romenos, Blecher começou a escrever para revistas literárias aos 19 anos. Aproximou-se do movimento surrealista em Paris e, em 1935, teve um texto publicado na revista de André Breton, com quem se correspondia com frequência. Blecher morreu aos 28 anos, deixando um livro de poesia, Corpo transparente (1934), três romances - Acontecimentos na irrealidade imediata (1936), Corações cicatrizados (1937) e A toca iluminada (publicado postumamente, em 1971) –, além de contos, resenhas, artigos e traduções.

Dor e terra: um trecho

¿Os peixes continuavam deslizando tristes debaixo da luz mortiça. Havia na sala tanto silêncio, tanta escuridão e tanta solidão, que, se aquela situação tivesse durado uma eternidade, Emanuel não teria tido mais nada a dizer. Pelo contrário, ele a teria aceitado com resignação, permanecendo assim ainda muito tempo do lado de cá da verdade brutal que, talvez, ele haveria de descobrir dentro de poucos minutos. Do lado de trás de uma porta, alguém deu uma tossidela como resposta atrasada à sua tosse de poucos instantes antes. Apareceu na soleira uma criatura diminuta, escurecida, como um animal assustado saindo da toca.

– O senhor foi enviado pelo doutor Bertrand? Bom! Já sei, ele me telefonou... dores violentas no lombo, não é isso?... Uma radiografia da coluna vertebral.

O homúnculo esfregava nervoso as mãos, como se quisesse se livrar dos restos de terra que tinham ficado presos aos dedos enquanto cavara seu buraco.¿

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