Trilha de Justiça impressiona tanto quanto o desempenho de Kellen Estevam Avellar/TV Globo/Divulgação

Além de Leandra Leal na pele da prostituta Kellen, vale a pena prestar atenção nas músicas que embalam a série

Foto: Estevam Avellar / TV Globo/Divulgação

A trilha sonora de Justiça tem chamado tanto a atenção quanto a realidade crua & cruel retratada nas quatro tramas que se entrelaçam. A série exibida pela RBS TV entra na semana derradeira com pelo menos outra proeza como legado, ao lado do corpinho de Leandra Leal: revelar ao público da emissora artistas até então semidesconhecidos fora do nicho ao qual estão associados. De repente, aquela sua prima pagodeira convertida pelo trip hop do Massive Attack em Verdades Secretas descobriu como é capaz de se comover quando ouve o queridinho indie Rufus Wainwright entoar Hallelujah.

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Não muito tempo atrás, a definição das músicas que embalavam os folhetins televisivos seguia um padrão. Gravadoras ofereciam músicas, interessadas na exposição diária no horário nobre. Temas eram compostas especialmente para este ou aquele personagem. A canção ia parar no disco oficial, lançado pela gravadora ligada à emissora. A internet bagunçou esse modelo. O consumidor não precisa comprar um CD inteiro atrás da única faixa que gostou. E, com um catálogo quase infinito à disposição nos serviços de streaming, diretores, roteiristas, produtores e atores podem dar suas sugestões para a trilha.



Cauã Raymond, por exemplo, construiu Maurício na onda do jazz revolucionário de Miles Davis (Bitches Brew) e da melancolia do alternativo Citizen Cope (Sideways). A Vânia de Drica Moraes já cantou O que Será, de Chico Buarque, que aparece ainda em Pedaço de Mim, com Zizi Possi. Os nordestinos Elba Ramalho (Risoflora), Fagner (Revelação), Geraldo Azevedo (Dona da Minha Cabeça) e Johnny Hooker (com uma versão brega cool de Pense em Mim) dão cor local às histórias, ambientadas em Recife. Sobra até para Los Hermanos, que emplacaram a bonita Último Romance. Não é nada, não é nada, é do que vamos lembrar depois do último capítulo, na sexta. Além de Kellen só de lingerie, lógico.

Causa e efeito
A britânica de origem cingalesa MIA despontou para o mundo em 2005, agregando o pancadão do funk carioca aos ritmos da globalização. Quatro discos depois, o pop eletrônico e étnico da cantora volta a bombar com Aim. Os bailões do Rio são coisa do passado perto da exploração que ela faz de estilos mais identificados com suas raízes no Sul asiático. Menos pretensiosa, ela bota o povo para chacoalhar com as nervosas Borders, Go Off, Swords ou Visa. A política continua um elemento vital em sua obra, mas parece que o ensinamento da anarquista lituana Emma Goldman (1869-1940) foi aprendido na marra: “Se eu não puder dançar, não é a minha revolução”.




LANÇAMENTOS

Marcapágina, Sexto Grau – Uma das promessas do pop rock de Florianópolis, o quarteto empacota mais cinco músicas neste segundo EP. Maturidade e identidade à parte, o que sobressai é o cuidado com que o grupo trabalha cada elemento de sua música, evidente em Lei dos Três Segundos, Elas e Motivos de um Fim.



Real Rio – Na esteira dos Jogos Olímpicos, o selo inglês de música brasileira Mais Um Discos encomendou a Chico Dub uma compilação dos novos sons da cena carioca. O produtor não se fez de rogado e, em 30 faixas, teceu um panorama que vai das loucuras neotropicalistas de Ava Rocha à psicodelia do Supercordas. O Rio continua lindo.

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