Paredão de Orleans: grupo de trabalho promove ações para restaurar a obra esculpida em rocha Caio Marcelo/Especial

Paredão de Orleans esculpido na década de 80 resiste ao tempo

Foto: Caio Marcelo / Especial

Em meio à natureza, emolduradas pelo verde e às margens do Rio Tubarão, as esculturas em rocha do Paredão de Orleans resistem ao tempo, e os nove painéis esculpidos pelo artista Zé Diabo ainda na década de 1980 chamam a atenção pela grandiosidade.

Quando esculpiu o paredão, o artista José Fernandes, hoje com 86 anos, não imaginava a dimensão do que estava fazendo. O paredão, que fez parte da infância e juventude de Fernandes, foi aberto com a passagem da estrada de ferro Thereza Christina para o transporte de carvão. Uma enchente levou os trilhos da região, e o paredão permaneceu intocado até que o artista decidiu procurar apoio para começar a trabalhar nas rochas. 

O Paredão de Orleans é um dos pontos turísticos da cidade, e os quase 200m² de pedra esculpida levaram cerca de oito anos para serem finalizados. Os nove painéis estão dispostos em uma extensão de cerca de 60 metros, a pelo menos 10 metros de altura do chão. São passagens bíblicas lapidadas por Zé Diabo, que ganhou o apelido contraditório depois de pintar um diabo em um a capela.

— As passagens da Bíblia, o turista que vier, de qualquer lugar do mundo, conhece, então deixa a escultura mais fácil de ser compreendida — explica. Para projetar os desenhos, Zé riscava na pedra com o carvão, atravessava o rio, visualizava de longe e voltava para fazer as modificações. Quando o projeto ganhou apoio da prefeitura e da Fundação Catarinense de Cultura, ele chegou a trabalhar com ajudantes, mas depois de um tempo o apoio financeiro cessou. Ficaram pelo caminho e perdidos entre os papéis outros 17 painéis, mas Zé não se lamenta por isso. Nesse momento, o maior desejo é ver a área recuperada.

— Meu maior sonho é ver isso aqui bonito. Quando eu fiz não ficou comigo a responsabilidade da manutenção, então gostaria  que respeitassem e dessem o valor que merece — resumiu o artista.



Para segurar a ação do tempo

Na intenção de frear a ação do tempo e iniciar o processo de restauração da obra, uma equipe multidisciplinar avança na pesquisa de métodos e produtos a serem utilizados no local.

Fazer a retirada das árvores e vegetação que avançam sobre as rochas não é tarefa tão simples. De acordo com o professor Guilherme Doneda Zanini, podar ou arrancar as espécies é uma maneira de fortalecer as copas ou raízes, o que prejudica ainda mais a obra. Em um primeiro momento, o trabalho será feito com o uso de herbicidas.

— O estudo tem que ser bem minucioso para não prejudicar ainda mais o estado em que se encontra. A gente conseguiu identificar em torno de 40 espécies arbóreas, de mais ou menos 10 espécies nativas diferentes, além de agentes como liquens, uma associação entre algas e fungos, degradando a obra — explica o médico veterinário e doutor em produção vegetal.

Zanini e outros profissionais envolvidos na pesquisa atuam junto à Universidade Barriga Verde (Unibave) de Orleans, proprietária da área onde fica o paredão. O estudo conjunto envolve os setores de agronomia, medicina veterinária, engenharia civil, museologia e o laboratório de conservação e restauração. Idemar Ghizzo, coordenador do laboratório, explica que o estudo da composição das rochas também foi determinante para definir quais medidas podem ser tomadas na área.

— Foi preciso conhecer quais os agentes de degradação para poder combatê-lo — projeta Ghizzo.

Para a museóloga Valdirene Böger Dorigon, o objetivo maior do projeto é frear a ação do tempo. As esculturas, que tinham um relevo médio de 10 centímetros, hoje estão com sete, e com o tempo a tendência é que continue diminuindo.

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