O que se leva ao final de um ano? Cada concepção é diferente. Cada perspectiva. Cada limitação. Cada sonho. Cada meta. Para mim, o que levamos ao término de um ano é sempre novas memórias. Absorvemos de tudo em 2016: tragédias pessoais, coletivas, financeiras, políticas. E também observamos minguar muitas certezas que tínhamos. Em compensação, nós vimos renascer novas esperanças, confraternizações e novas certezas. A memória, todavia, é de cada um. É singular, mas não é restrita.

A seguir, eu separei os filmes que levarei na memória neste ano (separando-os em dois blocos: no primeiro, os filmes lançados mundialmente; no segundo, os que foram exibidos comercialmente no país).

Melhores filmes lançados em 2016:

1. Martírio (Idem. Brasil, 2016)

Passaram-se 15 anos desde a primeira vez que o diretor Vincent Carelli angariou depoimentos da tribo indígena guarani-kaiowá no interior de Mato Grosso do Sul, mas agora ele precisa voltar. Acentuou-se o debate sobre a demarcação das terras daquele povo e ninguém parece muito bem com isso no governo federal.

2. HyperNormalisation (Idem. Inglaterra, 2016)

Com um documentário vasto e profundo sobre a contracultura e o poder incalculável das corporações ao redor do globo, Adam Curtis desenvolve uma tese irretocável sobre o caminho que percorremos para chegar até esse momento, em 2016, onde passamos a perceber o quão irrisória é nossa influência como indivíduos num sistema que nos engole desde que somos concebidos. Na visão do britânico, o conceito "hypernormal" nascido na Rússia transa perfeitamente com a suprema hipocrisia de quem nos governa e as escolhas das batalhas que ditam o nosso futuro.

3. A Criada (Ah-ga-ssi. Coréia do Sul, 2016)

Park se preocupa com a sensação de cada uma de suas personagens e com a leveza da paixão em contraste com o descontrole do tesão. Um paradoxo lindo para se filmar e que o cineasta faz como poucos.

4. Aquarius (Idem. Brasil/França, 2016)

Existe um elo que interliga O Som ao Redor e Aquarius e que reside em duas peças primordiais do tabuleiro de Kleber Mendonça Filho: a primeira, a memória conservada; a segunda, a reclusão e o Brasil social como coadjuvante. No filme de 2012, a reclusão era através da falsa segurança da classe média e as rachaduras no desequilíbrio capital, enquanto, no filme de 2016, Kleber transforma a jornada de uma única pessoa em uma introspectiva resistência ao abandono e a luta por direitos básicos.

5. O.J.: Made in America (Idem. EUA, 2016)

Assim como o caso que é o ponto central de sua biografia, o documentário sobre O.J. Simpson aproveita o contexto que sua vida está inserida para fazer um resgate cirúrgico impressionante sobre o racismo na América e sua influência indireta num dos casos mais marcantes da história recente dos EUA.

6. High-Rise (Idem. Inglaterra, 2015)

A ambição cada vez maior de Ben Wheatley é provocativa em sua extravagância, sofisticação e na solidificação das personalidades que guiam ao caos. Logicamente, uma fábula anticapitalista insana, violenta e cômica, que carrega a marca do cineasta.

7. Kate Plays Christine (Idem. EUA, 2016)

É um documentário que não nos conta apenas a entrega para uma transformação, como também evidencia nosso fascínio por outras vidas e outras histórias.

8. Sing Street (Idem. Irlanda, 2016)

Um dos melhores retratos sobre contextos sociais e familiares que formam artistas, inspirando-nos a usar de suas musas (com todas as suas imperfeições) para conseguir caminhar por suas vidas. Uma nova obra-prima de John Carney.

9. Elle (Idem. França/Alemanha/Bélgica, 2016)

Para estabelecer sua complexidade narrativa, Paul Verhoeven conta com uma Isabelle Huppert no auge.

10. Uma Noiva Para Rip Van Winkle (Rippu Van Winkuru no hanayome. Japão, 2016)

Um filme duro e melancolicamente cruel com sua protagonista, brilhantemente interpretada por Haru Kuroki, rende um retrato intrigante acerca de nossa necessidade pela conexão a qualquer custo, a fim de escapar de uma solidão inebriante. 

Outros filmes que merecem menção (na ordem):

11. Christine (Idem. Inglaterra/EUA, 2016)

12. Toni Erdmann (Idem. Alemanha, 2016)

13. Boi Neon (Idem. Brasil, 2015)

14. Lamento, O (Goksung. Coréia do Sul, 2016)

15. Leste-Oeste (Idem. Brasil, 2016)

16. Zero Days (Idem. EUA, 2016)

17. Jackie (Idem. Chile/França/EUA, 2016)

18. Vermelho Russo (Idem. Brasil/Rússia, 2016)

19. Como Me Apaixonei por Eva Ras (Kako sam se Zaljubio u Evu Ras. Portugal/Bósnia, 2016)

20. The Stopover (Voir du pays. França/Grécia, 2016)

21. Sete Minutos Depois da Meia-Noite (A Monster Calls. Espanha/Inglaterra/EUA/Canadá, 2016)

22. 13ª Emenda, A (13th. EUA, 2016)

23. Graduação (Bacalaureat. Romênia/França/Bélgica, 2016)

24. Apartamento, O (Forushande. Irã, 2016)

25. 24 Semanas (24 Wochen. Alemanha, 2016)


Melhores Filmes Lançados no Brasil em 2016:

1. Aquarius (Idem. Brasil/França, 2016)

2. Spotlight - Segredos revelados (Spotlight. EUA, 2015)

Obra-prima sobre o jornalismo contemporâneo.

3. Anomalisa (Idem. EUA, 2015)

Dono de uma melancolia pura e magnetizante.

4. A Grande Aposta (The Big Short. EUA, 2015)

O cinismo com que encara um dos períodos mais problemáticos da economia mundial é sempre relevante e interessante.

5. Elle (Idem. França/Alemanha/Bélgica, 2016)

6. Certo Agora, Errado Antes (Ji-geum-eun-mat-go-geu-ddae-neun-teul-li-da. Coreia do Sul, 2016)

Durante seu passeio por aproximações e afastamentos, o diretor Sang-soo Hong capta as diferentes percepções da realidade, o que nos abre um leque sobre sinceridade que tece o maior debate da obra: as histórias se complementam.

7. Boi Neon (Idem. Brasil, 2015)

Com certa doçura, Mascaro apaixona-se por seus personagens, mas não negligencia a incapacidade e resignação de suas vidas, forçados à repetições eternas. Assim, de maneira quase documental, tornamo-nos parte de um universo genuíno, cujos homens e mulheres das vaquejadas, mostram-se tão enjaulados por rédeas sociais quanto os animais.

8. O Lamento (Goksung. Coréia do Sul, 2016)

Ao nos colocar na perspectiva inexperiente e amedrontada de seus personagens, o longa cultiva uma ingenuidade macabra e divertida que impressiona, garantindo um equilíbrio invejável e brilhante.

9. A 13ª Emenda (13th. EUA, 2016)

Um apanhado histórico incontestável sobre o enraizamento do racismo na sociedade.

10. Neruda (Idem. Chile/Argentina/França, 2016)

Larraín, cada vez melhor, usa seu biografado para passear por sua mente cinematograficamente, desafiando-nos, e tornando a jornada de sua descoberta imprevisível e intrigante.

Outros filmes que merecem menção (na ordem):

* Virando a Noite (The Overnight. EUA, 2015)

* Invocação do Mal 2 (The Conjuring 2. EUA/Canadá, 2016)

* Despedida, A (Idem. Brasil, 2016)

* Bruxa, A (The Witch. EUA, 2015)

* Fogo no Mar (Fuocoammare. Itália/França, 2016)

* Demônio de Neon (The Neon Demon. França/Dinamarca/EUA, 2016)

* Triplo 9 (Triple 9. EUA, 2016)

* Agnus Dei (Les Innocentes. França/Polônia, 2016)

* Zootopia (Idem. EUA, 2016)

* Academia das Musas, A (L'accademia delle Muse. Espanha, 2015)

* Cinema Novo (Idem. Brasil, 2016)

* Kubo e as Cordas Mágicas (Kubo and the Two Strings. EUA, 2016)

* Convite, O (The Invitation. EUA, 2015)

* Chegada, A (Arrival. EUA, 2016)

* Indignação (Indignation. EUA/China, 2016)

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