"Caio Fernando Abreu: Cartas" ganha nova edição; confira correspondência inédita do autor Adriana Franciosi/Agencia RBS

Caio Fernando Abreu em sua casa, em Porto Alegre, nos anos 1990

Foto: Adriana Franciosi / Agencia RBS

Marcante para os fãs de Caio Fernando Abreu (1948 – 1996) – e porta de entrada em seu universo para uma nova geração de admiradores –, Caio Fernando Abreu: Cartas foi lançado originalmente em 2002 pela editora Aeroplano. Com revelações sobre sua relação com Cazuza, trocas de confidências com Maria Lídia Magliani, Maria Adelaide Amaral, Adriana Calcanhotto, Bruna Lombardi e vários outros, o volume esgotou-se e ganhou novas edições nos anos seguintes. Agora, recebe nova roupagem, com capa diferente e algumas correspondências até então inéditas trocadas com Marcos Breda e Stella Miranda.

A nova edição, que acaba de chegar ao mercado, inicialmente apenas em formato de e-book, tem 600 páginas e custa R$ 19,90. O lançamento do selo HB, no e-galáxia, segue com organização de Italo Moriconi, além de contar com colaboradores como o gaúcho Luís Francisco Wasilewski, que trabalhou na pesquisa e digitalização das cartas, além de suas notas de rodapé, principalmente aquelas com referências a personalidades e obras artísticas mais familiares a quem transita pelo cenário cultural do Rio Grande do Sul. Em artigo exclusivo, Wasilewski fala a seguir sobre a experiência de participar do projeto.

Texto de Luís Francisco Wasilewski*
*Doutor em Literatura Brasileira pela USP, pesquisador do livro Caio Fernando Abreu: Cartas

Foi em agosto passado que o organizador Italo Moriconi me convidou para ser seu pesquisador na reedição da correspondência de Caio Fernando Abreu. O livro, lançado em 2002 pela Aeroplano, está há anos esgotado nas livrarias. Tornou-se artigo de luxo em sebos virtuais. Aceitei com grande prazer embarcar nesta gincana. Uso esta expressão porque, nos últimos meses, Moriconi, Sandra Espilotro e eu começamos uma busca frenética para localizarmos os destinatários do nosso missivista. Alguns são escritores, como Maria Adelaide Amaral e Mário Prata, mas também há atores como Regina Duarte, Marcos Breda e Stella Miranda, encenadores, a exemplo de Gilberto Gawronski, Luiz Arthur Nunes e Luciano Alabarse, e mais uma diversidade que nos dá a medida de como Caio conseguiu, em seus 47 anos de vida, transitar por múltiplos universos artísticos.

Isso também transpareceu na sua obra literária. No tempo em que viveu, escreveu contos, romances, textos dramáticos e roteiros de filmes. Além de traduzir autores como Susan Sontag e Carson McCullers, isso sem falar de sua atuação como jornalista na Folha da Tarde, em Zero Hora, O Estado de S.Paulo e tantos outros veículos.

Não é exagero dizer que a publicação das cartas do escritor impulsionou a "febre Caio Fernando Abreu", espalhada pelo meio universitário e também na internet. Lembro que, quando fui pesquisar a obra do autor, há 13 anos, eram raras as dissertações de mestrado e teses de doutorado sobre sua obra. Hoje elas abundam. E, com certeza, ele riria muito disso, afinal são dele joias do deboche como o de se autodefinir "o Ney Matogrosso da literatura brasileira" ou então afirmar que "os trabalhos de Cazuza e Rita Lee o influenciaram muito mais do que Graciliano Ramos".

O humor é um dos traços que perpassam a escrita de suas cartas. Em várias delas, ele se assina como Caio F., criando uma brincadeira com a personagem Christiane F., do filme Eu, Christiane F., 13 anos, drogada e prostituída (1981), de Uli Edel. Usa expressões do mundo gay, como "dar a Elza", que significa roubar, ou a hoje mais difundida "enfrentar uma saia justa" (situação incômoda).

Outro trabalho que tive para esta nova edição foi o de digitar as cartas inéditas, gentilmente cedidas por Marcos Breda e Stella Miranda. Em todas as endereçadas para Breda, Caio fala no feminino, como no trecho em que comenta sua situação financeira quando vivia em Londres na década de 1990: "Ando me sentindo ótimo. Um tanto inseguro com as granas, mas tento me virar. Domingo agora estreio lavando pratos no restaurante onde Cidinha trabalha, em Camden Town. Empregada! Sul-americana!".

Em outra missiva inédita cedida pelo ator, datada de 6 de fevereiro de 1991, ele faz uma radiografia da situação brasileira, tomando como base o Plano Collor: ¿Mas sabe o que eu acho? Que o Brasil não tem jeito: é assim mesmo, uma coisa que vai dar certo, está dando certo, quase deu. Porra, não deu. Fica pra outra¿. De uma lucidez e atualidade que impressionam.

Além da qualidade literária das cartas, o livro apresenta um panorama da cultura brasileira entre 1965 e 1996, ano do falecimento do escritor. Diletantes irão se divertir com as citações dele ao filme Deu pra ti anos 70 (1981), de Giba Assis Brasil e Nelson Nadotti, bem como à canção Nostradamus, de Eduardo Dussek, e à novela Vamp (1991). Por isso, boa leitura a todos. E, como ele adorava finalizar suas cartas: "JACIIIIIIIIIRAAAA".

Inédito: cartaz escrita por Caio Fernando Abreu a Marcos Breda, em Paris, em 8 de abril de 1991, incluída na nova edição do livro Caio Fernando Abreu: Cartas

"A Marcos Breda,

Paris, 8.04.91

Breda querido: há muitas discussões sobre o que realmente este gárgula está chupando (referência à imagem do cartão-postal no qual a carta foi escrita). Mas claro que só consigo pensar em uma coisa. Acho que ele também está pensando AH-UH-AH-UAH!

Estou in love avec Paris. Lindo demais. Alguns problema$ (peça tambores para Sonia!), mas tout va bien. Perdoe não ter falado direito c/você no telefone. O Carlinhos, onde estou (hospedado), dorme muito cedo – e eu tinha tomado um mogadon. Joukie! Morro de saudade de você. Se Deus quiser mais um mês apenas e estaremos juntos. Tem Jaciras inacreditáveis por Paris e até arrumei um flerte com o porteiro de uma boate gay chamada B.H. Pode? JACiiiiira!

1 beijo p/Carla

Outro p/Você.

Love, Caio F."


CAIO FERNANDO ABREU: CARTAS
Organização: Italo Moriconi
E-Galaxia, 600 páginas, R$ 19,90 (e-book).

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