Psicodália começa nesta sexta-feira, em Rio Negrinho Maykon Lammerhirt/Agencia RBS

O artista joinvilense Muriel Szym se apresenta no evento desde 2012

Foto: Maykon Lammerhirt / Agencia RBS

Em O Vira, maior sucesso do Secos & Molhados, Ney Matogrosso canta sobre um lugar onde "bailam corujas e pirilampos, entre os sacis e as fadas / E lá no fundo azul, na noite da floresta/ A lua iluminou a dança, a roda, a festa". Mais de 40 anos depois, ele mesmo se deparará com uma paisagem que poderia muito bem ter inspirado a canção: a Fazenda Evaristo, em Rio Negrinho, cujos campos adquirem tons de mundo encantado nos dias em que recebe o Psicodália.

Hoje, o portal para esse universo paralelo se abre pela 20ª vez, o que lhe confere uma aura especial, de êxito absoluto na proposta de unir artes e natureza em um ambiente de confraternização. As atrações estão a altura da data, mas, para quem frequenta o festival há tempos, esse é um entre vários motivos que conduzem milhares de pessoas ao Planalto Norte na época do Carnaval.

Como de costume, uma multidão de joinvilenses e de moradores das cidades da região farão da Fazenda Evaristo sua casa até a Quarta-feira de Cinzas. Não é força de expressão: a área vira um condomínio de barracas, e, tal qual vizinhos, os acampantes se cumprimentam, trocam produtos, bebem e cantam juntos e frequentam o lazer local — leia-se oficinas, sessões de cinema e teatro e, claro, os shows. Neste ano, além de Ney Matogrosso, o Psicodália receberá os veteranos Erasmo Carlos, Sá & Guarabyra, Di Melo, Gerson King Combo e Casa das Máquinas e destaques da nova música brasileira, como Céu, The Baggios, Tagore, Ian Ramil, Liniker e os Caramelows e Metá Metá.

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— Tudo no Psicodália faz sentido. Remete a um movimento de liberdade e a uma época que continua existindo para muitos que cresceram e vivem a essência do rock n' roll _ garante Muriel Szym, 36 anos, que desde 2012 apresenta o monólogo Por 3 Fios no festival.

Muriel — que lembra como hoje o show de Ian Anderson, líder do Jethro Tull, há dois anos — destaca o clima de comunhão que contamina os "psicodálicos". Para isso, exemplifica a vez em que ele a mulher usaram uma churrasqueira já reservada. Quando um coordenador veio chamar-lhes a atenção, recebeu o convite para chamar a família e dividir a fartura de comida que o casal havia trazido — e retribuiu com uma garrafa de Jack Daniels.
— Comemos, bebemos e depois fomos todos para o show. Foi fantástico.


Amizades e histórias para toda a vida

Essa espontaneidade também foi vivida pelo analista Gustavo Schwarz Medeiros, 27 anos. Durante um inocente banho no rio, ele e outras 12 pessoas se envolveram numa "briga de galo", quando uma sobe no ombro da outra e tenta derrubar a dupla adversário. Depois, seguiram para o acampamento, onde ficaram bebendo e cantando como se fossem velhos amigos. Para ele, esse tipo de situação é viver o festival e tão importante quanto os shows.

— Gosto da energia e da pseudo-comunidade que é montada por lá. Além disso, lá você reforça suas amizades e vive experiências incomuns e incríveis. Parece que todo mundo é conhecido e disposto a oferecer a mão para ajudar — diz Gustavo, que se prepara para sua oitava vez no Psicodália.

A cozinheira Daniela Nunes, 32 anos, de São Francisco do Sul, também une o útil ao agradável. Pela terceira vez seguida ela trabalhará no refeitório do festival e, ao mesmo tempo, desfrutará das benesses que ele oferece, como os shows e "a energia de amor que flui no ar naquela fazenda", nas palavras dela.

— Uma das coisas mais lindas que o Psicodália me proporcionou foi me tornar um ser melhor por meio de cada ação e contato com os outros "psicodalianos" — testemunha Daniela.

Já para o artista visual Anderson Alberton, 37 anos, a música é principal combustível que o levará pela quinta vez ao evento.

— É um motivo especial para aproveitar o Carnaval, dando valor as músicas realmente brasileiras, com influências de todo o tipo e lugar — explica ele, que irá acompanhado da mulher e alguns amigos. E, novamente, ficará acampado próximo aos integrantes da banda Ninguém Sabe, de Itajaí, o que favorece não só o companheirismo, mas também a chance de ouvir música 24 horas por dia.

A antropóloga Talita Schröder, 30 anos, é adepta dessa vibe sossegada, comunitária e feliz desde 2011, ainda que sua principal motivação para ir ao festival sejam os shows. Neste ano, ela terá uma razão a mais para "bater o ponto": a companhia da prima Andressa, que a carregou para o Psicodália pela primeira vez. Em 2012, ela foi morar na Alemanha, mas esteve presente no festival mesmo assim, graças a uma foto impressa num cartaz que passeou por toda a fazenda. Juntas, elas se desligarão do mundo por cinco dias.

— Trocar a loucura dos xingamentos no trânsito, do almoço com pressa, do telefone tocando por shows maravilhosos em um ambiente legal sempre vale a pena. O ano pós-Carnaval com certeza começa mais leve, nos fazendo repensar sobre como ser pessoas melhores para o mundo que vivemos — explica.

O que: 20º Psicodália
Quanto: de 24 de ferevereiro a 1º de março
Onde: Fazenda Evaristo, em Rio Negrinho
Mais informações: no www.psicodalia.com.br


Entrevista | Alexandre Osiecki, organizador
Confira a entrevista com Alexandre Osiecki, organizador e um dos idealizadores do Psicodália, na qual ele fala sobre as inspirações do festival, os motivos de seu sucesso e o o futuro dele após a 20a edição.

O quê o Psicodália fez de tão certo pra chegar à 20a edição?
Alexandre Osiecki — O Psicodália teve um crescimento gradual, ano a ano o festival foi se adequando a um número maior de público, se preparando pra atender melhor as bandas, e sempre pensando no bem estar dos participantes. Outro fato importante pro Psicodália se manter numa crescente é que a equipe que produz o evento gosta de acampar, gosta de participar de outros festivais. Muita gente que trabalha aqui é artista de alguma forma e isso fornece o entusiasmo necessário para promover mudanças e melhoramentos.

Parece que depois que o Psicodália se consolidou, apareceram vários eventos unindo música, artes, natureza e espiritualidade...
Alexandre — Muitos festivais estão nascendo, se consolidando, e o Psicodália acaba servindo de inspiração. Mas a coisa toda é maior que influência de um evento a outros eventos. As pessoas, de uma forma geral, estão precisando se conectar com a natureza, com a arte, e os festivais são muito eficazes nesse sentido.

Qual foi o ponto da virada que fez o festival ficar grande, profissional e conhecido? Seria se mudar pra Rio Negrinho?
Alexandre — Vários foram os motivos, a mudança para Rio Negrinho é um deles. A cidade é próxima a Curitiba, que é a sede da produção do Psicodália, tem um bom acesso, boas estradas, e a própria fazenda tem uma estrutura que acomoda muito bem o público. Há também outros fatores importantes, como as equipes que se formaram no decorrer de todos esses anos, o amadurecimento da planilha de gastos, com valores mais realistas, a comunicação e divulgação abrangendo boa parte do País e também a coragem de contratar um ou outro artista com show específico, com cachê alto.

Você acha que o evento já deixou pra trás a pecha de festival riponga? Algumas atrações musicais mostram isso.
Alexandre — Acho que a combinação música, acampamento, natureza, saúde e cerveja acaba caindo de certa forma no conceito riponga. Nós nunca nos esforçamos para fugir muito disso, as pessoas precisam rotular, nomear algo que elas não conhecem. Mas, por outro lado, nós não temos um estilo só. O Psicodália não é só rock, não é MPB, é sim formado por vários estilos, por pessoas de diversas vertentes e por entusiastas da boa música, de todas as idades.

É complicado negociar com os grandes nomes? Pergunto isso por se tratar de um festival de tamanho menor, numa cidadezinha no interior de SC, etc...
Alexandre —  As negociações com artistas renomados são sempre delicadas e detalhadas, mas, depois de passarem tantos artistas grandes pelos palcos do Psicodália, a gente já tem alguma credibilidade. Os artistas muitas vezes ficam mais apreensivos com as acomodações da cidade do que com qualidade de som e luz. Necessidades de palco podem ser locadas, trazidas pela banda, mas um bom hotel, ou existe na região ou o cara vai ter que ficar em outra cidade, dificultando a logística do show.

De onde vem o dinheiro pra erguer o festival?
Alexandre — Até o momento, o festival acontece 100% por recursos advindos dos passaportes. Não contamos com nenhuma forma de apoio ou patrocínio.

Quantas pessoas, em média, trabalham no festival? E qual a expectativa de público para este ano?
Alexandre — Contando com equipes de limpeza, segurança, pessoal que trabalha na parte de alimentação, bares, equipes de produção, montagem, e incluindo também os artistas participantes, os oficineiros, teremos um número acima de mil pessoas trabalhando direta e indiretamente no festival. Então, considerando os cinco mil passaportes vendidos, teremos algo em torno de seis mil participantes.

Em que direção vai o festival agora?
Alexandre — Vamos vivenciar esse festival, ver como a gente se sai com esse número recorde de participantes e depois veremos para onde vai. Para aumentar o número de participantes, precisamos estruturar melhor o lugar, colocar mais banheiros, mais áreas de camping, mais estacionamento, então, só vamos saber isso no decorrer.

Essa par o Alexandre fã: de forma realista, que atração você gostaria de trazer para o Psicodália?
Alexandre — Como fã, tem muitos nomes que tenho vontade de trazer, e olhando pelos artistas que já vieram, dá para ter uma ideia da direção que vamos tomar. Já trouxemos ícones da música brasileira, mas faltam ainda artistas obrigatórios. Nesse momento, não tenho como adiantar essa informação.


Prepare-se
Se você for acampar no Psicodália, não esqueça:

Barraca
Saco de dormir, isolante térmico, colchonete, colchão de ar.
Lona para uma área de convivência no acampamento, e outra opcional para colocar em cima da barraca
Corda e canivete
Fita adesiva
Fósforos
Lanterna (e pilhas e baterias)
 Sacos de lixo

E lembre-se
Se for de carro, dê carona, se não, prefira uma excursão.

Planeje suas compras, leve alimentos sem embalagens, e evite as de isopor em geral.

Leve o mínimo possível com você, e não deixe coisas para trás quando você sair.

Opte por garrafas e utensílios domésticos reutilizáveis e não leve descartáveis.

Separe seu lixo em recicláveis, orgânicos e rejeitos e colabore na coleta seletiva.

 Usufrua do comércio justo e de alimentos orgânicos, bebidas e produtos disponíveis na mercearia do festival.

Pratique a máxima "viver sem deixar rastros" _ viva experiências e emoções, tire fotos e deixe apenas pegadas.

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