De Veneza para o Brasil

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Desde o final de 2016 a editora Âyiné traz frescor (e com ares italianos) ao mercado editorial brasileiro. Os livros são impressos em Veneza e posteriormente distribuídos no Brasil. Nomes como Robert Musil, Joseph Roth, Paul Valéry, Giorgio Agamben, Emil Cioran e Jonathan Swift dão brilho ao catálogo. Embora publique autores de toda parte, os da Europa central terão grande espaço: em 2017 serão lançados um volume com a crítica literária e outro com as colagens da ganhadora do Nobel de 1996, Wislawa Szymborska, assim como livros de Kurt Wolff, primeiro editor de Kafka, Danilo Ki¿, autor da antiga Iugoslávia e do poeta polonês Jerzy Ficowski.  

Outro destaque (este já lançado) da editora é Picasso (93 páginas, tradução de Priscila Catão, R$ 29,00), onde Gertrude Stein aproveita-se do seu convívio com o pintor para fazer uma biografia de leitura fácil e leve que nos permite compreender o que o inspirava e, consequentemente, sua arte. Além de interpretar os motivos que o levavam a pintar e seu processo artístico, ela acrescenta informações pessoais e seus próprios comentários a respeito da sua obra, com o estilo que lhe é peculiar. Stein discorre sobre a influência na obra de Picasso das cores da Espanha, do circo e da escultura africana, sobre suas amizades com artistas como Guillaume Appollinaire e Max Jacob, sobre sua vida familiar e suas perspectivas particulares sobre a arte. Também relata momentos que passou com o pintor e enfatiza seu talento natural, expressado desde a infância, e sua necessidade de se esvaziar através da arte. Memórias reveladoras e intuições sobre a arte em geral, e especificamente sobre o cubismo e seu surgimento, tornam este breve ensaio biográfico imperdível para a compreensão da arte moderna e um dos seus maiores pintores. 

Melville

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A editora José Olympio acaba de lançar uma nova edição de Bartleby, o escrivão (96 páginas, R$ 29,00), com apresentação de Jorge Luis Borges e tradução de Pinheiro de Lemos. O livro nos leva ao universo do norte-americano Herman Melville, autor de Moby Dick, e ao ousado escrivão Bartleby, que resolve simplesmente não fazer mais nada da vida, ócio absoluto; e começa a passar os dias em estado de contemplação, sempre com a frase "Acho melhor não... copiar, escrever, ir embora etc". Até que ele se torna um estorvo tão grande que nem mesmo seu patrão, um altruísta, se compadece. Bartleby acaba na prisão por excesso de contemplação (vadiagem, diz a polícia) e, num certo dia, não abre mais olhos o pobre Bartleby. Borges foi categórico sobre Bartleby: a obra de Kafka projeta sobre Bartleby uma curiosa luz ulterior. Escrita em 1853, essa obra prima (que para Gilles Deleuze desafia toda a psicologia e a lógica da razão) inspirou o escritor espanhol Enrique Vila-Matas no seu impagável Bartleby & Companhia, onde um escritor resolve voltar à ativa depois de 25 anos de eclipse literária e passa a fazer notas de rodapé para um romance inexistente. Ele usa o artifício de escrever sobre escritores do Não, os escritores da renúncia, que abandonaram a escrita depois de um relativo sucesso, como Rulfo, Salinger, Rimbaud e também ágrafos como Clément Cadout, cujas suas "obras completas" foram seu epitáfio. "Há algum tempo que persigo o amplo espectro da síndrome de Bartleby na literatura, há algum tempo que estudo a doença, o mal endêmico das letras contemporâneas, a pulsão negativa ou a atração pelo nada que faz com que certos criadores, embora tendo uma consciência literária muito exigente (ou talvez precisamente por isso), nunca cheguem a escrever; ou escrevam um ou dois livros e depois renunciem à escrita; ou, depois de avançarem sobre uma obra fiquem, um dia, literalmente paralisados para sempre." Bartleby, o escrivão Bartleby & Companhia são dois livros que fazem cada vez mais sentido: são livros do não, do silêncio, algo quase impossível nesta era de opiniões gritantes, neste país que fez da opinião (e não do conhecimento) a sua maior bandeira. 

Vale a pena ler de novo: Coetzee

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Em 2003, quando soube que havia recebido o Prêmio Nobel de Literatura, J.M. Coetzee limitou-se a divulgar através de seus assessores um comunicado: não falaria sobre o assunto. Avesso a entrevistas e aparições públicas, conta com um fator importante para a longevidade de sua prosa: é um dos escritores contemporâneos mais lidos pelos seus pares, o que atesta que o sucesso não escolhe apenas os bons de marketing, mas se fecha em círculo também sobre algumas cabeças que sabem o que fazer com as ideias. Quando abreviou seu nome para J. M. Coetzee, o sul-africano John Maxwell Coetzee caracterizava também seu texto; a síntese, uma virtude neutra sempre acompanhada de clareza e de um realismo bruto que estão longe de subestimar a subjetividade. O autor, que descobriu a literatura aos nove anos lendo Robinson Crusoé, de Daniel Defoe (1660-1731), foi o primeiro autor a receber duas vezes o Booker Prize, principal prêmio literário da língua inglesa. Tal feito foi possível com os livros Vida e Época de Michael K (Companhia das Letras, 216 páginas, R$ 42,00, tradução de José Rubens Siqueira) e Desonra (Companhia das Letras, 248 páginas, R$ 44,90, tradução de José Rubens Siqueira), que tão logo publicados, tornaram-se clássicos instantâneos. 

No primeiro, Michael K é negro, pobre e seu lábio leporino é mais um empecilho na África do Sul dilacerada pela guerra civil. Ele resolve empreender uma jornada ao único lugar onde fora feliz na vida, uma área rural distante da Cidade do Cabo na qual passou sua infância; mas pretende levar sua mãe – uma ex-faxineira com deformidades nos pés e mãos – usando um carrinho de mão improvisado. A mãe falece, mas Michael continua, e quando encontra seu lugar, ainda assim rodeado por guerrilheiros, quer é levar uma vida tranquila e trabalhar na terra. Entretanto, o livro mostra que, por mais alienado que se possa ser, o totalitarismo não deixa ninguém em paz. A história que nas mãos de uma Isabel Allende seria uma choradeira sem fim, nas mãos de Coetzee ganha contornos kafkianos, com ecos de A construção, um dos contos mais sombrios do tcheco. Nessa obra, Coetzee e sua habitual economia de palavras extrapolam o âmbito literário e desafiam o ontológico. Já em Desonra, na plena África do Sul pós-apartheid, o professor David Lurie é expulso da Universidade por manter relações sexuais com uma aluna e refugia-se na fazendola da filha, no interior do país, onde a vida vale menos que um punhado de terra. Após sua filha ser estuprada e tentarem lhe queimar vivo, Lurie tenta recobrar a única coisa que ainda acha que lhe resta: a dignidade. Mas será isso possível no coração das trevas? A prosa funcional é a grande força de Coetzee, pois enriquece e reinventa a realidade. 

Coetzee nasceu na Cidade do Cabo em 9 de fevereiro de 1940, estudou na sua cidade natal até completar dois bacharelados, um em língua inglesa e outro em matemática. Os anos de 1962 a 65 foram passados na Inglaterra, trabalhando como programador de computadores, ao mesmo tempo em que preparava uma tese sobre Ford Madox Ford. Em 1968 Coetzee doutorou-se em Linguística na Universidade do Texas com uma tese sobre os primeiros trabalhos de Samuel Beckett. Entre 1968 e 1971, foi professor de inglês na Universidade do Estado de Nova York em Buffalo; depois de lhe ser negado o direito de residência permanente nos EUA, regressou à África do Sul e lecionou na Universidade da Cidade do Cabo até 2000. Em 2002, emigrou para a Austrália com sua segunda esposa, e lecionou na Universidade de Adelaide. Para quem lê Coetzee, vale a última frase de seu livro O mestre de Petersburgo: "Agora começa a sentir o sabor. Sabe o desespero".

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