O escritor paulistano Santiago Nazarian na Finlândia Foto: Divulgação / Divulgação

Letras catarinenses

O oitavo romance do paulistano Santiago Nazarian, Neve Negra, se passa no dia mais frio do ano, na cidade mais fria do Brasil, em plena Serra Catarinense (o nome é fictício, mas a cidade reúne características de Urupema, São Joaquim e Urubici). O livro sai pela Companhia das Letras no início do segundo semestre e já tem seus direitos para cinema vendidos para a RT Features (coprodutora do sucesso A bruxa). Eu li o livro em primeira mão, ainda nos rascunhos, e fui fisgado pela narrativa que oscila entre o terror psicológico e o drama familiar. No enredo, um renomado artista plástico acorda de um sonho e acredita estar numa realidade distorcida: seu filho de sete anos também desperta suas dúvidas sobre a paternidade, que se estenderão numa longa madrugada de pesadelos. Conversei com Nazarian sobre o livro e sua relação com o Santa Catarina. Leia abaixo.

Catarinense de coração

"Eu amo Santa Catarina. Sou paulistano, morei de fato em Florianópolis só por um ano, mas há quase vinte anos que vivo com um pé lá e um aqui. Conheço 28 países, dezenas de cidades, e Florianópolis é simplesmente minha cidade favorita do mundo. Então há muito tempo que eu queria fazer um romance catarinense. Meu primeiro rascunho era um romance litorâneo, que acabei deletando depois do lançamento do Barba Ensopada de Sangue, do Daniel Galera. Meses depois de sair de Florianópolis, em 2011, fui morar na Finlândia. E acho que dessa fusão veio a ideia do Brasil com neve. Pesquisei muito sobre a Serra Catarinense para criar o cenário do livro. Há muito da imigração alemã, da relação conflituosa com o turismo, e da falta de um apoio maior à cultura do estado, infelizmente."


Neve negra

"Já flertei bem com o thriller e o suspense em livros como Biofobia e Feriado de Mim Mesmo (os dois também vendidos para o cinema), e Neve Negra é um parente próximo desses, na estrutura minimalista de um cenário contido, com poucos personagens. Mas esse é assumidamente um livro de terror, ainda que um terror psicológico, mais onírico do que fantástico. O tema central é a paternidade e as paranoias que a rondam (estou perdendo a infância do meu filho. Há algo de errado com ele? O filho é mesmo meu?)."


Leia um trecho de Neve Negra:

"Se a neve nunca derretesse, os passos de meu filho permaneceriam assim, congelados, infantis. Mas a neve derreterá e não sobrará nem rastro de por onde aquele menino passou. Piso exatamente sobre, alargando seus passos até minha maturidade. Será que um dia seus passos serão indistinguíveis dos meus? Será que sobreviveremos para não distinguir?" 

A vitória de Arceno

Foto: Divulgação / Divulgação

O joinvillense Giovanni Arceno é um dos grandes destaques da literatura catarinense contemporânea. Finalista do Prêmio SESC de Literatura em 2014 e idealizador do projeto Leia Brasileiros (onde envia todos os dias um trechinho de alguma obra da literatura nacional para os cadastrados), acaba de lançar o romance Vitória (Oito e meio, 97 páginas, R$ 38,00). Conheci Giovanni Arceno em uma oficina de literatura. Era o típico aluno caladão que ficava lá no fundo, observando tudo ao redor com certa incredulidade. Mas quando lia suas narrativas breves, era como se suspendesse o tempo: suas histórias não estavam ali, nem no passado ou no futuro, estavam na realidade. E eu lembrava do chileno Alejandro Zambra e o começo de seu livro, Bonsai: "No final ela morre e ele fica sozinho. Embora na realidade ele ficou sozinho vários anos antes da morte dela, Emília.  Bom, supomos que ela se chama, ou se chamava Emília, e que ele se chama, se chamava ou continua se chamando Júlio. Júlio e Emília. No final Emília morre e Júlio não morre. O resto é literatura."  

Arceno escrevia e escreve equiparando vida e literatura, por isso cada página tem uma respiração própria, um pulsar. Então não me surpreendi quando me enviou Vitória, que parte de uma gravidez indesejada na adolescência para investigar as consequências de um amadurecimento forçado. Daniel e Vitória estão cercados pelo mundo, que oscila entre hostilidade e doçura como um pêndulo, e precisam carregar uma dose de esperança para aplacar a ansiedade do amanhã; mas nunca é, foi ou será fácil. Duas coisas me impressionaram neste romance de estreia: a velocidade segura e estável da narrativa, digna de um veterano, e a fluidez. As páginas escorrem entre os dedos. E o leitor atento perceberá que nas entrelinhas há outro caminho, e que os personagens sabem que para lembrar é preciso esquecer (Blanchot). Vitória é um livro sobre as pequenas derrotas: aquelas que nos impulsionam a viver.

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