O dia começou daquele jeito: não eram nem três da manhã e meu estômago insistia em devolver pela boca os excessos que por ela entraram. Não tinha comido nada diferente, mas o corpo rejeitava o não saudável. Coisa de quem está envelhecendo – a mente insiste em dizer que ainda não saí da adolescência (e meus cabelos azuis comprovam isso), mas o corpo não consegue acreditar. Após a primeira sessão de plágio da famosa cena de O Exorcista, precisei repetir o ato mais duas vezes: uma excelente forma de brindar o dia que nem tinha amanhecido ainda.

Acordei antes das seis, mas minhas pálpebras insistiam que não estavam prontas para o mundo. Digitei um recado à minha diretora, informando a situação e avisando que iria me atrasar. Odeio faltar, odeio ir ao médico, odeio não estar lá quando tenho certeza de que precisam de mim. É nisso que dá ter essa doce ilusão de fazer a diferença, de que eu sou única (sou tão das avessas, que não consigo concordar com o senso comum que diz que somos todos números prestes a serem substituídos).

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Lá se iam mais de nove badaladas quando meu corpo despertou. Tomei meus remédios em jejum e abri as redes sociais. Já disse que sou uma adolescente? Para minha surpresa, lá estavam os números, esses que não nos deixam mentir: um dos meus e-books estava em terceiro lugar entre os mais vendidos da Amazon, meu livro virtual no Wattpad ocupava a posição 39 no ranking dos mais lidos e um blog literário colocava uma das minhas histórias numa lista dos dez livros que você precisa ler antes de morrer. Como se não bastasse, minha caixa de mensagens estava cheia de recados de pessoas que eu não conhecia, dizendo que tinham se sentido tocados pela minha escrita.

Nessa hora, leitor, eu não tinha mais o corpo envelhecido pelos anos, não tinha mais o estômago dolorido dos movimentos de contração e expulsão dos venenos alimentícios, não tinha mais o remorso de estar em casa quando precisava estar no trabalho. Nesse momento, a nuvem negra que anoiteceu minha manhã se abriu e os raios do Sol iluminaram meu dia.

Não tenha dúvidas: plantar é um ato solitário. Trabalhar é dolorido, é difícil abrir mão do lazer para focar na obra que queremos construir. Há dias em que a tempestade cai densa e destrói toda a plantação. Mas há um tempo para tudo nessa vida – e quando chega a hora de colher, a gente percebe que todo esforço é recompensado.

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