Carlos Schroeder: Garopaba terá festival literário em junho  Charles Guerra/Agencia RBS

Foto: Charles Guerra / Agencia RBS

A Garopa Literária - Primeiro festival literário da praia de Garopaba/SC já tem data e suas primeiras atrações confirmadas: entre os dias 5 e 10 de junho a cidade receberá escritores, projeções de vídeos, intervenções urbanas com malabarismo e fogo e shows com música ao vivo. Com idealização e coordenação da atriz, diretora e dramaturga Morgana Kretzmann, e do professor João Henrique Quoos, do Instituto Federal de Santa Catarina (IFSC), o evento acontecerá no Campus do IFSC em Garopaba e no Centro Histórico da cidade.

Os gaúchos Daniel Galera (já morou em Garopaba e seu livro mais famoso transcorre na cidade) e Paulo Scott (mora em Garopaba e seu livro mais premiado também tem ecos de Garopaba), o paulista Santiago Nazarian (seu próximo livro tem cenários da Serra Catarinense) e os catarinenses Viegas Fernandes da Costa e Patrícia Galelli são as primeiras atrações divulgadas.

"O ano de 2017 tem sido de extrema importância para a cidade de Garopaba, pois neste ano iniciou o primeiro curso de graduação da cidade, Curso Superior de Gestão Ambiental do IFSC Campus Garopaba, e é através deste curso que acontece a Semana do Meio Ambiente, que abriu suas portas para realizarmos a primeira edição da Garopa Literária, trazendo pela primeira vez ao município um evento como esse e com a participação de grandes nomes da literatura nacional. É o primeiro passo para futuras edições do evento, com o intuito de tornar Garopaba uma referência não só como cenário literário, o que já acorre, mas também como local de debates e encontros entre leitores, autores e interessados em literatura" afirma Morgana Kretzmann. A página oficial pode ser acessada aqui

A coluna preparou um breve guia de leituras dos autores participantes. Confira:

Barba ensopada de sangue de Daniel Galera

Foto: Divulgação / Divulgação

Sucesso de crítica e público, o quarto romance de Daniel Galera levou o Prêmio São Paulo de Literatura em 2013, e tem como cenário a cidade de Garopaba. Um professor de educação física (com um problema neurológico raro: impedido de memorizar rostos, inclusive o próprio) busca refúgio na praia catarinense após a morte do pai. Ele se afasta da relação conturbada com os outros membros da família e mergulha em um isolamento geográfico e psicológico. Ao mesmo tempo, ele empreende a busca pela verdade no caso da morte do avô, o misterioso Gaudério, que teria sido assassinado décadas antes na mesma Garopaba. Sempre acompanhado por Beta, cadela do falecido pai, o professor esquadrinha as lacunas do pouco que lhe é revelado, a contragosto, pelos moradores mais antigos da cidade. Galera constrói um mosaico cheio de ritmo nesse clássico da literatura contemporânea brasileira dos anos 2000.

Habitante irreal de Paulo Scott

Neste consagrado romance de 2011, traduzido para diversos países e vencedor do Prêmio Machado de Assis da Biblioteca Nacional, o autor gaúcho praticamente previu a derrocada do PT e a pungente necessidade de discussão das causas indígenas. A narrativa se desenvolve em dois eixos: um ex-militante petista que vai para Londres depois de seu malogrado relacionamento com uma garota indígena (onde se envolve com uma gangue especializada em arrombar e invadir propriedades privadas desocupadas) e a relação de Luísa e Henrique, um casal de professores e seu filho adotivo, o índio Donato.  Detalhe: um trecho do livro se passa em Garopaba, na praia de Siriú. As histórias fundem-se para provar que definitivamente o Brasil é o país do passado.

Neve negra de Santiago Nazarian

Foto: Divulgação / Divulgação

O oitavo romance do paulistano Santiago Nazarian, Neve Negra, se passa no dia mais frio do ano, na cidade mais fria do Brasil, em plena Serra Catarinense (o nome é fictício, mas a cidade reúne características de Urupema, São Joaquim e Urubici). O livro sai pela Companhia das Letras apenas em julho, então os catarinenses conhecerão detalhes em primeira mão no evento de Garopaba. Eu li o livro, ainda nos rascunhos, e fui fisgado pela narrativa que oscila entre o terror psicológico e o drama familiar. No enredo, um renomado artista plástico acorda de um sonho e acredita estar numa realidade distorcida: seu filho de sete anos também desperta suas dúvidas sobre a paternidade, que se estenderão numa longa madrugada de pesadelos. Santiago é um catarinense de coração:  "Eu amo Santa Catarina. Sou paulistano, morei de fato em Florianópolis só por um ano, mas há quase vinte anos que vivo com um pé lá e um aqui. Conheço 28 países, dezenas de cidades, e Florianópolis é simplesmente minha cidade favorita do mundo."

Carne falsa/Um bicho que de Patrícia Galelli

A concordiense radicada em Florianópolis,  Patrícia Galelli, é uma das escritoras mais instigantes da literatura contemporânea catarinense. Seu livro Carne falsa (esgotado) de 2013, apresenta 50 narrativas breves – às vezes, de uma linha –, escritas de 2007 a 2013, que surpreendem pela estranheza com que a autora trata de assuntos clássicos da literatura: o amor, o sexo, o medo e a morte. O livro traz fragmentos do "tempo esquartejado" do século XXI, com ironia e tensão. Indico também Um bicho que, obra impressa através da serigrafia de André Pardini e com costura de Marcos Walickosky. Com textos curtos e precisos, e ilustrações da própria Galelli, a obra investiga alguns bichos e suas formas delineadas pelos sentimentos humanos.

Tabacaria de Viegas Fernandes da Costa

O quarto livro do blumenauense reúne pequenas narrativas numa linguagem poética (o livro é inspirado no poema Tabacaria, de Fernando Pessoa) e concisa, em torno do tempo e da memória. Gostei sobretudo do Breve romance de Ornitorrinco, que encerra o livro e conta a trajetória deste conselheiro do autor, um ornitorrinco nascido numa biblioteca.

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