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O reflexo perdido e outros contos insensatos (264 páginas, R$ 42,00) de E. T. A. Hoffmann não é apenas um dos grandes lançamentos deste maio, mas do ano. Admirado e louvado por alguns dos maiores escritores do século XIX, entre eles Heine, Balzac e Gautier, sua obra influenciou os franceses Victor Hugo, Baudelaire e Maupassant, os russos Puchkin, Gogol e Dostoiévski, e os americanos Hawthorne e Edgar Allan Poe.

Ernst Theodor Amadeus Hoffmann – batizado com o nome de Ernst Theodor Wilhelm, trocado por Amadeus em homenagem a Mozart – nasceu em Königsberg, na Prússia (hoje Kaliningrado, província da Rússia), em 1776. Em 1816 tornou-se juiz da Corte de Apelação em Berlim, cidade onde permaneceu até a morte, em 1822, depois de uma paralisia – provavelmente advinda da sífilis contraída de uma de suas várias amantes. Além de escritor brilhante, Hoffmann era desenhista, crítico musical e compositor.

Esta recém-lançada edição da Estação Liberdade, organizada, traduzida, prefaciada e anotada por Maria Aparecida Barbosa, propõe um recorte abrangente e revelador da obra do autor: os textos atestam o virtuosismo estilístico e temático do autor, que se tornou um dos principais expoentes do Romantismo alemão por sua originalidade, irreverência e iconoclastia.

 A difusão das fronteiras entre realidade e ficção, a intertextualidade com seus contemporâneos (inclusive "emprestando" personagens de outros autores), o teor filosófico com que envolve seus temas fantásticos e de horror: essas são algumas marcas de Hoffmann que tiveram grande influência na literatura alemã posterior a ele. Sobre o princípio que permeia esta edição, o prefácio da organizadora, citando o autor, explica: "a poesia deve estar imbuída de fecunda fantasia, as personagens cheias de vida devem ter feições plásticas delineadas de modo a envolver com força mágica [...]".

Está incluída na coletânea a narrativa fantástica O Homem-Areia, que tornou Hoffmann conhecido no Brasil (indiretamente, uma vez que o texto é citado por Sigmund Freud em seu ensaio Das Unheimliche [O Inquietante], que trata da literatura que causa medo). Outro clássico em nova tradução é  O Quebra-Nozes e O Rei dos Camundongos, selecionado "não pelo exclusivo fato de ter imortalizado Hoffmann no âmbito do balé", como explica o prefácio, "mas também por ser um conto de horror que explora de maneira vertiginosa a inclusão de personagens duplos".

 O conto do título se inscreve na tradição literária do Fausto, já que o melancólico protagonista Erasmus Spikher acaba, em seu desejo por coisas mundanas, firmando um pacto que lhe custa seu reflexo. Nesta história, Hoffmann inclui o personagem Peter Schlemihl, criado por Adalbert von Chamisso, e também faz um aceno aos naturalistas e a Alexander von Humboldt, mostrando um escritor extremamente atento ao momento literário e científico em que vivia.

Uma das leituras imperdíveis do ano.

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Abaixo, trecho de O reflexo perdido

O pobre ainda não se dera conta de que o cochicho lhe dizia respeito quando um senhor idoso e sério se levantou, veio até ele, o levou para perto do espelho e constatou o rumor. Virou-se então para a assembleia e gritou com voz bem inteligível:

– De fato, pessoal, o sujeito não possui reflexo no espelho!

– Não possui...

– Homem malvado, um homem nefasto.

Erasmus, coberto de raiva e vergonha, correu refugiar-se no quarto, mas mal chegara ali foi procurado por um agente da polícia com a notificação de que deveria por bem comparecer em uma hora ante as autoridades locais, munido de um reflexo similar completo, ou teria de deixar a cidade sem demora.

Ele precipitou-se embalado para a estrada, escorraçado pela cambada ociosa e os moleques de rua que não cessavam de lhe gritar desaforos:

– Lá vai a galope aquele que vendeu o reflexo ao diabo!

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