Carlos Schroeder: Novo livro do fenômeno chileno Alejandro Zambra é lançado no Brasil Divulgação/Divulgação

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Aclamado pela crítica e público, Alejandro Zambra, aos 41 anos, é o principal escritor chileno vivo. Autor de obras de sucesso como Bonsai, Formas de voltar para casa e A vida secreta das árvores, estreia agora no selo literário Tusquets, da Editora Planeta.  

Múltipla Escolha (112 páginas, R$ 31,90, tradução de Miguel Del Castillo) parte da estrutura da Prova de Aptidão Verbal (espécie de vestibular), aplicada de 1966 a 2002 aos candidatos a vagas em universidades no Chile, e cria relatos unindo fragmentos líricos e exercícios de linguagem para retratar problemas éticos: a necessidade de mentir para se afirmar, a vontade de estabelecer vínculos apesar da desconfiança, a percepção de que fomos instruídos a obedecer e repetir.

O livro passeia por temas que desafiam a sociedade – a desigualdade, a memória, a educação – e mostra um autor que continua projetando uma obra que se diferencia pela maneira como combina a indignação, o humor e a delicadeza.

É um livro que se aproxima de um jogo, do ato de jogar, e é uma experiência incrível para quem se entrega, sem ressalvas, à narrativa. Um jogo como a vida. Aliás, Zambra sempre equiparou vida e literatura, como escreve no começo de seu primeiro romance, Bonsai: "No final ela morre e ele fica sozinho. Embora na realidade ele ficou sozinho vários anos antes da morte dela, Emília.  Bom, supomos que ela se chama, ou se chamava Emília, e que ele se chama, se chamava ou continua se chamando Júlio. Júlio e Emília. No final Emília morre e Júlio não morre. O resto é literatura."

A seguir, texto exclusivo do autor, falando um pouco mais sobre as possíveis janelas de Múltipla Escolha:

"Não quero dizer que este é um livro experimental, do mesmo modo que não quis batizá-lo como 'novela' nem como 'poesia' nem como nada. Os gêneros literários são como camisas incômodas que você põe e sempre ficam ruins, não vestem bem. Mas depois tomam a forma de seu corpo. Já são suas. Você escreve um poema para esquecer tudo o que sabe sobre poemas. Você escreve uma novela ou um conto para esquecer tudo o que sabe sobre novelas ou contos. Agora não sei o que é um poema, um conto, uma novela: sim, eu sabia, mas esqueci...

Para mim, este é um livro sobre a educação e isso se traduz em algumas imagens que o atravessam: a ideia de que mais que sermos educados fomos treinados – não precisávamos ter pensamento próprio apenas reproduzir o alheio – que estudar era também negar-se a si mesmo.

Em Múltipla Escolha está a pergunta sobre como essas estruturas te marcam: a ilusão de uma resposta única e correta, a retórica das opções, dos críticos, do verdadeiro e o falso, esse jogo complexo e tosco, profundamente ideológico, de exclusões e inclusões. E essa dimensão fiel da experiência. Os filhos como cópias dos pais. E esses filhos depois convertidos em pais supostamente menos conservadores e autoritários, mas que da mesma forma 'colocam escoras nas árvores para que cresçam direito'. Ou que se refugiam em sua condição de filhos e saem da casa dos papais aos quarenta e cinco anos. Ou que entraram para a universidade e nela ficaram para sempre, perdidos em suas melancólicas graduações, reproduzindo poderosas teorias alheias até convertê-las em letra morta. Me interessam essas vidas. Essas solidões, essas contradições, essas tensões.

Em outro sentido, talvez Múltipla Escolha seja um livro mais sobre os filhos que temos ou que decidimos não ter. Sobre as famílias apagadas. As famílias às que pertencemos e abandonamos. As famílias que queremos abandonar. As pessoas que já não atendem o telefone. As mensagens não enviadas. As mensagens que deixamos para sempre na pasta de rascunho. As vidas que não vivemos e que ressoam no presente, como um chamado ingrato, necessário e urgente."

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imarães Rosa









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