O dia dos namorados é apenas em junho, mas (numa espécie de exorcismo proustiano) compartilho essa breve lista de três instigantes histórias de amor na literatura (escritas e publicadas depois da Segunda Guerra Mundial). Bom, quando penso em amor, obviamente observo também tudo no que ele implica: inclusive seus polos negativos, como o ciúme e outras obsessões. O próprio Freud, em suas correspondências, desabafou certa vez que quando amava tornava-se muito "exclusivista". Outro gênio, o escritor argentino Ernesto Sabato, também se preocupou com o lado B do amor: "me intrigava a importância crescente que iam assumindo o ciúme e o problema da posse física". Em seu livro O túnel, publicado originalmente em 1948, o ciúme corrói as confissões do pintor Juan Pablo Castel e, claro, o foco de suas tormentas:  María Iribarne Hunter, a única mulher que parecia entendê-lo. "Mas foi, justamente, a pessoa que matei."

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Num salão de artes, María observa um pequeno detalhe de uma obra de Juan, que fica transtornado pela questão. Acaba por reencontrá-la um dia qualquer numa rua qualquer e ela (casada) sucumbe ao assédio desvairado dele. "Eu amava María desesperadamente e, no entanto, a palavra amor não fora pronunciada entre nós". Os ciúmes de Juan Pablo são a tradução em raiva de sua impossibilidade de comunicação. É no seu desgaste, pelas ruas portenhas, que Juan Pablo deixa claro que não somos nunca o todo de nós mesmos.

O ciúme, diluído, também aparece em Fim de caso, do inglês Graham Greene. "É uma das mais genuínas e tocantes novelas contemporâneas jamais escrita, no entender de qualquer um" já soprara o mito William Faulkner. Uma história de paixão e amizade, para sentir os olhos lacrimejarem.  Maurice Bendrix, um escritor bem-sucedido, é abandonado pela amante Sarah. Sem saber o motivo da ruptura, Bendrix alia-se ao marido de Sarah (Henry Miles, um homem de alta posição no governo inglês) e ambos tentam descobrir quem é o novo amante dela. O desfecho é surpreendente e mostra como nós, homens, podemos ser patéticos em todas as instâncias.

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Outra história de amor, um pouco mais amarga, é a que o mestre do lirismo gótico contemporâneo, o inglês Patrick McGrath, arquiteta em A doença de Haggard (quando a tônica esbarra na loucura). Na Inglaterra dos anos de 1930, às vésperas do bombardeio alemão, o jovem médico Dr. Haggard se apaixona pela mulher de seu superior em um grande hospital londrino (depois que li esse romance, passou a ser impossível olhar para bancos de hospitais com imparcialidade). A paixão desenganada deixa sequelas físicas e mentais, aplacadas com voluntariosas doses de morfina. Os limites entre o desejo e alucinação vão se alternando e o Dr. Haggard acaba projetando seu amor no ente mais próximo da amada Fanny Vaughan. Os três livros acima dialogam em tamanho (são curtos) e potência, mas sobretudo no tratamento imparcial com suas personagens (febris e titubeantes no auge do vírus do amor).

Outros grandes livros, como O passado de Alan Pauls, Não diga noite de Amós Oz, Um copo de cólera de Raduan Nassar, O amor nos tempos do cólera de Gabriel García Marquez e Intimidade de Hanif Kureishi, também poderiam figurar nesta lista, já que cabem na situação-limite definida por Lacan: "aquela em que o sujeito está suspenso numa relação especular com o outro". Mas cada amor é um amor e cada livro é um livro, "e como é preciso sempre um amor para entender o que difere de nós" (André Gide), cabe-nos listar e amar.

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