Biografia ilumina a trajetória rica e complexa de Caetano Veloso  Thereza Eugênia/Divulgação

 Caetano em 1979 em ensaio na casa da fotógrafa Thereza Eugênia.

Foto: Thereza Eugênia / Divulgação

Aos 74 anos — completa 75 em 7 de agosto — e em plena forma física e artística, Caetano Veloso é personagem onipresente na vida cultural do Brasil e figura pública que vira notícia até mesmo por banalidades como a folclórica estacionada de carro no Leblon. A dimensão artística de Caetano e sua inter-relação com nomes, movimentos estéticos e episódios históricos tão relevantes quanto ele já foram iluminadas em diferentes publicações, inclusive na autobiografia Verdade Tropical, que lançou em 1997. Nesta mesma época, Carlos Eduardo Drummond e Marcio Nolasco deram início a um projeto de pesquisa ambicioso, que somente 20 anos depois conseguiram apresentar: Caetano, Uma Biografia: A Vida do Mais Doce Bárbaro dos Trópicos passa em revista vida e obra do cantor e compositor baiano ao longo de 544 páginas. Sua publicação é resultado da decisão do Supremo Tribunal Federal, em 2015, que derrubou a restrição que condicionava trabalhos biográficos à autorização dos biografados ou seus familiares.

Drummond e Nolasco, ambos cariocas, investiram em um trabalho de fôlego. Costuram na narrativa depoimentos de 103 entrevistados, incluindo a mãe do artista, Dona Canô (1907 — 2012), irmãos e amigos que cresceram com Caetano em Santo Amaro da Purificação, além de músicos e produtores que trabalharam com ele.

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A reconstituição da juventude de Caetano no interior da Bahia apresenta o menino franzino que se apaixonou cedo pelas grandes vozes do rádio (Vicente Celestino, Noel Rosa e Nelson Gonçalves, entre outros cantores que animavam o casarão da família), enfurnava-se no cinema para ver clássicos italianos, em especial os de Federico Fellini, e precocemente mostrou interesse por poesia e filosofia.

Esse resgate memorialístico, segundo relatam Drummond e Nolasco, emocionou Caetano quando este teve acesso a um rascunho do material, nos anos 2000, e escreveu uma carta reconhecendo a pesquisa e dando aval a sua continuação. Mas o artista nunca deu a autorização formal exigida pelas editoras receosas de futuros processos. O projeto foi engavetado em 2004 e acabou salvo pela resolução do STF 11 anos depois — Caetano, aliás, integra o Procure Saber, movimento de artistas que defende a restrição a publicações de biografias não autorizadas.

Mas não há nada, na biografia, com que Caetano possa se incomodar. O tom é o da celebração a um artista inquieto, multifacetado, transgressor e por vezes polêmico. Episódios da vida privada, como seus relacionamentos amorosos (envolveu-se com sua mulher e empresária, Paula Lavigne, quando tinha 40 anos e ela, apenas 13), já são bem conhecidos. O que teria incomodado Caetano diz respeito à "baixa qualidade literária" do projeto, conforme Paula Lavigne declarou com a chegada da publicação às livrarias. Em entrevista a ZH (veja baixo), Drummond explica que a opinião de Caetano é referente a um esboço do livro que recebeu em 2003:

— Alguns jornalistas abordaram o tema sem apurar com rigor esse fato.

Para leitores mais exigentes da forma aliada ao conteúdo, pode ser mesmo um entrave o passeio por tão aprofundada pesquisa em meio ao tom por vezes laudatório e aos clichês narrativos, que vão de trocadilhos ingênuos com títulos de canções a expressões como "gostinho de quero mais" (usada duas vezes no intervalo de quatro páginas).

Vencido esse quesito, o trabalho mostra-se robusto na reconstituição de momentos emblemáticos do caminho trilhado por Caetano: o primeiro show, aos 12 anos abrindo uma apresentação de Silvio Caldas em Santo Amaro (aos oito já havia cantado na rádio local); o desbunde com o conterrâneo João Gilberto e a bossa nova; a efervescência cultural de Salvador vivida com Glauber Rocha, Torquato Neto e Wally Salomão — e, logo mais, com Gil, Gal e Tom Zé; a ida para o Rio (em 1965, acompanhando Bethânia quando a irmã foi convidada para cantar no espetáculo Opinião); as primeiras gravações, o processo de criação e os bastidores de seus discos mais emblemáticos.

Caetano em sua casa em 1982 Foto: Thereza Eugênia / Divulgação

O protagonismo de Caetano à frente do Tropicalismo e a temporada do exílio em Londres são também ricamente detalhados, inclusive destacando figuras como Jorge Mautner, guru intelectual da turma de expatriados e artista múltiplo e visionário com suas incursões pela literatura, música, cinema e ciências diversas. São interessantes também as notas de rodapé que indicam a inspiração de Caetano para muitas de suas canções mais conhecidas.

— Não éramos fãs de Caetano — diz Drummond. — Sabíamos da importância de sua obra, mas não de forma aprofundada. O primeiro personagem que pensamos biografar foi Roberto Carlos. Caetano veio como segunda opção. Cada nova entrevista nos trazia histórias e detalhes que nos surpreendiam. Conhecer também a origem de uma infinidade de canções mudou nossa visão e percepção sobre o repertório dele. Mas as surpresas não se resumem a Caetano. No livro há muitas histórias inéditas de Maria Bethânia, Gal Costa, Gilberto Gil e tantos outros. Nesse sentido, são várias biografias dentro da biografia.

Entrevista Carlos Eduardo Drummond e Marcio Nolasco, biógrafos de Caetano Veloso

Biografar alguém com trajetória que parece ainda distante de um ponto final representou um desafio a mais na empreitada? Está nos planos uma futura atualização do livro?
Drummond — Isso foi um grande desafio. O Caetano sempre produziu muito, em diferentes áreas artísticas. Mapear essa quantidade monumental de informações, ano a ano, se mostrou uma tarefa hercúlea. Esse é também um dos traços de Caetano que o tornavam um personagem muito complexo de biografar. Muitas vezes nos perguntamos: por que ninguém escreveu uma grande biografia dele até hoje? Quantos pesquisadores e jornalistas desejaram se lançar nessa empreitada? No fundo, tínhamos consciência de que tomamos uma decisão corajosa, por todas as dificuldades envolvidas no projeto. E sobre os planos futuros, claro, toda biografia de personagem vivo está sujeita a uma atualização em algum momento. Isso é inerente a esse tipo de livro. No momento adequado, faremos essa atualização.
Nolasco  — O Brasil, apesar de ser uma jovem democracia, ou até mesmo por isso, fez questão de se manter na penumbra cultural ao não permitir a produção regular de livros sobre seus ícones ainda vivos. A censura prévia vigente antes da nova interpretação dos artigos 20 e 21 do Código Civil não favorecia que tivéssemos esse modelo. Temos poucos e valorosos exemplos de autores nessa linha. Se Lance Armstrong, um desportista contestável, possui mais de 30 livros publicados no Exterior, com diversos tipos de abordagem à sua vida e carreira, estranho é que alguém como Caetano, Gil, Chico, apenas para citar alguns poucos nomes dentre outros personagens dignos de reconhecimento, não possuam obras nesse sentido. Num período especialmente importante, onde a desilusão política, social, econômica nos leva a repensar o país como nação, que possamos cada vez mais trazer à luz acontecimentos importantes para nossa constituição como povo. Que seja apenas o primeiro passo em um caminho consciente rumo à liberdade de fato. Que as trevas fiquem para trás e muitas outras obras que prezem pela seriedade, honestidade e profissionalismo possam ganhar vida.

O livro é muito rico na reconstituição da infância e juventude do Caetano em Santa Amaro. Como se deu esse trabalho de mapeamento e contato com as pessoas que ajudam a contar essa história?
Drummond — Esse foi um dos períodos mais gratificantes de toda a pesquisa. Rodrigo Velloso (a grafia do sobrenome do artista ficou com um "l" a menos no registro em cartório), irmão de Caetano, nos recebeu em Salvador e Santo Amaro, e nos colocou em contato com personagens fundamentais na vida de Caetano. Conhecemos amigos de infância, professores, colegas de classe, cenários e locais frequentados por Caetano, ainda menino e adolescente. Também com a ajuda de Rodrigo, passamos tardes agradáveis ao lado de Dona Canô e de outros parentes. Ouvimos histórias inéditas, muito íntimas, e tivemos acesso irrestrito ao acervo documental da família, na época em poder da fotógrafa baiana Maria Sampaio, que também nos apoiou muito. As informações e documentos obtidos durante esse período nos permitiram reconstituir com detalhes essa fase desconhecida, que ajuda o leitor a entender como se deu a formação inicial do artista e conhecer as pessoas que foram importantes para ele nessa fase. Todos os recursos da pesquisa, incluindo passagens, transporte, estada e alimentação, saíram de nosso bolso.
Nolasco — Cabe dizer também que o artista não nasce pronto. Trazer esse período de vida à baila mostra suas influências, sua formação, seus laços de amizade e fraternidade, não pelos olhos do próprio, mas pelas impressões daqueles que estiveram e estão a seu lado até hoje.

Vocês são profissionais de áreas não diretamente ligadas à pesquisa, à história e ao jornalismo culturais (Drummond é formado em Administração de Empresas e pós-graduado em Relações Internacionais. É poeta, escritor e compositor e trabalha na Funarte, órgão do Ministério da Cultura; Nolasco, é formado em Engenharia de Produção e tem contos publicados em antologias) É. De que forma isso influiu no trabalho?
Drummond — Não somos jornalistas nem historiadores, mas não estamos tão distantes da área cultural e da pesquisa. Sou poeta, escritor e compositor, além de trabalhar na Fundação Nacional de Artes, que apoia, entre outras atividades, a pesquisa e a preservação da memória cultural do nosso país. Nolasco, por sua vez, escreve há bastante tempo, é contista, cinéfilo, fez cursos de roteiro de cinema e televisão. Esse conjunto de experiências também recebeu apoio da nossa capacidade de planejamento e organização. A soma dessas habilidades nos permitiu fazer um trabalho isento, cuidadoso e profissional.

Como fãs de Caetano, que elementos vocês encontraram na pesquisa que tenham revelado uma grande surpresa (positiva ou negativa) em relação ao conhecimento prévio que tinham dele?
Nolasco — Não éramos e continuamos não sendo fãs. A palavra tem o viés do seguidor, daquele que muitas vezes descamba para uma "cegueira seletiva". Apesar de alguns pensarem que às vezes bajulamos o artista, isso está muito distante da verdade. Reconhecer sua importância é outra coisa. Não reconhecer isso seria esconder o óbvio, gostando-se ou não dele como artista e podendo estender a opinião até ao ser humano, ou não. Sendo ele um personagem que já despertava o ame-o ou odeie-o muito antes do fenômeno das redes sociais, preferimos seguir o caminho do meio.

Qual foi o critério usado para equilibrar no livro o espaço para recortes históricos que exigiram pesquisa mais aprofundada (por exemplo, até meados dos anos 1980)  e as últimas décadas?
Drummond — O livro foi todo pensado e planejado antes de ser construído. É impossível escrever a biografia de um personagem complexo como o Caetano sem fazer um planejamento prévio. Não foi fácil conseguir esse equilíbrio. Todos os períodos ganharam igual peso, o que tornou o livro bem dosado e equilibrado, em número de capítulos e de páginas. As várias fases da carreira do artista certamente geraram diferenças, e esforços maiores ou menores nessa busca pelo equilíbrio. Nos anos 1980, por exemplo, já é o Caetano consagrado, com várias canções nacionalmente conhecidas. O número de shows é muito maior que em outros períodos, e ali começam as turnês internacionais. Por conta desse aumento de atividades, não podíamos esmiuçar uma história ocorrida durante uma turnê, por exemplo, pois corríamos o risco de chegar a 2.000 páginas no final do projeto. Nessa fase, o poder de síntese precisou ser maior, e o resultado nos deixou satisfeitos.

Que tipo de cuidado tiveram (presumindo que tiveram) para não invadir em demasia a vida íntima do Caetano?
Drummond — Todo biógrafo enfrenta essa difícil tarefa, que é ainda mais difícil para um biógrafo de personagem vivo: encontrar o equilíbrio entre a privacidade e a liberdade de expressão. Se o biógrafo protege demais seu biografado e não expõe aspectos de sua vida pessoal, tem sua biografia taxada de chapa-branca. Se avança além da conta, e de forma sensacionalista, corre o risco de receber processos de herdeiros ou do próprio biografado, não satisfeitos com uma invasão de privacidade ofensiva. Adotamos um critério claro: se a informação pessoal fosse necessária para entender o personagem e sua obra, incluímos, e, claro, narramos com o respeito merecido. Do contrário, descartamos. Nosso livro possui muitas passagens da vida íntima do Caetano, mas nenhuma delas está lá de modo gratuito, todas são necessárias para entender algum aspecto da personalidade do artista ou de sua obra. 

Teve algum episódio que, na pesquisa de vocês, mostrou-se diferente ou conflitante em relação ao relatado em outros trabalhos biográficos?
Drummond — Não há outro livro semelhante ao nosso que servisse plenamente de parâmetro. Vale lembrar que nosso livro aborda todos os períodos da vida e da carreira de Caetano Veloso, desde antes de seu nascimento até 2016, isto é, quase um século de história, considerando as passagens envolvendo os antepassados dele. Encontramos muitas dessas passagens em resumos biográficos ou livros com ênfase no Tropicalismo. A exceção é o livro Verdade Tropical, escrito pelo Caetano, que apresenta a visão dele sobre o movimento, com passagens biográficas de outras épocas. Mesmo aí não encontramos versões conflitantes, mas, sim, complementares. Por exemplo, durante a ditadura, enquanto Caetano apresenta a visão dele, de dentro da cadeia, apresentamos a movimentação que ocorreu do lado de fora. Entrevistamos um militar da época, citado por Bethânia, que foi fundamental para nos ajudar a entender todo o protocolo empregado pelo regime militar. Então, além de apresentarmos os fatos ocorridos dentro da prisão, complementamos com o que ocorreu do lado de fora, impossível de ser testemunhado por Caetano. Nesse sentido, nosso livro apresenta uma visão ainda mais abrangente desse período.

Vocês detalham os bastidores da realização e percalços do projeto ao longo dos anos, inclusive lembrando a reação positiva e emocionada de Caetano diante de alguns trechos prévios. Como estão recebendo as declarações de Caetano ( por meio da Paula Lavigne) de que não falaria sobre o livro por considerá-lo "de baixa qualidade literária"?
Drummond — É importante esclarecer que essas opiniões de Caetano são de 2003, quando ele teve acesso ao esboço do livro, que estava em construção, nem metade estava escrita ainda. Alguns jornalistas abordaram o tema sem apurar com rigor esse fato. O assunto foi deslocado no tempo, virou o destaque da notícia e colocou na cabeça das pessoas que o texto final recém lançado desagradou Caetano. Em recente viagem à Europa, Caetano foi questionado por jornalistas portugueses e declarou que não tinha lido a versão final e que o faria quando voltasse ao Brasil. A essa altura, é possível que ele já tenha lido. Ou está lendo aos poucos, pois o livro é grande, e o tempo dele, curtíssimo. Naturalmente ele pode gostar ou não gostar. Mas o fato de ele não gostar (o que ainda não se confirmou na versão final) também não deveria determinar se o livro deve ser lido ou não. Alguns leitores se basearam somente nas matérias iniciais e não compraram o livro, mas muitos leitores não tomaram como verdade absoluta aquelas críticas deturpadas e mergulharam na leitura. O livro está vendendo bem e temos recebido excelentes opiniões dos leitores. Alguns elogiam exatamente a informalidade do texto, porque resgata o Caetano Veloso artista popular, aproximando-o de seus fãs e de leitores do dia a dia. Não seria adequado contar a história de um personagem tão complexo empregando uma linguagem rebuscada, igualmente complexa. O livro tem o mérito de ser simples, sem ser simplório, sem fazer análises filosóficas da obra e da postura do artista. Escolhemos esse estilo e fomos fiéis a ele até o fim.
Nolasco — Caetano gostar ou não é indiferente para o caso. Ele é Flamengo, eu sou Fluminense e nem por isso precisamos brigar. Esse não é um livro que precise pedir suas bênção. Essa não é nossa intenção. Não sendo algo encomendado por ele. O fato de ainda haver alguma exploração em torno do fato de seu gosto pode trazer um sentido de polêmica ao assunto.Qualquer opinião, mesmo que eventualmente negativa, e seja ela de quem quer que seja, serve apenas para apreciação do gosto pessoal de cada um, longe de ser uma definição.

Que imagem vocês tinham de Caetano quando começaram o livro e qual a que ficou?
Drummond — Como dissemos, não conhecíamos Caetano tão bem, então não tínhamos uma ideia muito abrangente sobre ele. Mas ficamos surpresos com as muitas habilidades artísticas que ele possui. Além de cantar, tocar e compor, Caetano é um grande artista plástico, escreve muito bem, e tem uma relação muito íntima com o cinema, ramo no qual atuou em diferentes papéis ao longo de sua carreira. Mas de tudo que conhecemos de Caetano, o que mais nos impressiona é o fato de se reinventar o tempo inteiro, não ter preconceitos em relação a qualquer manifestação artística, absorver constantemente o que está a sua volta, criando e recriando, com seu jeito particular de ver o mundo. O Tropicalismo acabou, mas Caetano nunca deixou de ser tropicalista.
Nolasco — Caetano foi, é e será de vanguarda. Difícil imaginar outro que com tanto tempo de vida e carreira ainda consiga manter-se com esse nível de atividade. Sua capacidade de absorver o mundo que o cerca, devorar essas sensações, digerir e ainda apresentar algo inovador, faz dele um dos grandes da cultura brasileira. 

Caetano, uma Biografia: A Vida de Caetano Veloso, o mais Doce Bárbaro dos Trópicos
De Carlos Eduardo Drummond e Marcio Nolasco.
Editora Seoman, 544 páginas, R$ 59,90. 

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