Carlos Schroeder: As bibliotecas em mim Germano Rorato/Agencia RBS

Foto: Germano Rorato / Agencia RBS

Nasci em um pequeno município chamado Trombudo Central, aqui mesmo, no interior de Santa Catarina. Por alguma razão, minha cidade natal foi a capital estadual da mandioca e nunca ultrapassou seus dez mil habitantes (para sua sorte ou desgraça). Tampouco teve uma livraria, uma feira do livro ou uma grande biblioteca pública. Para quem morava em cidades sem livrarias, como eu, as bibliotecas (que também eram o Google da época) eram o contato com o mundo exterior. Estar numa biblioteca, mesmo que pequena, era estar no mundo. E eu passei minha adolescência naqueles mundos, o das bibliotecas públicas da minha região.

Primeiro, na Biblioteca Pública Presidente Getúlio Vargas, fundada por meu avô, no então distrito de Braço do Trombudo, onde morava (um vilarejo no interior de Trombudo Central). Depois, na Biblioteca Pública Municipal Cruz e Sousa, em Trombudo Central. E, por fim, no centro do universo: a Biblioteca Pública Municipal Nereu Ramos (criada em 21 de outubro de 1953) em Rio do Sul (maior cidade da região, a vinte e quatro quilômetros de distância de Trombudo Central). Lá, as prateleiras eram incontáveis e os volumes ocupavam dezenas e dezenas delas.

No início, minha mãe ia comigo, a cada quinze dias, de ônibus, para escolher três livros (o permitido), mas depois passei a ir sozinho e passar períodos inteiros entre os corredores. A felicidade era uma escala crescente, mais ou menos assim: o trajeto de ônibus e a ansiedade de chegar à biblioteca, a escolha dos livros (que demorava horas) e as leituras. Esse ritual quinzenal é o que sobra da minha adolescência, é onde estão as lembranças mais vívidas. Não foi a descoberta do sexo, ou da amizade ou do amor, pois as três coisas vieram acompanhadas de decepções e foram lá para trás, para o sótão mais distante. Enquanto minhas caminhadas pelos corredores da biblioteca, o tatear por filas de livros e estantes, a descoberta de grandes livros, sempre estiveram numa área luminosa, ao primeiro alcance da memória. Ninguém me falou de Franz Kafka, eu não li sobre ele em uma revista ou alguém me entregou nas mãos e disse "leia isso, cara, agora". Eu descobri sozinho, de joelhos, numa prateleira periférica da Biblioteca Pública Municipal Nereu Ramos. E estavam lá A metamorfose, O processo e Carta ao pai. Os títulos insólitos e diferentes nas lombadas e as capas sombrias desafiaram o jovem leitor, que já foi devorando as páginas no retorno (sacolejante) do ônibus.

E como se vive depois de Kafka? Ele te conecta com outro mundo, contemporâneo ("contemporâneo é aquele que mantém fixo o olhar no seu tempo, para nele perceber não as luzes, mas o escuro". Agamben, Giorgio), de verdade. E você quer, cada vez mais, repetir essa experiência de escuridão, e vai lendo coisas cada vez mais desafiadoras, e entra num caminho sem volta.

E você começa a se deparar com fantasmas entre as prateleiras da biblioteca, um dia você encontra Mersault, em outro, Madame Bovary, esbarra no escrivão Bartleby ou no cínico Bento Santiago ou na poesia corroída por vermes de Augusto dos Anjos.

Então aquela biblioteca, que era a porta do mundo, passara a ser também a porta dos meus instintos mais sombrios, como leitor, como ser caminhante.

E você se atreve a escrever, sim, a escrever.

Montei (com dezessete anos) o primeiro jornal do (já emancipado de Trombudo Central) município de Braço do Trombudo, o jornal Gazeta Tradição, um periódico mensal de variedades que me valeu um passaporte para escrever um ano mais tarde no Diário do Alto Vale. Comecei como jornalista, mas o que gostava mesmo era de escrever resenhas de livros, e contos.

Agora também já tinha acesso à farta biblioteca dos meus avós paternos, com as coleções do Hemingway, Maupassant e dos ganhadores do Nobel, mas a Biblioteca Pública Municipal Nereu Ramos, com seus milhares de volumes, continuava a ser meu destino predileto.

Essa pequena crônica, de um leitor faminto, adotado por uma biblioteca, pode soar como uma brisa, mas quem conhece as bibliotecas, de verdade, sabe que todas são habitadas pelos espectros de seus leitores. Então ainda estou lá, com os cabelos longos, olhar vago, indo de um corredor para outro, acreditando que cada prateleira era um continente. E era.

Leia também:

Todas as notícias de literatura do DC

Carlos Schroeder: três livros (nada convencionais) sobre o amor

Carlos Schroeder: Hoffmann, autor admirado por Baudelaire, Poe e Dostoiévski é lançado no Brasil











 Veja também
 
 Comente essa história