Charles Dickens (1812-1870) retratou como ninguém a vida moderna e desigual de Londres do século XIX, e clássicos como As aventuras do Sr. Pickwick, Oliver Twist, David Copperfield e Tempos difíceis ajudaram a moldar o imaginário sobre a Inglaterra em todo o globo. Agora o público brasileiro se reencontrará com mais um grande (em todos os sentidos!) livro de Dickens, fora de catálogo no Brasil há mais de sessenta anos: A vida e as aventuras de Nicholas Nickleby (Editora Amarilys, 912 páginas, R$ 138, tradução de Mariluce Filizola Carneiro Pessoa). Um dos ingredientes fundamentais deste livro é, de fato, o melodrama, mesmo que Dickens defenda sua credibilidade realista no prefácio à edição do romance em um só volume, publicada em 1839. 

O romance trata de um ano na vida do jovem Nicholas, dezenove anos, que se muda com sua mãe e irmã Kate para Londres depois da morte do pai. Chegando na capital inglesa, a família encontra o único parente vivo, o tio Ralph Nickleby, cuja riqueza e avareza já anunciam a polaridade que se desenvolverá ao longo da narrativa. Para se livrar do sobrinho, o tio Ralph encontra para ele um trabalho como assistente do "professor" Wackford Squeers num internato chamado Dotheboys Hall, no condado de Yorkshire (no norte do país). Assim começam as aventuras de Nicholas e de sua família; também se desenvolvem a partir daí, em paralelo, os diferentes retratos da vida nessa metrópole chamada Londres no início do século XIX. A edição conta com dois prefácios originais do autor (1839 e 1848), nova tradução de Mariluce Filizola Carneiro Pessoa e apresentação de Mariana Teixeira Marques-Pujol, professora da UNIFESP.

Publicado pela primeira vez numa série de vinte fascículos vendidos entre 31 de março de 1838 e 30 de setembro de 1839, quando Dickens tinha vinte seis anos e começava a colher os louros – inclusive financeiros – da notoriedade que lhe haviam proporcionado seus Pickwick Papers, conjunto hilariante de retratos da vida inglesa publicado também em folhetim dois anos antes. Como o próprio Dickens diria anos mais tarde, esse era o momento de sua vida em que ele "subia como um foguete". A experiência como repórter e correspondente do jornal Morning Chronicle no Parlamento contribuíra, sem dúvida, para que Dickens desenvolvesse um talento único para o retrato rápido e certeiro dos "quadros" ficcionais que tanto agradavam a imprensa e o público leitor londrino. Junte-se a isso a verve de investigação jornalística do jovem escritor – que ia atrás da história para ver com seus próprios olhos – e estão colocados alguns dos principais elementos que contribuíram para o sucesso das aventuras de Nicholas Nickleby – o primeiro número vendeu 50.000 exemplares. Vale encarar essa montanha de páginas e caçar a poderosa imaginação de Dickens.

Foto: Divulgação / Divulgação

Leia abaixo um trecho de A vida e as aventuras de Nicholas Nickleby:

– Bem, senhora – disse Ralph, impaciente –, está me dizendo que os credores tomaram conta de tudo e não restou nada para a senhora?

– Nada – respondeu a Sra. Nickleby.

– E que gastou o que lhe restava para vir aqui para Londres, para ver o que eu poderia fazer pela senhora? – continuou Ralph.

– Eu tinha esperanças – titubeou a Sra. Nickleby – de que o senhor pudesse fazer alguma coisa pelos filhos de seu irmão. Foi seu último desejo que eu apelasse para o senhor em favor deles.

– Não sei por que – resmungou Ralph, andando de um lado para o outro do cômodo –, mas quando um homem morre sem bens próprios, parece sempre achar que tem o direito de dispor dos bens dos outros. O que sua filha sabe fazer, senhora?

– Kate foi bem educada – soluçou a Sra. Nickleby. – Diga a seu tio, meu amor, o que aprendeu de francês e em atividades extras.

A pobrezinha ia dizer alguma coisa, quando o tio a interrompeu, muito sem cerimônia.

– Precisamos colocá-la num internato para que trabalhe como aprendiz – disse Ralph. – Espero que não tenha sido educada com delicadeza demais para isso.

– Não, tio – respondeu a moça chorando. – Tentarei fazer qualquer coisa que me proporcione casa e comida.

– Bom, bom – disse Ralph, um pouco mais maleável, seja pela beleza da sobrinha, seja por sua tristeza (com esforço, podemos considerar esta última). – Você precisa tentar, e, se for duro demais, talvez trabalhos de costura ou de bordado sejam mais leves. E você, rapaz, já fez alguma coisa? (voltando-se para o sobrinho.)

– Não – respondeu Nicholas, bruscamente.

– Não, foi o que pensei! – disse Ralph. – Essa foi a maneira como o meu irmão educou os filhos, senhora.

– Nicholas completou recentemente a educação que seu pobre pai pôde lhe proporcionar – respondeu a Sra. Nickleby –, e ele estava pensando em...

– Em prepará-lo para alguma coisa, algum dia – disse Ralph. – A velha história; sempre pensando e nunca fazendo. Se o meu irmão tivesse sido um homem ativo e prudente, poderia ter deixado a senhora rica: e se tivesse preparado o filho para o mundo, como fez o meu pai, quando eu era ainda um ano e meio mais novo do que esse menino, ele estaria numa situação de poder ajudá-la, em vez de ser um peso para a senhora, e aumentar o seu infortúnio. O meu irmão era um homem imprudente, inconsequente, Sra. Nickleby, e ninguém, tenho certeza, tem mais razão de achar isso do que a senhora.

Esse apelo deixou a viúva pensando que talvez tivesse dado melhor destino às suas mil libras, e então começou a refletir como seria bom ter esse dinheiro agora; esses pensamentos desanimadores fizeram suas lágrimas correrem mais rápido, e o excesso de infortúnios fez com que ela (sendo uma mulher bem-intencionada, mas também fraca) primeiro deplorasse sua má sorte e depois observasse, entre muitos soluços, que certamente fora escrava do pobre Nicholas, e que muitas vezes dissera a ele que deveria ter feito um casamento melhor (e na verdade ela dissera, muito frequentemente), e que ela nunca soube, enquanto ele estava vivo, como o dinheiro era aplicado, mas que se tivesse sido confiado a ela, a família poderia estar então numa melhor situação financeira; e outras lembranças amargas, comuns à maioria das mulheres casadas, quer durante o casamento, quer depois dele, ou em ambos os períodos. A Sra. Nickleby concluiu lamentando que o querido falecido nunca se dignara aceitar seus conselhos, salvo em uma ocasião; o que era uma declaração estritamente verdadeira, pois, apenas uma vez, ele agira por sugestão sua e havia, como consequência, se arruinado.

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