Os pesadelos de Enriquez

Um dos contos mais perturbadores que li nos últimos anos, As coisas que perdemos no fogo, intitula a coletânea de Mariana Enriquez recém-lançada no Brasil. Nele, uma sequência terrível de violências contra mulheres (homens que por ciúme ou vingança queimam suas companheiras ou ex-companheiras) estimula a criação do movimento "Mulheres ardentes", em que, por vontade própria, mulheres lançam-se em imensas fogueiras clandestinas para protestar contra a onda de feminicídios. 

Nos contos de As coisas que perdemos no fogo (Intrínseca, 192 páginas, R$ 39,90, tradução de José Geraldo Couto), Mariana usa uma espécie de "terror social" para abordar temas como pobreza, violência policial e as desigualdades de gênero. Uma vítima de bullying que arranca as próprias unhas, um grupo de jovens mutantes que vive às margens de um rio envenenado, uma criança assassina ou uma menina que tem uma caveira como melhor amiga convivem muito bem em páginas e páginas recheadas de personagens perturbadores e de cenas nas quais a vida cotidiana ganha contornos de pesadelo. Os doze contos reunidos na obra mostram uma realidade palpável, que trazem à tona problemáticas latino-americanas e mundiais. 

Em entrevista concedida ao jornal portenho Clarín, Enriquez contou que, a exemplo do norte-americano Stephen King, costuma trabalhar, em seus textos, com as fobias de seu país. "Se você fizer um conto sobre uma menina que desaparece dentro de uma casa em um bairro, fará ressoar os centros clandestinos da ditadura", diz ela, reconhecida como uma das novas vozes da literatura argentina. Com histórias protagonizadas, em sua maioria, por personagens femininas, o livro de Enriquez coloca sobretudo questões relacionadas à desigualdade de gênero. Aclamado pela crítica em vários países, As coisas que perdemos no fogo ganhou, em fevereiro de 2017, o prêmio Ciutat de Barcelona na categoria "Literatura Castelhana" e é um dos melhores lançamentos deste ano. Mariana Enriquez nasceu em 1973 em Buenos Aires. É jornalista, subeditora do jornal Página/12 e professora. Publicou, além de As coisas que perdemos no fogo, outros sete livros.

Convidada da Flip, chilena Diamela Eltit chega com Jamais o Fogo Nunca

Destaque na literatura da América Hispânica com uma obra experimental, na qual combina crítica feminista e marginalidade urbana, a chilena Diamela Eltit chega em julho, com seu romance Jamais o Fogo Nunca (Relicário, 176 páginas, R$ 40,00, tradução e prefácio de Julián Fuks). No dia 28 do mesmo mês, Eltit faz sua participação na Flip (Festa Literária Internacional de Paraty), dividindo a mesa "A contrapelo" com o documentarista Carlos Nader. 

Foto: Divulgação / Divulgação

Publicado originalmente há exatos dez anos, Jamais o Fogo Nunca foi eleito, em 2016, pelo jornal El País, um dos 25 melhores romances em espanhol dos últimos 25 anos. Com título que provém de um enigmático verso do poeta peruano César Vallejo (1892-1938), a obra constitui-se pela voz, em primeira pessoa, de uma mulher cujo dado biográfico essencial é ter sido uma sobrevivente da luta política no período do regime militar, luta que lhe trouxe a delação, o cárcere e a perda de um filho.

A obra parte desse pano de fundo histórico e pessoal para seguir em direção ao microcosmo dessa voz e examinar o tecido medular das subjetividades que trançaram as utopias e sentidos do século XX, encarando a condição precária dos corpos excedentes desse tempo.

A partir de uma máxima ambiguidade, o livro se abre a diversas possibilidades, nas quais oscila e dissolve-se a fronteira entre a vida e a morte, entre o corporal e o social. A noção de célula funciona, no romance, como chave política, mas, também, como unidade básica do corpo, ambas as arestas ali presentes para produzir a explosão e a confusão entre corpo e política. Narrar o fracasso a partir do interior da língua é um dos principais méritos desta obra de Diamela Eltit. A chilena nasceu em Santiago, em 1949, e iniciou sua trajetória de arte e política como parte do Coletivo Acciones de Arte (CADA), durante a ditadura de Augusto Pinochet (1915-2006). Estreou na ficção com Lumpérica, em 1983. Formada em Letras, foi professora visitante nas universidades de Columbia, Berkeley, Stanford, Washington, John¿s Hopkins e New York.  Recentemente, seus manuscritos foram adquiridos pela Universidade de Princeton.

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