Ronald Firbank (1886-1926), referência nos estudos de literatura LGBT Foto: Divulgação / Divulgação

Imodéstia, Capricho, Inclinações de Ronald Firbank (Carambaia, 520 páginas, R$ 119,00) vem para reparar uma grande injustiça com este seminal autor inglês (que há 100 anos atrás já abordava questões ligadas ao universo LGBT).

Com textos de Edmund Wilson e W. H. Auden, posfácio de Bruno Gambarotto e tradução de Fal Azevedo (novelas) e Bruno Gambarotto (textos complementares), a edição de capa dura com apenas 1.000 exemplares numerados será disputada a tapas a partir da primeira semana de agosto.

Considerado por Edmund Wilson (um dos principais críticos literários americanos) como "um dos melhores escritores ingleses de seu tempo", Ronald Firbank (1886-1926) publicou nove romances curtos, produzidos no intervalo de pouco mais de uma década. Sua obra, apesar de cultuada por escritores e críticos literários da Europa e dos Estados Unidos, nunca havia sido editada no Brasil.

O poeta W. H. Auden escreveu no New York Times: "Os nove ou dez romances curtos de Ronald Firbank são, para mim, um teste absoluto. Uma pessoa que não goste deles, como alguém que não gosta da música de Bellini ou prefere seu filé bem passado, até pode, tanto quanto eu saiba, ser dotada de algumas qualidades admiráveis, mas eu não vou querer vê-la novamente".

 O volume que a Carambaia lança em agosto reúne três de suas principais novelas, Imodéstia, Capricho e Inclinações, escritas entre 1915 e 1917. 

Com humor fino, diálogos curtos e ágeis, Firbank cria, nas três novelas, um retrato da sociedade inglesa de seu tempo, por meio de um mosaico literário composto por uma coleção de trechos de conversas e detalhes curiosos da vida ao redor. Em vez do aprofundamento psicológico e da interiorização do personagem mediados pelo narrador ou da densidade analítica (escola jamesiana) que marcam a prosa da época, seu texto se aproxima dos movimentos e estocadas ligeiras da comédia.

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 Por trás dos diálogos aparentemente frívolos, com divertidos debates sobre roupas ou decoração, flores e obras de arte, Firbank revela uma estrutura intelectual bastante densa. Sua prosa surpreende pela liberdade desimpedida, moral e formal, com que aborda temas como a religiosidade, a sexualidade e a ascensão social.

 Em Imodéstia, a sra. Shamefoot, casada com um importante homem público, concentra todas suas energias no projeto de erigir um vitral violeta, homenageando a si própria, na catedral de uma cidade do interior da Inglaterra. Em Capricho, a srta. Sinquier, filha de um clérigo, foge da casa paterna no meio rural para encenar Shakespeare em Londres. Na novela Inclinações, uma garota de família tradicional parte em viagem pela Grécia para acompanhar uma romancista mais velha, ignorando a natureza do interesse da escritora por ela.

Admirador da literatura francesa, sobretudo a de autores como Charles Baudelaire e J. K. Huysmans, ou do belga Maurice Maeterlinck, e de nomes do decadentismo inglês como Oscar Wilde, Aubrey Beardsley e Ernest Dowson, Firbank era também um esteta, e passou boa parte da vida viajando pela Europa e Oriente Médio, e frequentou círculos literários, sobretudo em Paris, onde se destacava por seus trajes extravagantes e bem cortados e os modos marcados, excentricidade pontuada por comentários invariavelmente oblíquos. "Exageradamente feminino, sofisticado, cosmopolita e 'elegante'", diria dele um ex-colega de Cambridge.

Tendo vivido em um período no qual a homossexualidade era ilegal na Inglaterra, Firbank colocou em cena personagens que se relacionam com outros do mesmo gênero, explorando esse universo em seus textos. Tornou-se, assim, referência para estudos posteriores sobre literatura LGBT.

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