Carlos Schroeder: clássico romeno de Mihail Sebastian chega ao Brasil Divulgação/Divulgação

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Um dos lançamentos mais aguardados do semestre acaba de chegar às livrarias brasileiras: Por dois mil anos (Amarilys, R$ 59,00, 352 páginas, tradução de Eugenia Flavian) de Mihail Sebastian (1907-1945). Durante toda a obra, discute-se sobre o lugar do povo judeu e sua cultura no mundo, num texto que fica entre especulação filosófica e ficção narrativa. É uma crônica lúcida e dolorosa de resiliência e desespero: seu protagonista, um jovem judeu cujo nome jamais é mencionado, registra seu contato com diferentes facetas da sociedade romena ao longo dos anos, naquilo que chama de "um tempo de espasmo" – o período entre-guerras que testemunhou a ascensão do fascismo e colocou em xeque a intelectualidade europeia. Da universidade, onde tentava passar despercebido pelos grupos de agressores antissemitas, à vida profissional adulta, o protagonista convive e conversa com reacionários, revolucionários, fanáticos e libertinos, sem jamais se identificar com nenhum grupo particular. Mas isso não o impede de perceber que nem amizades de longa data nem um esforço de assimilação o protegem de ser visto como um pária.

Publicado originalmente em 1934, o livro causou grande polêmica. Críticos à direita e à esquerda o acusaram duramente (os primeiros, de sionismo; os últimos, de antissemitismo). A controvérsia teve origem no prefácio à primeira edição do romance, escrito pelo filósofo Nae Ionescu, figura na qual o personagem ¿hit¿ Blidaru, mentor do protagonista, é baseado. Em seus diários, Sebastian manifestou a vontade de republicar Por dois mil anos sem o texto de Ionescu, opção adotada por esta edição brasileira.

Sebastian é uma figura central da literatura romena do século XX. Nasceu em 1907 numa família judia e cresceu em Br¿ila, uma cidade portuária às margens do rio Danúbio. Autor de ensaios, romances e peças de teatro, fez parte de um influente círculo de intelectuais romenos que incluía Mircea Eliade, Eugene Ionesco e Emil Cioran. Seus outros livros, escritos após esta polêmica, incluem romances menos políticos inspirados pelo modernismo francês. À medida que a Guarda de Ferro fascista subia ao poder na Romênia, Sebastian foi impedido de trabalhar como jornalista e se viu abandonado pelos amigos célebres – uma experiência narrada no diário que ele manteve de 1935 a 1944. Depois de sobreviver à guerra e ao Holocausto, Sebastian morreu atravessando a rua, atropelado por um caminhão, aos 38 anos. A publicação de seus diários em 1996, reacendeu a controvérsia sobre a responsabilidade da sociedade romena por crimes de guerra e antissemitismo cometidos no passado.

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