Fernando Campana: "Design também é saber tirar poesia do erro" Fernando Laszlo, divulgação/

Foto: Fernando Laszlo, divulgação

Na quinta-feira (17/8), Fernando Campana vai contar em uma palestra, em Criciúma, por meio de uma linha de analogias de linguagem, como ele e o irmão, Humberto, se transformaram no maior exemplo da produção de design nascida no Brasil. Feita para exportar, cheia de elementos nacionais e curiosos, mas também para orgulhar o mercado interno. O evento faz parte do projeto NCD em Pauta, do Núcleo Catarinense de Decoração, e ocorre no Teatro Elias Angeloni, às 18h59min. Inscrições no site novoncd.com.br/campana.

Muitas de suas criações estão associadas à cultura brasileira, com destaque para o Nordeste. O Sul influencia os Campana em algum momento?
Recentemente, nós fizemos uma coleção de móveis de madeira, mais acessíveis, e foi um sucesso já no primeiro dia da exposição. Mas o Sul nos influenciou com a Melissa. A marca de calçados fez o que as empresas italianas fazem, que é ousar e criar desafios para os designers. Eu gosto de ser desafiado, porque eu vou tentar criar algo que se aproxime ao máximo do desejo do empresário e do público que ele vai atender.

Há ainda muito a se descobrir na criatividade popular do interior do nosso país?
Muito. Eu tenho vontade de ir para o interior de Santa Catarina, para a Serra. Tem muita riqueza no Brasil ainda a se descobrir.

Qual a matéria-prima que você mais gosta de trabalhar?
As matérias-primas são todas nossas amantes. Nós costumamos deixar todos os exemplos, mostruário de tudo, espalhado pela área de produção. Muitas vezes, eles não são vistos por um mês e, de repente em um segundo, a gente olha para aquilo e, quase como em um jogral, eu e o Humberto dizemos: ¿isso serve para uma cadeira¿. O exemplo da cadeira de cordas. O Humberto comprou um rolo de corda de alpinista, de barco, e deixamos sobre uma mesa por uns dois meses. Um dia os dois, juntos, olharam e disseram: isso dá uma cadeira que parece um ninho. Eu projetei uma estrutura e o Humberto trançou. Hoje a peça é nosso cartão de visitas, é acervo do MoMA, em Nova York, e do Pompidou, em Paris. Temos que agradecer por não sermos forçados a fazer o que o empresário quer. Somos brifados e na nossa resposta, seja prototipada ou esclarecida, o empresário se convence que do pouco se faz muito. O Brasil, como os americanos, vive o design da urgência, com soluções práticas que remendam erros. O francês levaria um mês. Esta é a grande qualidade do Brasil, saber tirar poesia do erro e até minimizar o pecado do erro. A gente às vezes olha e diz: ¿isso aí é uma porcaria¿, desprezando. A gente releva e faz com que as pessoas enxerguem que tem potencial escondido em muitas técnicas artesanais, ou em muitos materiais naturais brasileiros e que passam despercebidos até mesmo por muitos designers e arquitetos.

Além da funcionalidade, o design cumpre outros papéis. Há um papel específico na criação de vocês?
O design hoje é uma ferramenta política. O design vem do desígnio, que vem do desejo de preencher uma falta, seja ela espiritual, de conforto, de funcionalidade ou de sonho. O designer capta uma outra esfera e traz para o público consumidor.

Como as parcerias são observadas dentro do estúdio?
Nós temos no estúdio só 12 pessoas e tratamos como se fosse uma alfaiataria. Lá é nosso laboratório de ideias. Temos costureira, soldador, arquitetos, designer gráfico e a parte financeira. Conseguimos fazer do estúdio nosso laboratório de protótipos e aos quais damos duas destinações: o que a empresa de alta escala se interessa e acha possível, como a Edra e Alessi, nós destinamos à produção industrial licenciando o produto e ganhando royalties. Quando é conceitual e é impossível de ser produzido em série, nós fabricamos no estúdio em pequenas edições, que vão de 25 a 100 edições, numeradas e assinadas, e com certificado. Estas, geralmente, são expostas em galerias e o público que consome é o colecionador.

Algumas das criações dos Campana para marcas como Louis Vuitton e Lacoste Foto: Divulgação

Como você vê os novos designers nacionais? Gosta de algum?
De vários. De certa forma, eu e o Humberto abrimos caminho para a valorização das manualidades e dos processos brasileiros, até industriais, que tenham origem aqui, mas que sejam reconhecidos no exterior como um produto brasileiro, que não precisa ser pena, mulata, Carnaval e futebol. Teria vários para citar. Mas tenho a honra de ter constituído um grupo em um workshop no Mube (Museu da Escultura, em São Paulo) chamado No Tech. Os alunos podiam usar tesoura, fita adesiva, grampeador, régua, mas não tinham a ajuda de uma tecnologia avançada (como máquina de costura). E a partir de alguns temas, deveriam criar algo. O resultado foi surpreendente. De lá, por exemplo, saíram Carol Gay, Pedro Franco, jovens designers, e que foram nossos alunos, alguns trazem um contexto mais industrializado, outros mais artesanais. Mas há um leque aberto. Tudo que tem um bom conceito, uma boa solução, é abraçado pelas empresas italianas, por exemplo, e não importa a nacionalidade. Hoje tem mais estrangeiro fabricando na Itália do que os próprios italianos.

Há uma declaração do Humberto que diz: ¿Design não é glamour, design é chão de fábrica¿. Isso está relacionado à dureza da criação?
Eu digo que ele é mais Van Gogh e eu, Andy Warhol. Sou mais prático. Mas que tem que conhecer o chão de fábrica, tem. Quem vem pensando que é só glamour, não é. A manualidade também é limpar. Eu mesmo faço faxina vez em quando no estúdio. Eu comecei de entregador, passei a office boy, fui contador e daí tive a chance de ser assistente do Humberto. Passei por todas as etapas. Mas tenho orgulho disso, porque aprendi muito. Nós, por exemplo, quando vamos na Alessi, cumprimentamos todos os funcionários, elogiamos algo que dá para ser elogiado e falamos com o técnico de produção. Nós sempre pedimos muitas vezes para ver o lixo da fábrica, o lixo da produção, e dali já saíram coisas que deixaram as pessoas chapadas. Como disse antes, design também é saber tirar poesia do erro.

Os irmãos Humberto e Fernando Campana, dois dos mais importantes designers da atualidade Foto: Norio Ito, divulgação
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