Pedro Malasartes volta ao cinema com "Malasartes e o Duelo com a Morte" André Brandão/Divulgação

Pedro Malasartes (Jesuíta Barbosa) e Áurea (Isis Valverde) em cena da comédia fantástica de Paulo Morelli 

Foto: André Brandão / Divulgação

Uma das mais queridas criações da cultura popular ibero- americana volta ao cinema com roupagem tecnológica em Malasartes e o Duelo com a Morte, em cartaz a partir desta semana. O filme escrito e dirigido por Paulo Morelli – realizador de Cidade dos Homens (2007) e Entre Nós (2013) – estreou em 300 salas do país fazendo alarde de suas qualidades técnicas: segundo foi divulgado, Malasartes... é o longa brasileiro com maior número de cenas construídas digitalmente na história, contabilizando 700 planos com efeitos especiais, o que corresponde a 50% de sua duração. O trabalho de pós-produção mobilizou um time de cerca de uma centena de artistas durante dois anos, consumindo R$ 4,5 milhões do orçamento total de R$ 13 milhões. Tamanha pirotecnia disputa a atenção com o dono da história, o folclórico Pedro Malasartes, encarnado na pele do ótimo ator pernambucano Jesuíta Barbosa, que despontou em títulos como Tatuagem (2013) e Praia do Futuro (2014).

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Malasartes e o Duelo com a Morte começa no ambiente familiar ao personagem pícaro: os sítios e as fazendas, as estradas rústicas e os povoados caipiras. Vivendo de pequenas trapaças e constantemente enrolado em confusões – das quais sempre dá um jeito de se safar –, Malasartes namora a bela Áurea (Isis Valverde), mas não deixa de flertar com algum rabo de saia que cruze sua vista. A boa vida do matuto esperto, porém, será ameaçada por dois grandes antagonistas: Próspero (Milhem Cortaz), irmão de Áurea, que fará de tudo para impedir que a garota se engrace com um sujeito preguiçoso, sem coragem e imprestável, e a própria Morte (Julio Andrade), cansada de ceifar vidas e que pretende ludibriar seu afilhado Malasartes para que ele assuma o tedioso ofício em seu lugar. Transportado para o universo onde reina seu padrinho depois de um acidente que pode lhe matar, o protagonista depara ainda com Esculápio (Leandro Hassum), assistente trapalhão da Morte, e um trio de bruxas liderado pela Parca Cortadeira (Vera Holtz).

Filme reúne imagens sofisticadas e brejeirice

As cenas externas de Malasartes... foram rodadas na região de Jaguariúna, a 120 quilômetros de São Paulo – mas metade do filme foi feito dentro do estúdio, para poder ganhar os efeitos especiais. Quando viaja até o inframundo da Morte, onde todos voam, o anti-herói topa com um gigantesco jardim de velas balançantes, representando as almas dos mortais vivos – situação que serve de pretexto para encher a tela com imagens feéricas. Figura que no Brasil é uma espécie de mistura da rusticidade de Jeca Tatu com a falta de caráter de Macunaíma, já vivido no cinema pelo comediante Mazzaropi e integrante na televisão da galeria de tipos do Sítio do Picapau Amarelo, Pedro Malasartes é conhecido por trapacear com sua fala ladina enganosamente simplória – e passar a perna na Morte no filme seria o feito maior de seu currículo. No entanto, a união desses diferentes registros – fantasia visualmente sofisticada com evocações a Harry Potter e O Senhor dos Anéis e desfile de desventuras burlescas capiais – simplesmente não funciona em Malasartes e o Duelo com a Morte.

Enquanto responde ao esquema arquetípico de confusões tipo commedia dell'arte, a trama avança: os diálogos entre Malasartes e Áurea e, especialmente, do anti-herói com o bocó de bom coração Zé Candinho (Augusto Madeira), cheios de regionalismos e falados com delicioso sotaque interiorano, conferem leveza e graça – ainda que não brilhem exatamente pela originalidade. Quando migra para o escuro e excessivamente artificioso domínio do sobrenatural, entretanto, o roteiro derrapa na inconsistência e na falta de clareza das ações dos personagens mágicos – sucumbindo ao tom hesitante entre a solenidade da atuação do gaúcho Julio Andrade e o humor desgastado de Leandro Hassum. Preso entre dois planos como seu personagem principal, Malasartes e o Duelo com a Morte desperdiça a chance de divertir o público com a malandragem brejeira tipicamente brasileira, que dispensa malabarismos supérfluos – presente em comédias de matriz semelhante como A Marvada Carne (1985), de André Klotzel, e O Auto da Compadecida (2000), de Guel Arraes.

MALASARTES E O DUELO COM A MORTE
De Paulo Morelli
Comédia fantástica, Brasil, 2017, 107min, 12 anos. 
Veja cinemas e horários no roteiro das páginas 8 e 9.
Onde assistir: Cineflix Total, Cinemark Barra, Cinemark Ipiranga, Cinespaço Wallig, Espaço Itaú, GNC Iguatemi, GNC Praia de Belas.
Cotação: bom


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