Carlos Schroeder: escritor radicado em Chapecó é finalista do Prêmio São Paulo de Literatura Felipe Ballin / Holga Fotografia/Holga Fotografia

Foto: Felipe Ballin / Holga Fotografia / Holga Fotografia

O Prêmio São Paulo de Literatura, promovido pela Secretaria da Cultura do Estado de São Paulo, divulgou seus 20 finalistas de sua décima edição. Com valor total de R$ 400 mil em gratificação, o certame é o maior do país em premiação individual. São 10 obras concorrendo a R$ 200 mil na categoria melhor livro de romance do ano; cinco disputando R$ 100 mil na categoria melhor livro de romance do ano para autor estreante com mais de 40 anos; e cinco concorrendo a R$ 100 mil na categoria melhor livro de romance do ano para autor estreante com menos de 40 anos.

Gaúcho radicado em Chapecó, André Timm e seu romance Modos inacabados de morrer (Oito e meio, 140 páginas,  R$ 39,90) são finalistas na categoria autor estreante com mais de 40 anos. O livro mergulha na vida do garoto Santiago, que sofre da rara doença de narcolepsia (caracterizada por episódios irresistíveis de sono), e as consequências do diagnóstico no meio familiar e escolar. Com uma prosa cirúrgica, Timm vai da infância à vida adulta de Santiago preenchendo lacunas de uma vida em suspenso.

Natural de Porto Alegre, Timm vive há treze anos em Chapecó, com a esposa e a filha Sofia, hoje com sete anos. Além de escritor, criou e edita o projeto 2 mil toques, cujo objetivo é mostrar as rotinas e processos envolvidos no dia a dia de escritores brasileiros. Com formação em Letras e especialização em Literaturas do Cone Sul, pela Universidade Federal da Fronteira Sul, atua também como redator e estrategista de marcas em comunicação.

Com Insônia, seu livro de estreia (o qual tive o prazer de editar), obteve Menção Honrosa no Prêmio SESC de Literatura. Em 2015, foi finalista do Concurso Brasil em Prosa, da Amazon, com o conto Sonífera Ilha. E, em 2016, Modos Inacabados de Morrer, seu primeiro romance, foi vencedor da Maratona Literária da editora Oito e Meio.

Foto: Felipe Ballin / Holga Fotografia

Conversei com o autor, abaixo,  sobre o prêmio, o livro e a vida em Santa Catarina.

O prêmio e seus significados

Antes de tudo, é uma espécie de endosso. Significa que o livro alcançou a condição daquilo que o mercado editorial, a crítica, enfim, os meios que parametrizam a produção literária consideram boa literatura. O livro já vinha tendo uma boa repercussão junto aos leitores, mas a indicação a um prêmio prestigiado como o São Paulo é uma espécie de validação definitiva. Escrever é sempre um exercício de pisar em falso, de tatear no escuro. O reconhecimento ajuda a fortalecer a crença de que acertamos em algo. Além de tudo, no caso do Prêmio São Paulo, há a premiação em dinheiro, que sem dúvidas, é um bom incentivo e um amparo material para que consigamos seguir produzindo. Por último e não menos importante, é interessante que um livro publicado por uma editora pequena (a Oito e Meio) conquiste posições de expressão nacional. É salutar que fique perceptível que para além do mainstream editorial é possível encontrar excelentes editoras, que se por um lado perdem em questão de capacidade de distribuição e divulgação, compensam em qualidade editorial, esmero e dedicação aos livros e aos autores.

O início

O estímulo inicial para a criação de Santiago, o protagonista, surgiu quando me deparei com um documentário que mostrava a vida de um britânico que sofre de uma condição muito severa de narcolepsia, exatamente como a de Santi. Ele foi essencial na construção do personagem, visto que o procurei na internet e, depois, o entrevistei algumas vezes durante o processo de escrita. Com o entendimento de quem era Santiago e de como sua vida poderia ser afetada devido à doença, o processo narrativo se desenvolveu muito a partir das situações dramáticas que poderiam decorrer desse estado.

O processo

O fato dos primeiros episódios de narcolepsia se manifestarem justamente entre o final da infância e início da pré-adolescência quase que ditaram a condição de ser um romance de formação. Era preciso mostrar Santiago nesse momento de descoberta dos primeiros sintomas e da confirmação do diagnóstico. Tempo também em que acontece tudo aquilo que terá consequências que perduram por toda sua vida adulta. Ao mesmo tempo, não queria que o romance acontecesse todo linearmente em termos cronológicos. Por isso, a narrativa começa em media-res e tem avanços e retrocessos temporais. Além disso, todo o livro é narrado em capítulos curtos e, em grande parte, sem divisão de parágrafos, estimulando uma leitura quase que de um só fôlego. Isso, acredito, ajudou a trazer uma fluidez e um senso de urgência que compensam um pouco o peso da narrativa em segunda pessoa. Mas, para além disso, essa pessoa narrativa, também um tanto incomum, foi uma aposta. Ao jogar o leitor com tanto ímpeto na pele de Santiago, eu acreditava que de um momento em diante a segunda pessoa poderia se tornar quase que invisível, especialmente depois do estranhamento inicial que ela causa. Quando a experiência de leitura alcança essa condição e essa parede é derrubada, a partir desse momento o leitor é Santiago e tudo que se sobressai, acredito, é a história.

Santa Catarina e o imaginário

Minha esposa recebeu uma proposta de trabalho. Ambos morávamos em Porto Alegre. Na ocasião, eu já trabalhava em agências, de forma que a condição para que viéssemos seria eu encontrar, por aqui, uma em que quisesse trabalhar. Encontrei e aqui estamos, desde 2004, embora eu já não esteja mais na mesma agência. É curioso. Percebo que em meu livro anterior, Insônia, e mesmo em obras anteriores, o imaginário da metrópole tinha uma influência muito mais presente na minha produção. Em contos mais recentes e, inclusive em Modos Inacabados de Morrer, o imaginário da cidade pequena impera. De certa maneira, se não for o imaginário de Santa Catarina enquanto estado, ao menos pode ser o de Chapecó, enquanto cidade. As cidades pequenas, ainda que Chapecó não seja assim tão pequena, têm uma lógica própria, as coisas se dão de maneira e num tempo diferente do que em grandes cidades. Aprendi a gostar desse modus operandi da cidade menor e creio que de certa forma isso impacta nos universos ficcionais que crio. Há também, creio, uma influência quase que Lynchiana do fascínio pelo quanto os lugares pacatos podem guardar de bizarro e assustador. Chapecó é um pouco Twin Peaks. Por sinal, meu próximo romance também se passará em uma cidade pequena.

Novos projetos

Estou em um estágio bem preliminar da feitura de um segundo romance. Além disso, devo sair em algumas antologias de contos ainda este ano ou no começo do próximo. Há também a intenção de publicar Modos Inacabados de Morrer fora do Brasil, embora ainda não haja surgido nenhuma proposta definitiva.

A lista completa dos finalistas do Prêmio São Paulo de Literatura:

 

MELHOR LIVRO DE ROMANCE DO ANO 2016

Bernardo Carvalho - Simpatia pelo demônio (Cia. das Letras)

Flávio Izhaki - Tentativas de capturar o ar (Rocco)

Javier Arancibia Contreras - Soy loco por ti, América (Cia. das Letras)

José Luiz Passos - O marechal de costas (Alfaguara)

Maria Valéria Rezende - Outros cantos (Alfaguara)

Michel Laub - O tribunal da quinta-feira (Cia. das Letras)

Miguel Sanches Neto - A bíblia de Che (Cia. das Letras)

Ricardo Lísias - A vista particular (Alfaguara)

Silviano Santiago - Machado (Cia. das Letras)

Victor Heringer - O amor dos homens avulsos (Cia. das Letras)

 

MELHOR LIVRO DO ANO DE ROMANCE – AUTOR ESTREANTE COM MAIS DE 40 ANOS

Antonio Cestaro - Arco de Virar Réu (Tordesilhas | Alaúde)

Franklin Carvalho - Céus e terra (Record)

Martha Batalha - A vida invisível de Eurídice Gusmão (Cia. das Letras)

Priscila Gontijo - Peixe Cego (7 Letras)

Tina Correia - Essa menina (Alfaguara)

 

MELHOR LIVRO DO ANO DE ROMANCE – AUTOR ESTREANTE COM MENOS DE 40 ANOS

Alexandre Marques - Entropia (Record)

André Timm - Modos Inacabados de morrer (Oito e Meio)

Maurício de Almeida - A instrução da noite (Rocco)

Raul Ruas -  Em torno dos 26 anos: Quando predominam tons tristes, vaidosos e politicamente incorretos (7 Letras)

Robson Viturino - Do outro lado do rio  (Nós)

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