Carlos Schroeder: o museu pessoal de Julian Barnes Editora Rocco/Divulgação

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Julian Barnes é meu escritor inglês predileto. Criou uma brilhante trilogia sobre o tempo, a memória e a honestidade em seus três últimos livros lançados no Brasil (O sentido de um fim, Altos voos e quedas livres e O ruído do tempo) e agora retorna às livrarias brasileiras com seu passeio pela mundo das artes plásticas.

No recém-lançado Mantendo um olho aberto (Rocco, 267 páginas, R$ 44,90, tradução de Pedro Sussekind) a perspectiva é outra: entra em ação o Barnes ensaísta, caminhando pelo labirinto de tendências, escolas, estilos, correntes e vertentes que compõem o universo da pintura, analisando desde obras clássicas, como A balsa da Medusa, de Géricault, até os nus de Lucien Freud, neto do pai da psicanálise. Conta como foi sua formação, se aproximando das artes plásticas, vagarosamente, e percebendo suas pontes com a vida e com a literatura. Na introdução percebemos que foi a pintura francesa, e em especial as obras de Gustave Moreau, que o fizeram sentir a urgência de escrever sobre arte. É um livro essencial por dois motivos: pela prosa refinada de Barnes, mas também pelas brilhantes reconstituições históricas de obras e pintores.

Abaixo, em primeira mão, um trecho da introdução do livro:

Capa de Mantendo um olho aberto, de Julian Barnes.
Foto: Divulgação / Divulgação

Alguns anos atrás, um amigo jornalista, correspondente de sua revista em Paris, tornou-se, numa rápida sucessão, pai de duas crianças. Assim que os olhos dos bebês tornaram-se capazes de focar apropriadamente, meu amigo os levava a passear pelo Louvre e apontava ternamente suas retinas infantis para algumas das melhores pinturas do mundo. Não sei se ele também tocava música clássica para as crianças enquanto estavam na barriga da mãe, como fazem algumas pessoas grávidas; mas já me peguei especulando algumas vezes sobre o efeito disso naquelas crianças: serão potenciais diretoras do MoMa – ou, talvez, adultos sem absolutamente nenhum senso visual e com horror a galerias de arte? Meus próprios pais nunca tentaram me oferecer um contato maior com a cultura em uma idade precoce (ou em qualquer idade); nem me desencorajaram de o fazer. Ambos eram professores dos primeiros segmentos e, portanto, as artes – ou talvez mais precisamente a ideia das artes– eram respeitadas na nossa casa. Havia livros de verdade nas prateleiras; e havia até mesmo um piano na sala de estar – embora, em nenhum momento da minha infância, ele tenha sido realmente tocado. Minha mãe o tinha ganhado de seu pai coruja quando era uma jovem pianista, dotada e cheia de esperança. Entretanto, sua dedicação ao piano foi interrompida quando, aos vinte e poucos anos, se deparou com uma difícil peça de Scriabin. Ela percebeu, à medida que falhava repetidamente em dominar essa peça, que tinha alcançado um certo nível como pianista, mas nunca chegaria a ultrapassá-lo. Então, parou de tocar abrupta e definitivamente. Mesmo assim, não pôde se livrar do piano; ele se mudou de casa com ela, seguindo-a fielmente no casamento e na vida materna, e na velhice e na viuvez. Em sua superfície empoeirada, encontrava-se uma pilha de partituras, incluindo aquela peça de Scriabin que havia sido abandonada décadas antes.

Quanto às artes plásticas, havia três pinturas a óleo na casa. Duas delas eram de cenas rurais em Finistère, pintadas por um dos assistants franceses de meu pai. Elas eram de certo modo tão enganosas quanto o piano, uma vez que 'tio Paul", como era conhecido, não as tinha pintado exatamente en plein air, mas as copiado – e aumentado – a partir de cartões-postais de pinturas. Ainda hoje, tenho os originais a partir dos quais ele trabalhou (um deles manchado de tinta) em minha escrivaninha. A terceira pintura, que ficava na parede do hall, era um pouco mais autêntica. Era um nu feminino a óleo, numa moldura dourada, provavelmente uma cópia obscura feita no século XIX de um original igualmente obscuro. Meus pais tinham comprado o quadro em um leilão no subúrbio longínquo de Londres, em que vivíamos. Lembro-me dele principalmente porque o considerava completamente sem erotismo. Isso parecia muito estranho, porque a maioria das outras representações de mulheres despidas me davam a sensação de um efeito fortificante. Talvez fosse isso o que a arte fazia: por ser solene, tirava a excitação da vida. Havia outra evidência de que esse poderia ser o propósito e o efeito da arte: as entediantes peças de teatro amadoras para as quais os meus pais me levavam, junto com o meu irmão, uma vez por ano; e os monótonos programas de discussão sobre artes que eles costumavam ouvir no rádio. Aos doze ou treze anos, eu era um saudável pequeno filisteu do tipo como os britânicos são, tão bons em produzir, apaixonado por esportes e por quadrinhos. Eu não sabia cantar, não aprendi nenhum instrumento musical, nunca estudei artes na escola e, além de uma rápida participação em uma cena (sem fala) como um dos três reis Magos, mais ou menos aos sete anos, nunca mais atuei. Embora tivesse sido introduzido à literatura por meio de minhas atividades escolares e começasse a perceber como tinha conexões com a vida real, pensava na literatura principalmente como uma matéria na qual eu tinha que passar de ano. Uma vez, fui levado por meus pais à Wallace Collection em Londres: mais molduras douradas e mais nus sem erotismo. Por algum tempo, ficamos diante de uma das pinturas mais famosas do museu: O cavaleiro sorridente, de Frans Hals. Eu não conseguia entender de jeito nenhum o motivo do sorrisinho daquele homem com um bigode idiota, ou por que aquela deveria ser uma pintura interessante.

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