Escritor Albert Camus. Foto para publicação online na coluna de literatura (Thiago Momm), do Anexo
Foto: Wikicommons / Divulgação

Dos livros que atravessaram a minha adolescência e acabaram com minha ingenuidade, acredito que O estrangeiro de Albert Camus tenha sido o mais potente. Depois deste livro, devorei tudo que consegui do autor e quando comecei a escrever (há vinte anos atrás) estava lá, escancarada, a  influência dele. Romancista, ensaísta, filósofo e jornalista, Camus nasceu em Mondovi, em 1913, cidade interiorana conhecida hoje como Dréan, na Argélia, e faleceu em Villeblevin, em 1960, em um acidente de carro indo para Paris. Ganhou o Prêmio Nobel de Literatura em 1957 "por sua importante produção literária, que, com seriedade lúcida ilumina os problemas da consciência humana em nossos tempos" (texto da academia sueca). Foi amigo de Jean-Paul Sartre e seu existencialismo intelectual, mas criticou o engajamento de Sartre, que começou a favorecer a violência como fator de mudança para o socialismo. Guardo ainda as edições velhas e surradas de Camus, como relíquias, mas lacrimejo quando surgem novas edições. E a editora Record acaba de reeditar cinco livros dele com tradução de Valerie Rumjanek e novo projeto gráfico de Leonardo Laccarino: Diário de viagem (128 páginas, R$ 34,90), O homem revoltado (400 páginas, R$ 49,90), A queda (112 páginas, R$ 37,90), A peste (288 páginas, R$ 42,90) e seu livro mais famoso, o clássico O estrangeiro (128 páginas, R$ 47,90). Abaixo, uma pequena sinopse de cada um dos títulos.

Capa de
Foto: Reprodução / Divulgação

Diário de viagem

Publicado na França em 1978, traz as impressões anotadas pelo escritor em duas viagens: aos Estados Unidos, em 1946, e à América do Sul (principalmente o Brasil) entre junho e agosto de 1949.

Durante sua estada em nosso país, Camus registra observações preciosas sobre vários aspectos da vida brasileira, comentando ainda seus encontros com Aníbal Machado, Manuel Bandeira, Murilo Mendes, Augusto Frederico Schmidt, Oswald de Andrade, Mário Pedrosa e muitos outros.

São de leitura obrigatória para o leitor brasileiro os comentários aguçados feitos pelo pensador francês sobre este "país em que as estações se confundem umas com as outras; onde os sangues misturam-se a tal ponto que a alma perdeu seus limites".

O homem revoltado

Aqui, Camus coloca-se a favor da liberdade humana e da dignidade do indivíduo e contrário ao comunismo, aos regimes totalitários e ao terrorismo, pois incitam a revolta humana, os assassinatos e a opressão. Muito mais do que um ensaio, é uma obra contra os crimes de Estado, com destaque para aqueles ocorridos durante o regime stalinista. Segundo Camus, não há crime que possa ser justificado em nome da História. O autor mostra toda a sua personalidade por si só revoltada, com o objetivo da superação e da procura de um caminho, já que termina de escrever o livro alguns anos após o fim da Segunda Guerra Mundial. Apesar da morte precoce, Albert Camus deixou um legado para a sociedade e para cada indivíduo, iluminando os problemas da consciência humana.

A queda

Um advogado francês faz seu exame de consciência num bar de marinheiros, em Amsterdã. O narrador, autodenominado “juiz-penitente”, denuncia a própria natureza humana misturada a um penoso processo de autocrítica. O homem que fala em A queda se entrega a uma confissão calculada. Mas onde começa a confissão e onde começa a acusação? Ele se isolou do mundo após presenciar o suicídio de uma mulher nas águas turvas do Sena, sem coragem de tentar salvá-la. Camus revela o homem moderno que abandona seus valores e mergulha num vazio existencial. Fundamental para todas as gerações.

A peste

Romance que destaca a mudança na vida da cidade de Orã, na Argélia, depois que ela é atingida por uma terrível peste, transmitida por ratos, que dizima a população. É inegável a dimensão política deste livro, um dos mais lidos do pós-guerra, uma vez que a cidade assolada pela epidemia lembra a ocupação nazista na França durante a Segunda Guerra Mundial. A peste é uma obra de resistência em todos os sentidos da palavra. Narrado do ponto de vista de um médico envolvido nos esforços para conter a doença, o texto de Albert Camus ressalta a solidariedade, a solidão, a morte e outros temas fundamentais para a compreensão dos dilemas do homem moderno

O estrangeiro

Estre livro narra a história de um homem comum que se depara com o absurdo da condição humana depois que comete um crime quase inconscientemente. Meursault, que vivia sua liberdade de ir e vir sem ter consciência dela, subitamente perde-a envolvido pelas circunstâncias e acaba descobrindo uma liberdade maior e mais assustadora na própria capacidade de se autodeterminar. Uma reflexão sobre liberdade e condição humana que deixou marcas profundas no pensamento ocidental. Uma das mais belas narrativas deste século.

 

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