Lydia Davis, escritora
Lydia Davis, escritora norte-americana vencedora do Man Booker Prize 2013Foto: Lydia Davis / Reprodução

Rainha do conto

"Lydia Davis é a versão abreviada de Proust", já afirmara certa vez o romancista Jonathan Franzen, que foi além: "Poucos autores em atividade conseguem fazer as palavras na página terem mais valor." Concordo. Vencedora do Man Booker Prize em 2013, Lydia Davis domina a síntese dramática com uma habilidade impressionante e se consagrou como mestre das narrativas breves. Até o ano passado, a autora só tinha dois livros lançados no Brasil, Tipos de perturbação, em 2013, pela Companhia das Letras, e O fim da história, pela José Olympio, em 2016.  Corrigindo parte dessa injustiça, acaba de sair Nem vem (Companhias das Letras, 304 páginas, R$ 59,90, tradução de Branca Vianna), outra brilhante coletânea de narrativas breves da autora norte-americana. São  122 narrativas que se equilibram entre o sarcasmo e a epifania, com uma boa dose de estranheza, como essa a seguir: "O cachorro se foi. Temos saudades dele. Quando toca a campainha,  ninguém  late. Quando  chegamos  tarde  em  casa,  não tem ninguém nos esperando. Ainda encontramos seus pelos brancos  pela  casa  e  nas  nossas roupas.  Catamos  todos  os pelos  que  encontramos.  Deveríamos  jogar  tudo  fora.  Mas  é  só o  que  nos  resta dele. Não jogamos os pelos fora. Temos uma esperança irracional — a de que se conseguirmos juntar bastante pelo, conseguiremos remontar o cachorro pelo a pelo." (O pelo do cachorro)

Livro Nem vem, de Lydia Davis.
Capa do livro de Lydia Davis que acaba de ser lançado no Brasil pela Editora Cia das LetrasFoto: Livro Nem vem de Lydia Davis / Reprodução

Mergulhar nas histórias de Lydia Davis é sempre uma aventura delicada e radical, mas sobretudo inesquecível.

Havana

Livro Trilogia suja de Havana, de Pedro Juan Gutierrez
Capa do livro do cubano Pedro Juan GutierrezFoto: Livro Trilogia suja de Havana / Reprodução

Seu primeiro emprego foi de vendedor de jornal e sorvetes, depois seguiu soldado, instrutor de natação, cortador de cana, desenhista técnico, locutor de rádio e jornalista,  entre outros.  Hoje em dia divide seu tempo entre esculturas, poesias, pinturas e, é claro, sua prosa. O escritor cubano Pedro Juan Gutierrez é uma das vozes mais provocadoras da literatura contemporânea: sua narrativa crua expõe o submundo cubano: golpistas de todas as espécies e prostitutas pra lá de espertas, tudo regado a muito rum, salsa e sexo.

Escrito entre 1994 e 1997, e publicado no Brasil em 2001, Trilogia Suja de Havana (Alfaguara, 352 páginas, R$ 62,90, tradução de Paulina Wacht e Ari Roitman) acaba de voltar às prateleiras brasileiras.  São sessenta histórias divididas em três capítulos. Destaque para Ratos de Esgoto, no qual o personagem, após tentar desentupir um encanamento de gás com uma chave inglesa, é atacado por um rato que lhe morde quase todo o corpo e é obrigado a seduzir uma enfermeira horrorosa para conseguir uma vacina anti-rábica.

Em todos os seus livros uma questão permanece: um homem lutando com sua sexualidade, sua afirmação, e ele se lança sem medo e sem preconceito na maré da sensualidade cubana... E não faz críticas nem apologias ao regime castrista, apenas retrata seu mundo, sua vida e dos que o circundam, onde a lógica dos valores não funciona, apenas a lógica da sobrevivência comanda a sinfonia habanera. E deixa seu recado: "Não me interessa o decorativo, nem o bonito, nem o doce, nem o delicioso. A arte só serve para alguma coisa se é irreverente, atormentada, cheia de pesadelos e desespero. Só uma arte irritada, indecente, violenta e grosseira pode nos mostrar a outra face do mundo, a que nunca vemos ou nunca queremos ver, para evitar incômodos a nossa consciência."

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