Carlos Henrique Schroeder: "Noites florentinas" de Heinrich Heine ganha edição especial e numerada Reprodução/Reprodução

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A obra de Heinrich Heine (1797 - 1856) há mais de dois séculos preenche inúmeros espaços e linguagens. Sua poesia foi musicada por compositores como Schumann, Schubert, Mendelssohn, Brahms e Wagner, e tinha admiradores como o filósofo Friedrich Nietzsche ou mesmo nosso mestre Machado de Assis. Em 1828, Heine viajou para Itália e ficou encantando com Florença: o resultado dessa visita é um dos poucos textos em prosa do poeta, um dos expoentes do romantismo alemão. E os leitores brasileiros poderão conferir sua incursão prosaica a partir da segunda quinzena de outubro, com o lançamento de Noites florentinas (Carambaia, 112 páginas, R$ 68,90, tradução de Marcelo Backes).

Com tiragem limitada, numerada e projeto gráfico de Mateus Valadares, essa pequena joia permitiu ao poeta transportar para a prosa a delicadeza de sua poesia, pelo menos nas primeiras páginas, quando o personagem Maximilian chega à casa de uma mulher enferma, Maria, para durante duas noites distraí-la contando algumas de suas histórias. Nada sabemos sobre as relações anteriores entre os dois, mas o autor desenha um sutil e ambíguo jogo de sedução enquanto se desenrolam as lembranças de Maximilian – que promete abrir seu coração à interlocutora.

À maneira de muitos de seus poemas, Heine quebra as expectativas de que o enredo evolua para um idílio romântico. Maximilian passa do lirismo à mordacidade ao comentar impressões de suas viagens pelas grandes cidades europeias. As observações mais implacáveis são reservadas à Inglaterra e aos ingleses, que ele conclui serem os “deuses do aborrecimento”. Tudo é motivo para que Heine acione a lâmina afiada na voz de seu personagem: o idioma, a culinária, os discursos e brindes, as concepções de mundo e até a prática econômica. Sobre os alemães suas palavras não são mais lisonjeiras, e até ao elogiar os franceses Maximilian “louva” os encontrões que levou pelas ruas de Paris.

Nos interstícios entre esses dois momentos contrastados, e em poucas páginas, Heine encontra ocasião para visitar as camadas mais profundas do romantismo – a temática byroniana destacada pelo tradutor Marcelo Backes em seu posfácio. A presença da morte é insistente, a natureza se configura misteriosa e fantasmagórica, o fazer artístico tem dimensões sobrenaturais e até diabólicas. Embora o enredo se inicie com um mote semelhante ao das Mil e uma noites, a vigília da ouvinte falha, e o sono se mistura nebulosamente com a realidade. Além disso, as experiências amorosas de Maximilian se assemelham a uma busca pelo sublime, que nunca se completa. O projeto gráfico deste volume, desenvolvido por Mateus Valadares, faz referência a essa duplicidade: na capa, a escultura de mármore que exerce fascínio etéreo no personagem é coberta por letras recortadas com a precisão de uma faca.

É sem dúvidas uma das preciosidades deste segundo semestre: mas os interessados devem ficar atentos, pois o livro não estará em livraria alguma, só será comercializado diretamente pelo site da editora, o www.carambaia.com.br.

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