Capa do livro O abismo entre nós, de Cris Vazquez.
Foto: Reprodução / Reprodução

A ficção produzida em Santa Catarina, especialmente nos últimos dois anos, coroou uma geração de autores tão díspares quanto André Timm (Chapecó), Dirce Waltrick do Amarante (Florianópolis), Giovanni Arceno (Joinville), Gregory Haertel (Blumenau), Caléu Nilson de Moraes (Santa Cecília), Patrícia Galelli (Concórdia), Demétrio Panarotto (Florianópolis), Viegas Fernandes (Imbituba) e João Chiodini (Jaraguá do Sul), apenas para ficar em alguns nomes. Cris Vazquez junta-se a este time com seu O abismo entre nós (Moinhos, 200 páginas, R$ 38,00), com lançamento nesta quarta-feira, a partir das 20h, na Trattoria do Guto, na Av. Hercílio Luz, 1169, no centro de Florianópolis.

O romance surgiu ao redor de uma narrativa breve, finalista do Prêmio SESC 2016, e conta a história de Horácio, que escrevia romances e contos que dialogavam com o mundo do rock, até o final da década de 1980, mas abandonou sua obsessão pela escritura e pela música (para ele, o mundo fora invadido pela música pop, pasteurizada e sem atitude). Está deprimido, largou a tradução também, e agora administra a casa e acompanha a educação dos filhos. Esta inflexão nos lembra do universo do norte-americano Herman Melville, autor de Bartleby, o escrivão, quando o ousado escrivão Bartleby resolve passar os dias em estado de contemplação, sempre com a frase "Acho melhor não... copiar, escrever, ir embora etc.". O escritor espanhol Enrique Vila-Matas volta ao tema, sobretudo "o parar de escrever", em Bartleby & Companhia: um escritor resolve voltar à ativa depois de 25 anos de eclipse literária e passa a fazer notas de rodapé para um romance inexistente. Mas voltemos a Horácio, que certo dia é interpelado num museu pela aspirante a escritora Florence, e ela lhe propõe uma troca de contos como estímulo para a escrita. A relação logo se torna afetiva para ela, mas ele reluta ao longo de 20 anos. Surge, então, a temática da sapiossexualidade, ou seja, quando o interesse amoroso nasce da admiração intelectual, e o romance se desdobra em contos, cartas, e diário, tudo muito bem fluido e coeso.

Assis Brasil, que comanda a mais antiga oficina de criação literária do país (e é um dos grandes ficcionistas brasileiros contemporâneos), assina a quarta capa e pontua: "a autora soube enfrentar com êxito os alçapões que tragaram Florence e Horácio, construindo uma história sólida, capaz de nos levar em frente para viver momentos de descobertas intelectuais e afetivas". A orelha de Irka Barros vai mais longe: "Ao longo do livro, o embate entre Florence e Horácio transforma-se numa analogia do que ocorre dentro da cabeça de um autor. As frases que estimulam a escrita em abismo, os trechos dos diários, as críticas ácidas, correspondências e as situações de encontros e desencontros entre as personagens são ricos materiais para compreender as nuances que compõem o fazer literário. Vinte anos é muito tempo para quem espera? E para quem se dedica a uma causa? Por vezes se tem vontade de sacudir Florence, mandá-la longe, exatamente quando queremos negar uma ideia que nos persegue sem encontrar vazão". Cris Vazquez nasceu em Rosário do Sul (RS), mas vive há vinte anos em Florianópolis. Mestre em Literatura Brasileira pela UFSC e advogada pública, é fã de Guimarães Rosa, Dostoiévski e Salinger, e mais um talento para ficarmos de olho.

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