Coletânea reúne cinco peças inéditas do mestre italiano Pirandello Divulgação/Divulgação

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Luigi Pirandello (1867-1936), prêmio Nobel de Literatura de 1934, foi um dos mais importantes escritores italianos do século 20. Sua genialidade gerou romances e novelas, mas foi no teatro que ele levou às últimas consequências as tensões entre fato e ficção, marca fundamental de sua obra. Em comemoração aos 150 anos de nascimento do autor, a editora Carambaia lança Pirandello em cinco atos (187 páginas, R$ 65,90) uma reunião de peças curtas criadas a partir de histórias que ele anteriormente havia escrito sob o formato de novelas. A seleção dos textos e a tradução são de Maurício Santana Dias, professor de Literatura Italiana e Estudos da Tradução na Universidade de São Paulo (USP), que também assina o posfácio, no qual trata da gênese dessas peças e suas relações com outras obras de Pirandello. Parte delas foi encenada em palcos brasileiros, mas todas eram inéditas em livro no país. O projeto gráfico da edição é de Bárbara Abbês, que inspirou-se em elementos estéticos de publicações e cartazes do início do século 20 na Itália, período em que as cinco peças de Luigi Pirandello foram escritas ou encenadas. O volume é ilustrado com fotografias de objetos, usados como ícones que representam visualmente ideias e temas presentes em cada texto.

O lançamento oficial foi durante o evento Così è, se ci pare. Relendo Pirandello no Brasil, organizado pelo Istituto Italiano de Cultura de São Paulo, Ciclo Pirandello Internacional e Universidade de São Paulo. 

As peças

Dois dos dramas incluídos, O torniquete e Limões da Sicília, foram os primeiros textos teatrais do autor levados aos palcos, em 1910, quando Pirandello contava mais de 40 anos e uma obra-prima publicada, o romance O falecido Mattia Pascal (1904). Seu teatro já se caracterizava por diálogos cortantes e agudo senso de absurdo. O torniquete é uma exacerbação do melodrama burguês, ao tratar de um casamento em crise provocada por infidelidade. Limões da Sicília fala de um duro contraste na relação entre um agricultor e uma mulher que sai da pobreza para se tornar diva da música.

A patente (1917), comédia de contornos fantásticos sobre um homem com fama de agourento, propõe uma radical reversão de expectativas que tensiona os limites das convenções sociais. Escritos na época de apogeu de Pirandello como dramaturgo, O homem com a flor na boca e O outro filho (ambas de 1923) falam do acaso e de múltiplos pontos de vista, ingredientes essenciais do legado de um autor que tem entre seus pontos altos uma peça com título revelador, Assim é (se lhe parece) (1917).

Luigi Pirandello (1867-1936), prêmio Nobel de Literatura de 1934, foi um dos mais importantes escritores italianos do século XX
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Pirandello ocupa um lugar à parte na literatura italiana, tanto pela excepcionalidade de seu talento quanto por não ter se vinculado a movimentos literários. Consta que a primeira montagem de Seis personagens em busca de um autor, em Roma (1921), provocou reações aguerridas do público. Parte dos espectadores gritava “hospício!”, e o autor teve de sair em segredo por uma porta lateral. No entanto, poucas semanas depois, quando a peça estreou em Milão, foi recebida com aplausos entusiasmados. No ano seguinte, Enrico IV foi aclamada na estreia e posteriormente partiu numa turnê mundial que incluiu o Brasil, com a presença do autor.

Pirandello

Nascido em Agrigento, na Sicília (muitas de suas obras tiveram versões iniciais em dialeto siciliano),  viveu uma infância abastada. O pai era dono de minas de enxofre e a mãe pertencia a uma rica família da burguesia local. Seus primeiros estudos foram feitos em casa, e aos 12 anos escreveu sua primeira tragédia. 

Dividido entre interesses literários, que aprofundou em seus estudos em Roma, e os imperativos familiares, concordou em casar-se com Antonietta Portulano, escolhida por seu pai. O casamento foi relativamente feliz, gerando dois filhos, até que, em 1903, uma avalanche soterrou as minas da família. Antonietta teve uma crise nervosa da qual nunca se recuperou e foi internada num hospital psiquiátrico em 1919. 

A tragédia suscitou na vida de Pirandello profundos questionamentos pessoais e também a necessidade de sobreviver à custa do trabalho literário. Foi essa desestabilização, no entanto, que o levou a dedicar-se a sucessivas obras memoráveis nas quais as emoções humanas lutam por se inserir numa realidade opaca. Para muitos críticos, a obra de Pirandello prenunciou tendências da literatura da segunda metade do século 20, seja nos romances e dramas existencialistas de Jean Paul Sartre, seja no teatro de vanguarda de Samuel Beckett e Eugene Ionesco.


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