Manoel Carlos Karam, um dos grandes escritores catarinenses
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Louvado por escritores como Marcelino Freire, Nelson de Oliveira, Marçal Aquino, Ivana Arruda Leite e muitos outros, Manoel Carlos Karam tem uma casa de leitura e um prêmio com seu nome no Paraná, mas colhe poucos louros aqui em SC. 

Nasceu em Rio do Sul, no Alto Vale do Itajaí, em 1947, e faleceu em Curitiba, no dia 1o de dezembro de 2007, em decorrência de um câncer de pulmão. Dono de uma prosa indefinível, foi um dos escritores brasileiros mais inventivos. Seu pai, conhecido como Titio Karam, hoje nomeia um teatro ao ar livre, embaixo de uma das principais pontes da cidade de Rio do Sul, e também uma creche. Jornalista e agitador cultural, comandava um programa de auditório ao vivo na emissora de rádio AM líder de audiência na região. Emprestou ao filho o humor peculiar e a paixão pela comunicação: o nosso Karam deixa Santa Catarina aos 19 anos para estudar jornalismo em Curitiba, onde fica até a morte.

Hoje seus livros são facilmente encontrados, mas nem sempre foi assim. Karam chegou a ser o segredo mais bem guardado da literatura brasileira, até encontrar o primeiro grande divulgador de sua obra, o escritor Joca Reiners Terron, que inclusive editou alguns de seus livros. Em vida, publicou Sexta-feira da semana passada (1972), Fontes Murmurantes (1985), A Cidade sem Mar (1989), O Impostor no baile de máscaras (1992), Cebola (1996), Comendo bolacha maria no dia de são nunca (1999), Pescoço ladeado por parafusos (2001), Encrenca (2002) e Sujeito oculto (2004), e a maioria desses livros foi reeditada recentemente pela Kafka edições e pela Arte & Letra, duas das principais editoras independentes paranaenses. Mas também saíram os póstumos Jornal da Guerra Contra os Taedos (2008), Algum tempo depois (2014), Meia dúzia de criaturas gritando no palco (2014), Godot é uma Árvore (2016) e Um milhão de Velas Apagadas (2016).

Manoel Carlos Karam, um dos grandes escritores catarinenses. Capa do livro Comendo bolacha maria no dia de são nunca
Comendo bolacha maria no dia de são nunca foi publicado em 1999Foto: Capa / Reprodução

Considero a melhor entrada para o seu universo, para entender seu jogo, o livro Comendo bolacha maria no dia de São Nunca. São breves recortes que não cabem nos rótulos mais conhecidos, como conto, crônica ou mesmo o aforismo e a dramaturgia, divididos em nove partes completamente díspares. Esses estalos hoje encontram ecos em livros de autores como Lydia Davis e Gonçalo M. Tavares, pela incrível precisão e brevidade, mas com um humor cáustico, que beira a exasperação, grande marca do autor. É um livro para ler várias vezes, do início ao fim, ou de trás para frente, não importa. E lá ele avisa: “Eu invento, invento mas deixo que as invenções permaneçam comigo, os outros nem sempre diferenciam nitidamente invenção e mentira, ficam comigo as invenções porque não quero que as minhas invenções tenham sobre os outros o efeito de mentira, e desminto que tenha sido eu o inventor do advérbio vice-versa.”

Ler Karam é experimentar uma espécie de teatro interior, onde vozes convulsionadas se sobrepõem, se distanciam e se fundem. É estar numa miscelânea de referências; afinal, somos a soma das nossas referências. E Karam transformou suas referências em algo muito próprio, algo seu, só seu, que de tão seu passa a ser nosso também. Seus livros são difíceis de atrelar a um gênero específico. Para o escritor e crítico literário Nelson de Oliveira, “os personagens de Karam — os com cara e os sem cara bem definidas — são todos muito parecidos. Na verdade, são idênticos. A mesma voz, a mesma verve, a mesma visão amarga de mundo." Outro escritor, Valêncio Xavier, acertou na mosca quando avisou que Karam estava escrevendo o mesmo livro indefinidamente. “Não só todos os personagens formam uma entidade única, uma superconsciência, como o mesmo jogo-brincadeira (expressão de Valêncio) vai sendo disputado livro após livro, com pequenos intervalos de uma encadernação para outra.” Karam é uma fonte inesgotável e um convite à invenção. Eterno.

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