Novelas trágicas, livro de Marquês de Sade
Foto: Divulgação / Novelas trágicas,livro de Marques de Sade

A obra do Marquês de Sade (1740-1814) é geralmente associada a descrições de atos sexuais e torturas. Agora os leitores brasileiros poderão conhecer uma outra faceta do autor, com o lançamento de Novelas trágicas (Carambaia, 328 páginas, R$ 104,90, tradução e posfácio de André Luiz Barros), que reúne cinco novelas escritas entre 1787 e 1788 (enquanto estava preso na Bastilha) e inéditas no Brasil. O projeto de narrar histórias “contidas nas regras do pudor e da decência” foi provavelmente uma tentativa de convencer seus algozes e seus leitores de que não era o autor dos livros apimentados que circulavam clandestinamente e sem assinatura. E também de mostrar seu (inegável) valor literário.

O volume lançado pela Carambaia também inclui um ensaio que Sade escreveu sobre a história e as características do gênero romance. Nele, o marquês defende a tese de que os primeiros enredos romanescos, sob a forma de fábula, derivaram da religiosidade – surgiram com os deuses, a ideia da eternidade da alma e as demais “quimeras” humanas. Ou seja: tudo aquilo que o marquês escolheu como objeto de escárnio nos escritos mais célebres, a começar pelo amor e seus desenganos. A leitura das Novelas trágicas mostra que Sade cumpriu com dedicação os requisitos que elegeu como obrigações dramáticas do romance, sobretudo compor “personagens vigorosos que, joguetes e vítimas daquela efervescência do coração conhecida com o nome de amor, nos mostram dele, de uma só vez, os perigos e os infortúnios”. Na alma e na ação dos personagens, contudo, esconde-se o mesmo escritor subversivo e cruel das páginas libertinas.

O “divino marquês”, como o chamavam os surrealistas, recheou seus “contos de amor” de violência física e psicológica, incesto, cativeiro e assassinatos covardes, entre outras atrocidades. Também estão nessas histórias os pilares da filosofia sadiana: a racionalidade fria e precisa do crime, a execução metódica do desejo, as elucubrações vazias da religião, as ilusões patéticas que alimentam a ideia de virtude.

As argumentações filosóficas saem sempre da boca dos vilões e, como observa no posfácio o tradutor e professor de literatura André Luiz Barros, “o Mal é representado com cores tão intensas que o leitor é confrontado com sua presença e inevitabilidade”. O Sade libertino e o Sade das Novelas trágicas quase se encontram na história que fecha a coletânea, Eugénie de Franval, na qual um pai educa a filha para tornar-se sua amante e se dispõe a vários crimes na determinação de manter a relação incestuosa.

O projeto gráfico de Luciana Facchini conta com ilustrações de Zansky, e propõe um jogo que remete às atitudes dissimuladas dos personagens e também aos disfarces do próprio autor. O livro vem inserido numa luva que funciona como uma máscara: quando sobreposta aos desenhos, tanto das capas como internos, revela traços escondidos nas ilustrações.

Donatien Alphonse François de Sade passou quase metade de seus 74 anos de vida encarcerado sob acusação de promover orgias, praticar abusos sexuais e provocar danos físicos. Só assinou duas obras durante a vida – uma coletânea de novelas (de onde saíram as cinco desta edição) e o romance epistolar Aline e Valcour. O período de cinco anos que passou na Bastilha terminou em 1789, poucos dias antes de os revolucionários invadirem o presídio. Sade, que via na queda da monarquia a possibilidade de surgimento de uma época de liberdade irrestrita, se engajou na nova ordem, mas seria preso de novo durante o período do Terror. Mais tarde, também o regime de Napoleão o jogaria na cadeia. Durante o século XIX, a obra e a pessoa de Sade foram submetidas ao esquecimento forçado, embora manuscritos clandestinos circulassem por mãos célebres como as de Stendhal e Flaubert. Somente no século XX a literatura de Sade voltou à luz, atraindo o interesse de pensadores como Georges Bataille, Theodor Adorno e Simone de Beauvoir.

Em tempos conservadores e policialescos como o que vivemos, ler Sade (tanto o libertino como o pudico) é um possível raio de sol chamado liberdade.

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