Capa da nova edição Macunaíma, de Mário de Andrade.
Capa do nova edição do clássico livro "Macunaíma", de Mário de AndradeFoto: Divulgação / Divulgação

Acaba de chegar às livrarias brasileiras uma belíssima edição de Macunaíma, o herói sem nenhum caráter (Ubu, 272 páginas, R$ 66,90), com apresentação de Eduardo Sterzi, posfácio de Lúcia Sá e ilustrações de Luiz Zerbini. O clássico de Mário de Andrade mistura mitos, folclores e músicas populares de todo o Brasil, e continua vivo e atualíssimo.

Tudo começa em uma tribo isolada da selva amazônica. "No fundo do mato-virgem nasceu Macunaíma, herói da nossa gente. Era preto retinto e filho do medo da noite. Houve um momento em que o silêncio foi tão grande escutando o murmurejo do Uraricoera, que a índia tapanhumas pariu uma criança feia. Essa criança é que chamaram de Macunaíma." Diferente de seus irmãos Maanape e Jiguê, é mentiroso, sorrateiro preguiçoso e boca suja (embora tenha ficado seis anos sem falar). Na juventude, descobre o amor com índia Ci, a Mãe do Mato, que lhe deu um filho (que morre de forma prematura). Desiludida, Ci sobe aos céus e transforma-se em uma estrela. Mas antes deixa para Macunaíma o seu amuleto da sorte, a pedra muiraquitã, que é roubada por Venceslau Pietro Pietra, o gigante Piaimã. Macunaíma e seus irmãos resolvem recuperar a pedra e partem para São Paulo, em uma viagem que não é apenas geográfica, mas também por várias lendas.

Na apresentação, Eduardo Sterzi, poeta e professor da Unicamp, lembra que "a história de Macunaíma revela-se, ao fim, a história de um massacre (os genocídios indígena e africano, ambos ainda em curso, são sintetizados no episódio da tribo extinta), e é também, antes e depois do fim, a história de um desejo de sobrevivência e libertação, de quem, diante da morte e do "silêncio imenso" que ela deixa, tem força de dizer que não veio ao mundo "para ser pedra" – e que, assim, se faz canto e constelação." Publicado em 1928, Macunaíma representou por muito tempo o símbolo do "povo brasileiro" ou ainda daquilo que chamamos de "nação". Mas para Sterzi a questão é outra: "Não por acaso, Oswald de Andrade reconheceu em Macunaíma, apesar de Mário jamais ter aderido àquele movimento, a grande realização literária da antropofagia, isto é, da tentativa, por ele teorizada, de repensar a história do Ocidente (e do Cosmos) a partir da margem imprevista, extremo-ocidental mas também pós-ocidental, proporcionada pela "descoberta" (na verdade, invasão) da América pela Europa e pela irrupção desconcertante dos nativos do Novo Mundo na imaginação universal."

Esta edição, que conta com o estabelecimento do texto de Telê Ancona Lopez e Tatiana Longo Figueiredo, oferece uma nova chave de leitura ao romance, com foco especial para as fontes indígenas utilizadas por Mário de Andrade em sua composição. As ilustrações do artista carioca Luiz Zerbini são feitas com um procedimento similar ao de Mário com as fontes indígenas em seu texto. As monotipias não são "representações" da vegetação tropical: são as próprias plantas e objetos entintados que são colocados na prensa, imprimindo e dando relevo com sua textura ao papel. A edição também recupera os prefácios inéditos de Mario de Andrade, bem como o glossário de Diléa Zanotto Manfio, feito para a edição crítica de 1988, há muito fora de circulação. Nele, o leitor tem acesso ao significado de todas as palavras indígenas e regionais utilizadas ao longo do romance.  Como disse o próprio autor: "copiei, copiei às vezes textualmente[...], não só os etnógrafos e os textos ameríndios, mais ainda, na "Carta pras Icamiabas", pus frases inteiras de Rui Barbosa, de Mário Barreto, dos cronistas portugueses coloniais". No texto de Lúcia Sá, se explicita a cópia de trechos inteiros do mito de Makunaíma, tal qual recolhido pelo viajante alemão Theodor Koch-Grünberg. Eis um livro essencial para olhar para as estrelas, mas sobretudo para nossa terra. 

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