Reverência ancestral:"Ainikè", novo espetáculo do coletivo Abayomi, estreia terça-feira em Florianópolis Vanessa Sandre/Divulgação

Foto: Vanessa Sandre / Divulgação

A palavra Ainikè significa ao mesmo tempo "oi" e "obrigado" na língua malinke. É uma expressão utilizada todos os dias ao nascer do sol na aldeia de Sangbarala, no noroeste do país africano Guiné. Ainikè também é o nome escolhido pelo grupo Abayomi para batizar o espetáculo que estreia hoje no Teatro Álvaro de Carvalho, em Florianópolis.

Oito membros do Abayomi, coletivo de pesquisa em danças e músicas de matrizes africanas dentro da UFSC, ficaram 30 dias em Guiné em 2016 para uma vivência cultural no país. Eles passaram pela capital Conacri e por aldeias na beira do rio Níger e essas experiências inspiraram a montagem.

— O que mais me chamou a atenção foi a forma como se movem esses corpos, desde o nascer do sol até o fim do dia. Como se organiza a dinâmica social entre esse povo, que vive hoje em estado lamentável de miséria mas que tem muita força, muito vigor e muita alegria permeados pela dança e pela música — conta Simone Fortes, dançarina e uma das idealizadoras do grupo.

Em Ainikè, ela propôs uma relação e criou poéticas de encontros entre o rio Níger, visitado pelo grupo, e a divindade Oxum, orixá das águas doces de rios e cachoeiras bastante cultuada no Brasil. É um espetáculo mais livre, que vai além das danças tradicionais de matriz africana, mas que traz os tambores importantes para essa cultura, como dunum e djembê, além de balafon, clarineta e outros instrumentos percussivos.

— Hoje, as pessoas já vêem a dança afro como um potencial enquanto dança, e não só enquanto folclore ou dança étnica. Ela vem ganhando mais espaço — acredita a dançarina.

Práticas e corporeidades alvos de preconceito

O grupo nasceu em Florianópolis após o encontro de Simone com o músico Erik Dijkstra. Há quase duas décadas, ambos vêm desenvolvendo e se envolvendo com essas práticas e corporeidades. O grupo, que se reúne semanalmente no Centro de Convivência da UFSC, preza pela vivacidade e soltura dos corpos e reverência à cultura africana ou afrodescendente. Porém, infelizmente, ainda sofre com rotineiras visitas da Polícia Militar e com preconceitos que vêm desde o tempo em que manifestações culturais e musicais de negros e ex-escravos eram consideradas criminosas.

 FLORIANÓPOLIS, SC, BRASIL, 31-10-2017: Coletivo Abayomi de dança afro.
Foto: Leo Munhoz / Diário Catarinense

— Perdemos o espaço que usávamos na Lagoa da Conceição por causa do som dos tambores. E depois foi difícil encontrar um lugar, pois há resistência a esse tipo de prática, por todo o contexto histórico que a gente sabe. Acredito que é um trabalho que vem sendo construindo aos poucos, mas a gente ainda passa por constrangimentos em relação à não aceitação dos nossos tambores em locais públicos. Mas não vamos desistir — comenta Simone.

Na terça-feira de Carnaval deste ano, em Florianópolis, um tambor foi apreendido pela polícia na Lagoa da Conceição durante o tradicional samba de roda na praça. O crime: perturbação do sossego. Vale lembrar que de acordo com a Lei Complementar nº 003/99, que dispõe sobre ruídos urbanos e proteção do bem estar e do sossego público, conhecida como a Lei do Silêncio, são excepcionalmente toleradas as manifestações tradicionais nos dias de Carnaval e Ano Novo. O instrumento pertencia ao cientista social e educador André Farias e, depois, de apreendido, ficou "preso" por mais de um mês e só foi liberado depois de uma decisão judicial.

AGENDE-SE
Abayomi apresenta Ainikè
Quando: terça-feira, às 20h
Onde: Teatro Álvaro de Carvalho (Rua Marechal Guilherme, 26, Centro, Florianópolis)
Quanto: R$ 20 / R$ 10 (meia). À venda nas bilheterias do TAC, CIC e Pedro Ivo e com os integrantes do grupo

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