Raging War: explorando os primórdios da escola thrash Raging War / divulgação/divulgação

Foto: Raging War / divulgação / divulgação

O que garante a longevidade do heavy metal é sua capacidade de adaptação e experimentação, o que deu à luz inúmeros subgêneros ao longo dos últimos 50 anos. E, dentre estes, o thrash metal figura entre os mais apaixonantes e resistentes desde que apareceu em meados dos anos 1980.

Santa Catarina, como não poderia deixar de ser, também é o berço de vários nomes do estilo. Foi a partir dos destroços do Monster Truck, cujo único membro remanescente, o veterano guitarrista (e agora baixista) Ricardo, optou em não apenas recrutar novos músicos, mas também rebatizar a banda como Raging War em 2016. E o pessoal não perdeu tempo, tendo lançado no ano seguinte o Live EP - Brusque 2017, com quatro canções captadas na 13ª edição do festival Rock na Praça.

O EP foi um aperitivo que veio em boa hora, mas é com o primeiro álbum completo que o Raging War demarca seu espaço no underground thrash do Estado. Ainda que, compreensivelmente, o repertório resgate as canções do Monster Truck, é inegável a força dos cerca de 40 minutos de audição. 

O Raging War tem como proposta um bem dosado amálgama dos primórdios da escola norte-americana e alemã. Além da brutalidade inerente ao gênero, temos aqui uma importante diversidade, velocidade, cadência, mudanças de ritmos bem sacadas e sutis flertes com a música extrema – e pode somar aí um vocalista que conquista o respeito pela expressividade com que canta e grita. 

Ponto positivo pela preocupação em não soar datado. O áudio resultante do trabalho de Douglas Fisher, do Tobias Estúdio de Brusque, proporcionou um som que unificou as características da banda com a rispidez de um bloco de concreto. A faixa de abertura, Strength For Better Days, é praticamente uma síntese da proposta da banda, e merece destaque também The Meaning e a mais melódica Entrails Of A Corrupted Mind.

Um trabalho que mostra a força de vontade em seguir em frente, onde cada músico desempenhou um papel significativo para determinar o resultado final. Se conseguir romper o estado de indiferença que ronda o público em relação aos novos grupos, o Raging War tem grandes chances de cair nas graças dos admiradores de pesadelos sonoros como Slayer, Kreator, o antigo Sepultura e afins. lml

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Entrevista: O fundador Ricardo também quer falar:

Ricardo Lima, veterano no cenário underground da região de Floriaópolis Foto: Raging War / divulgação

DC: O que levou o Raging War a aproveitar tantas canções que seriam do Monster Truck?
A Monster Truck foi fundada por mim em 2005, mas a partir de 2015 fui surpreendido pela saída dos integrantes da banda. Enquanto ajustávamos a formação e iniciávamos as gravações do primeiro CD no final do ano seguinte, resolvemos mudar o nome para Raging War, pois sabíamos da existência de outro Monster Truck no Canadá, além de mostrar a nova cara da banda reformulada. Das nove músicas do CD, oito foram compostas por mim e a última é de uma antiga banda que toquei entre 1997 e 2003, chamada Morbus. O repertório foi composto entre 2001 e 2015, não mudamos as estruturas das músicas, mas com certeza cada novo integrante aprimorou e colocou sua cara nos arranjos. Roberto é um grande baterista, mudou algumas viradas e trabalhou com pedal duplo. Wellington (guitarra) colocou alguns arranjos novos como no início da The Meaning, e outro na Black Forest, além de reformular todos os solos. O vocal Rudi não mudou as letras, mas interpretou muito bem à sua maneira, misturando rasgado com gutural e mudando a ênfase em algumas palavras.

A nova formação está consolidada desde 2016. Ainda que vocês se dividam entre Florianópolis e Brusque, deu para sentir as possibilidades musicais durante os ensaios, algo que se distinga do repertório do primeiro disco?
Com certeza, todos temos muito a contribuir para as novas composições. Rudi, por exemplo, também toca guitarra e tem bons riffs compostos, assim como eu e Wellington. Meses atrás iniciamos a composição de uma música nova, que, devido às gravações do CD, está incompleta, mas já deu pra sentir a evolução do que está por vir. Em breve iremos nos reunir em um sítio perto de Brusque, levar nossos instrumentos, muita cerveja e muita carne para iniciar as novas composições. As novas músicas terão a participação de todos, o que eu acho muito bom, pois na Monster Truck somente eu compunha, às vezes com o auxílio do baterista.

Como vocês entendem a cena cultural de Santa Catarina? O que há de melhor e pior?
É uma cena forte. Falarei da parte voltada ao metal, com festivais como Otacílio Rock Fest, Maniacs Metal Meeting, River Rock, Iceberg Rock Fest, Agosto Negro, Um Dia Livre, Paredão, Santana's Sunday, Frain' Hell, cuja maioria está conseguindo prosperar. Temos um público razoável a bom, mas poderia ser maior. Temos muitas bandas boas em todos os estilos e que não devem nada as bandas estrangeiras. Creio que o melhor seja isso. O que há de pior é a falta de apoio, seja por parte dos órgãos/empresas públicos ou privados. As próprias bandas poderiam ser mais unidas e prosperar juntas. E vejo uma luz no fim do túnel, como o Ivan (Silent Empire) de Criciúma criando o projeto United Forces Fest, onde as bandas se ajudam e fazem intercâmbios de shows. Iniciativas assim vão fazer a nossa cena metálica crescer cada vez mais.

Formação:
Rudi Vetter: voz
Wellington Oliveira: guitarra
Ricardo Lima: baixo e voz
Roberto Barth: bateria

Foto: Raging War / divulgação

Raging War: Raging War
2018 / independente
01. Intro: Prelude To War
02. Strength For Better Days
03. Third World
04. Enforced System
05. The Meaning
06. Hell On Earth
07. Black Forest
08. Corroding Chemistry
09. Entrails Of A Corrupted Mind
10. Bastard Dogs

*Ben Ami Scopinho está há mais tempo em Floripa do que passou em sua terra  natal, São Paulo. Ilustrador e designer no DC, tem como hobby colecionar vinis e  CDs de hard rock e heavy metal. E vez ou outra também escreve sobre o  assunto. 







 
 




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