"Elis foi o grande amor da minha vida", diz Milton Nascimento Nathalia Pacheco/Divulgação

Milton Nascimento

Foto: Nathalia Pacheco / Divulgação

De sua casa, em Juiz de Fora (MG), às vésperas de uma viagem para São Paulo, onde participará do Festival Coala, Milton Nascimento respondeu as perguntas enviadas por e-mail pela reportagem do Diário Catarinense. Tímido, mas com muita história para contar, Bituca - como é conhecido desde criança - foi objetivo, porém não menos expressivo. Declarou seu amor por Elis Regina, a primeira cantora famosa a gravar suas composições e com quem solidificou uma relação de amizade desde a década de 1960.

Milton é carioca de uma comunidade na Tijuca. A mãe, Maria do Carmo do Nascimento, era empregada doméstica e morreu de tuberculose ainda muito jovem, enquanto Bituca tinha dois anos. Ele foi adotado e viveu rodeado de amor por Lília e Zino. Foi o casal que o defendeu em situações de racismo. 

Recentemente, Milton adotou Augusto, seu único filho. No evento no Memorial da América Latina, ele faz show domingo e comemora a apresentação que terá a participação especial de Criolo. 

Você tocava piano desde os dois anos de idade, em algum momento pensou em ter alguma outra profissão que não fosse cantor?

Sempre tive uma paixão por astronomia, e já cheguei a pensar seriamente em ser astrônomo. Mas acabei indo para Belo Horizonte (MG) e me tornei datilógrafo no escritório de Furnas, em 1962. Ao mesmo tempo, eu também quase fiz faculdade de Economia. Só que veio a música e acabou tomando conta de tudo.

Quais percalços enfrentou até consolidar a carreira?

Muita coisa, né? Passei por tudo que um músico iniciante enfrenta até hoje, falta de lugar pra tocar, falta de pagamento, muito músico e pouca vaga. Falta de tudo mesmo.

Sua mãe estudou com Heitor Villa Lobos, que influência tem dele na sua música?

Villa Lobos tem uma obra fantástica e eu já gravei muitas coisas dele. Em 1980, por exemplo, gravei uma música chamada Caicó, no álbum Sentinela, que é de autoria do Villa Lobos com letra da Teca Callazans. E no disco Txai, gravei uma dele chamada Nozanina, inspirada na experiência do Villa com os povos indígenas. Enfim, Villa Lobos é o Brasil.

Sofreu algum tipo de preconceito por ser negro?

Quando mais jovem aconteceram algumas coisas em Três Pontas, onde fui criado. E essas histórias já até saíram em livros, assim como eu também já dei algumas entrevistas falando disso. Mas quando isso acontecia eu sempre tive a sorte de ter meus pais por perto, dona Lília e Seu Zino.

Você sempre fazia uma música pensando na voz de Elis Regina?

Elis Regina foi o grande amor da minha vida.

Que interferência Elis teve na sua carreira? Fale um pouco mais da sua relação de amizade com ela.

Ela foi a primeira cantora famosa a gravar uma música minha, Canção do Sal, em 1966. Mas eu já era fã da Elis desde o primeiro disco que eu ouvi. E ter convivido com ela foi uma das maiores alegrias da minha vida.

Maria Maria fala na força da mulher. Como você enxerga a mulher hoje, diante dos movimentos de feminismo que ganham voz principalmente com as redes sociais?

Cada um deve fazer aquilo que se sentir melhor, eu acho que todos têm o direito de fazer as coisas que lhe fazem bem, é isso...

O que o Clube da Esquina representou na sua carreira? Você acha que hoje é possível surgir algum movimento similar?

Cada geração tem sua própria história, e isso acontece naturalmente.

O que representa a música pra você hoje? O que você escuta em casa? Ainda ouve discos físicos?

Ouço desde disco físico, LP, tudo quanto é tipo de música. O lance é ouvir música, sem isso não dá...

Uma de suas músicas se tornou o hino das Diretas Já, um momento em que o país era tomado pela esperança. Você vê semelhanças entre o cenário da política nacional daquela época e hoje?

Tá tudo muito esquisito, viu...

Você tem esperança por um país melhor?

Claro, sempre!

Como você vê o domínio do sertanejo e do funk nas paradas nacionais? Houve um empobrecimento estético na música nacional ou isso é reflexo da época?

Como eu disse lá atrás, acho que cada pessoa deve fazer aquilo que lhe faz se sentir melhor.

Você já gravou mais de 30 álbuns, o que vem mais por ai?

Na verdade acho que são quase 40... A gente tem feito umas coisas, logo mais vem novidade por aí.

 Colaborou Emerson Gasperin 

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