"Eu nunca me escondi de nada", afirma Ney Matogrosso Jefferson Botega/Agencia RBS

Foto: Jefferson Botega / Agencia RBS

Se encerrasse a carreira em 1974, quando deixou o Secos & Molhados, Ney Matogrosso já teria lugar cativo entre os grandes da música brasileira. Em pleno governo linha-dura do general Garrastazu Médici, a banda de visual andrógino, apresentações ousadas e letras que confundiam os censores chegou ao topo das paradas, superando até o rei Roberto Carlos em vendas de discos. Mas Ney seguiu em carreira solo – e se tornou ainda maior.  

O artista desembarca em Florianópolis no dia 9 de fevereiro do próximo ano pela turnê Bloco na Rua. Segundo ele, é "um show basicamente de MPB", formado por canções que pretende depois registrar em estúdio, como Eu Quero É Botar meu Bloco na Rua (Sérgio Sampaio, 1972), A Maçã (Raul Seixas, 1975) e O que Será (Chico Buarque, 1976). A idade nunca foi problema para percorrer o país desafiando o tempo e os padrões:

– Eu gosto é de cantar para plateias. Lançar disco, para mim, é meramente um pretexto para isso – diz, por telefone, do apartamento onde mora no Leblon, no Rio de Janeiro. 

É com essa disposição de um garoto de 77 anos que faz ginástica, toma banho de cachoeira no sítio no interior fluminense e come pouco – "gosto de me levantar da mesa sem sentir que comi", receita – que Ney falou com a segurança de quem não tem tabus. Confira a entrevista a seguir.

O senhor lembra da primeira vez que esteve aqui?
Desde que estreei solo [com o disco Água do Céu – Pássaro, em 1975], passei por Florianópolis com todos os meus shows. Estive uma vez aí logo depois de Gilberto Gil ser preso [em 1976, no quarto de um hotel na avenida Hercílio Luz, por portar um cigarro de maconha]. Sempre que eu começava a cantar América do Sul, a luz do ginásio apagava. Eu esperava a luz voltar e recomeçava. Apagou umas quatro vezes. Era gente propositalmente fazendo isso para eu não cantar aquela música. E na hora que nós entramos no palco os camarins foram invadidos pela polícia. Eles tinham ficado mal acostumados, pensavam que iam encontrar maconha em todos os camarins. Não tinha nada, claro!

Tem algum programa preferido na cidade, algo que sempre procura fazer quando vem por aqui?
Não, nunca dá tempo porque sempre vou a trabalho. Mas já estive aí e fiquei na casa de um jornalista local, acho que era em Ingleses. Foi nos anos 1980. Não tinha nada, a praia era praticamente deserta. Ele e a esposa saíram para trabalhar e me deixaram lá sozinho. De repente, percebi um movimento de jornalistas se aproximando. Dava para ouvir eles conversando: "Ele está aqui". Me escondi dentro do box do banheiro para não me acharem [risos].

O que achou da sua biografia, Vira-Lata de Raça, lançada no mês passado?
Tive que ler cinco vezes, porque todas as revisões passavam por mim. Descobri muitos assuntos que eu achava importantes e tinham sido abordados muito por cima, coisas que renderiam mais. Mas, como toda biografia, acho que a vida não está ali. A vida de ninguém cabe num livro. Tem muita coisa que a gente não se lembra. Só depois de ver o livro pronto comecei a lembrar de muitas histórias que, durante a feitura, não me ocorreram. É um livro baseado em entrevistas que dei, por isso é de memórias. Mas está sendo feita uma biografia minha [pelo jornalista Julio Maria, mesmo autor de Nada Será Como Antes, biografia de Elis Regina] que, essa sim, fala com gente que eu nem imagino. Ele conseguiu falar com o meu irmão, com quem há anos nem eu consigo falar. 

Por quê?
Meu irmão não atende meus telefonemas, vive em outra, anda de bicicleta o tempo todo pela cidade inteira. Ligo no aniversário, no Natal, e ele simplesmente não atende porque ele não quer falar, não está a fim de conversar. Não houve nenhum rompimento formal comigo, nem minha mãe consegue falar com ele. É o mais velho, tem 80 anos.

O Brasil hoje está mesmo mais careta do que nos anos 1970, como o senhor diz no livro?
Nos anos 1970, por incrível que pareça, com ditadura e tudo, as pessoas eram mais livres. A mentalidade mudou muito. Não existia essa coisa de politicamente correto, nada disso. Era tudo mais leve, mais inocente, se podia brincar. Hoje não se pode brincar com determinados assuntos porque vira uma guerra. Mesmo em termos de sexualidade, era tudo mais liberado, sabe? Tudo era permitido.

Não havia repressão por parte da ditadura?
A perseguição era [frisando a palavra] política. Eu já morava aqui no Leblon, estou falando de um lugar específico. Quando você ia à praia, encontrava todo mundo do meio artístico. Era o escritório da maioria de nós. Me lembro de sair de casa às 10h da manhã, engolir uma gema de ovo, tomar um copo de leite e voltar às 7h da noite. Hoje isso é impossível, porque tudo mudou. Eu ia a pé até o posto 9, em Ipanema, e não tinha problema nenhum. Saía de sunguinha, andando não sei quantos postos pela areia, e ninguém me amolava. Não tinha paparazzi, você podia estar tranquilamente fazendo qualquer coisa.

Atualmente qualquer gesto tem que ter algum significado, defender alguma causa?
Pois é, é isso aí. Por exemplo, no tempo em que eu estava com o Cazuza, a gente andava pela rua de mãos dadas, entrava nos bares de mãos dadas e aquilo não significava nada. Todo mundo sabia que a gente era namorado e nada era um problema. Tenho pena de quem não conseguiu viver dessa maneira. Era muito mais fácil e agradável.

Aproveitando que o senhor falou de Cazuza, o livro aborda bastante a relação de vocês dois, certo?
Porque me perguntam muito sobre isso! Cazuza foi a única pessoa que souberam que eu tive um relacionamento. As outras, não sabem e [enfatiza] não saberão. É que o Cazuza "escapou": quando fui no cemitério para o enterro dele, uma emissora de televisão perguntou alguma coisa para mim e eu entreguei nossa história. Mas o louco é que também a gente não escondia. Ninguém comentava, ninguém fotografava.

 O quão importante ele foi para o senhor?
Ele foi um dos grandes amores da minha vida. As pessoas têm uma visão meio deturpada a respeito do Cazuza. Acham que ele era só louco, drogado, agressivo. Isso ele era quando bebia. Mas na intimidade, sem nada disso, Nossa Senhora, ninguém resistiria! Era a pessoa mais carinhosa, mais mansa, mais amorosa do mundo. Então, caiu na minha mão, eu não estava morto nem nada, imagine se eu iria dizer não para aquela gracinha?

Ney com a disposição de um garoto de 77 anos que faz ginástica e come poucoFoto: DARYAN DORNELLES / Divulgação

Como aconteceu?
A gente se conhecia da praia. Mas eu ficava na minha, nem sabia que ele era filho do João Araújo [produtor musical e executivo de gravadora, morto aos 78 anos, em 2013]. Aí um dia uma amiga foi na minha casa, eu morava em um apartamento de três andares e meu quarto era no último. Ficamos lá em cima enlouquecendo, eu e ela. Teve uma hora que ela disse: "O Cazuza está aqui." "Aqui aonde?", perguntei. E ela: "Na sala, não sabia se podia trazer ele para o teu quarto." "Uai, traz ele para cá", falei. Ali que começou a história da gente. Eu prestei atenção, ele prestou atenção, e houve um momento em que nós... [não completa a frase], né?

O que o senhor acha que o atraiu?
Eu tinha 39 anos e ele, 17. Depois, quando a gente já estava namorando, ele me chamava de "paizinho". Dizia assim: "Você tem idade para ser meu pai e é tão louco quanto eu." E eu: "Então está tudo certo, tudo ótimo, porque eu não sou seu pai [risos]. Portanto, nosso negócio é outro." 

Quando o senhor descobriu que sentia desejo por outros homens?
Ah, isso foi uma coisa que na infância eu já percebia uma "tensão". Não foi ninguém que me estimulou, foi uma coisa minha, que eu descobri em mim. Demorei muito para admitir – estamos falando dos anos 1950 –, tinha muito medo. Eu não queria virar uma caricatura porque na cidade onde eu morava [Bela Vista, então no Mato Grosso e, desde 1979, com a divisão do Estado, no Mato Grosso do Sul] tinha um gay que, quando passava na rua, as pessoas só faltavam jogar pedra nele. Eu tinha horror daquilo, Deus me livre de uma coisa dessas!

O senhor chegou a se rebelar contra essa "tensão"?
Não, mas minha primeira vez foi com uma mulher, aos 13 anos. Não tinha nenhum problema "mecânico". [Impaciente] Eu já tinha transado com várias mulheres quando transei com um homem. E, mesmo depois de começar a transar com homens, continuei transando com mulheres. O grande estranhamento do meu pai foi esse. Ele veio uma vez na minha casa, viu que tinha uma movimentação de mulheres e falou: "Isso está errado, você tem que se definir!" "Eu não, pai! Porque eu tenho que me definir? Estou aqui para viver a vida, tudo o que ela me mandar de bom eu vou curtir!", respondi. Qual é o problema, né?

O livro fala também de uma paixão platônica por um colega de quartel, como foi?
É impossível você botar 40 adolescentes com 17 anos num alojamento, jorrando hormônios pelas orelhas, e tentar impedir alguma coisa. Não estou falando só de quartel, não – pode ser em qualquer lugar, seja homens ou mulheres. Não tem como! Mas eu resisti. A gente conversava, nós admitíamos que éramos apaixonados um pelo outro, mas nunca fizemos nada. Eu tinha medo, ele também.

Houve algum momento, algum marco na sua carreira em que o senhor pensou: "Aconteceu, não tem mais volta"?
Tive isso com o Secos & Molhados, foi ali que decidi que seria eternamente aquilo. Até então, eu queria ser ator, fazer teatro. Quando virei vocalista do Secos & Molhados, entendi que era um cantor, que era aquilo que eu queria ser. 

Vocês tinham noção do quanto eram transgressores?
Eu sabia de mim. Sabia que não me interessava a política partidária, não me interessava pegar em armas. Eu transgredia conscientemente, mas sem jamais abrir minha boca para falar "abaixo a ditadura". Eu ignorava que a ditadura existia, vivia solto no mundo.

Como vocês eram vistos na época?
Éramos chamados de "desbundados" porque tomávamos drogas, transávamos com quem queríamos e fazíamos tudo o que tínhamos vontade. Eu tive a ilusão de achar que a esquerda me perceberia dentro do contexto, mas ela foi tão agressiva comigo quanto a direita. Eu tinha a noção exata de no quê e com quem eu estava mexendo. Eu sabia em que país vivia, sabia o que era o meu país. Quando eu via alguém chocado num show do Secos & Molhados, pensava: "Ah, está chocado? Então se prepare, porque agora é que você vai se chocar."

Vocês não estranhavam a aclamação popular que recebiam, inclusive de crianças?
As crianças foram o nosso salvo-conduto, porque elas gostavam muito da banda. Na cabeça delas, não havia transgressão ou sexualidade. Elas nos viam como se fôssemos um desenho animado, uma coisa lúdica.

O que os militares achavam do Secos & Molhados?
Acho que eles estavam muito preocupados com a questão política, não esperavam que surgisse gente maluca daquele jeito. Eu me apresentava seminu! Mas também tem o seguinte: nunca me escondi. Imagine, eu tinha 31 anos e vivia à margem da sociedade por opção. Saí da margem, caí no centro e tive que me manifestar. A primeira vez que um repórter se aproximou de mim, pensei: "O que vou dizer?" Aí me veio uma luz na cabeça: "Fale a verdade." Porque se você falar a verdade, ninguém vai ficar atrás de coisas para descobrir a seu respeito.

Seria possível surgir algo como Secos & Molhados no Brasil de hoje?
Acho que não. Nós fomos muito atrevidos, corríamos risco mesmo. Tanto que tinha gente da polícia atrás de mim o tempo inteiro. Eu morava num sobrado em São Paulo naquela época e, quando olhava pela janela, tinha um fusquinha cheio de homens estacionado na frente. Houve uma vez em que uma pessoa dessas foi no teatro 13 de Maio, onde estava tendo uma temporada com o Secos & Molhados, e ficou na porta me esperando. "Olha, recebi ordens de te levar em casa porque você vai sofrer um atentado", ele disse para mim. Fiquei com mais medo dele do que do tal atentado: "Não, muito obrigado, o senhor não precisa me levar." E não aconteceu atentado nenhum.

Depois da transgressão, o ciclo atual é de regressão?
Acho que sim. Em termos políticos, com o [Michel] Temer foi explícito, andamos para trás. A gente está vendo isso no mundo todo, infelizmente. Mas é assim mesmo, a evolução não é contínua para frente. Ela dá um passo para trás, outro adiante.

O que espera do próximo presidente?
Olha, ele foi eleito democraticamente e eu espero que realmente faça alguma coisa boa pelo Brasil, porque a gente está num fundo de poço horroroso. Espero que ele realmente entenda o papel dele, entenda para o quê foi eleito. Se não, daqui a pouquinho nós não teremos mais jeito. A gente já terá descido tão baixo que não terá mais volta, aí vai virar o quê? É muito triste não ter uma perspectiva de sair disso.

Especificamente sobre minorias, o presidente eleito preocupa o senhor?
Me preocupou lá atrás, mas ele já está mudando o discurso. As pessoas, quando querem se eleger, falam qualquer coisa. Depois de eleitas é que elas vão ver o que é possível de ser feito. Então eu acho que ele estará perdendo o tempo dele se, com tanta coisa para resolver, focar em minorias. Cada um vive a sua vida, cada um curte a sua. Ninguém é igual a ninguém e nem precisa ser. Mas falo para você: eu lutei por direitos e esses direitos foram conquistados, não foram dados, então não abro mão deles.

O senhor é cobrado para se posicionar politicamente em prol dos direitos dos gays?
Teve um cantor aí que me questionou nesse sentido [Johnny Hooker, que em 2017 criticou Ney Matogrosso por ele ter dito em uma entrevista que não se considerava representante de minorias]. Tenho plena consciência de que quem precipitou essa abertura fui eu. Isso é motivo de orgulho para mim, ter passado – como ser humano – pela Terra e ter contribuído. Acho que não tenho que ficar falando, tenho é que viver a minha vida. 

Ainda há alguma coisa que o senhor gostaria de fazer artisticamente?
Sempre terá.Por exemplo, na minha lista de coisas a cumprir há um trabalho com o repertório do Caetano [Veloso], que foi para mim foi o grande estímulo. Eu era funcionário público em Brasília na década de 1960 e, um dia, saindo de uma sorveteria, vi Caetano na porta do hotel. Ele todo de cor de rosa, do pescoço aos pés. Imagine, estou falando de uma época em que homem não usava rosa nem escondido numa dobrinha da meia! Aquilo foi um impacto para mim, deu uma balançada na minha mente. Pensei: "Se eu fosse artista, queria ser algo assim." Eu queria provocar nas pessoas o que ele me provocou. 

O senhor se arrepende de algo que fez ou deixou de fazer?
Não, nenhum. Não tenho saudade de nada. Tudo o que era para ser vivido, eu vivi. Guardo as boas recordações, mas não sou apegado ao passado. Sou livre, em trânsito, indo – não sei para onde.

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