Decisão entre Chapecoense e JEC relembra foguetório de 1996 Darci Debona/Agência RBS

Foto: Darci Debona / Agência RBS

Vinte anos depois, Chapecoense e Joinville voltam a decidir um título catarinense em Chapecó, no próximo domingo. Mas o confronto de 1996 traz lembranças não só pela decisão dentro de campo. Também é lembrado pelo ano do ¿Foguetório¿.

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Na véspera da final, marcada para o dia 13 de julho, o Joinville ficou hospedado no melhor hotel do Oeste na época, o Bertaso, que ficava bem no centro da cidade. Só que durante a noite, um grupo de torcedores da Chapecoense ficou soltando fogos perto do hotel.

A polícia foi chamada, dava uma volta próximo do local e, quando ia embora, os fogos retornavam.

No dia 14 de julho, o jornal A Notícia publicou matéria informando que as baterias de foguetes estouravam de 10 em 10 minutos. Uma funcionária do hotel chegou a ficar ferida por estilhaço de um vidro que estourou.

– Todo mundo foi para o corredor do hotel, tinha muita gente. Ficamos todos esperando aquilo passar. A maioria dos atletas não dormiu – lembra Marcos Paulo, à época atacante do Joinville.

Na manhã seguinte, o então presidente do JEC, Vilson Florêncio, decidiu deixar Chapecó e não ir a campo, pelas condições emocionais do time e por temer pela segurança física dos seus atletas. O árbitro Dalmo Bozzano, então, declarou a Chapecoense vencedora por W.O.

– O time do Joinville não apareceu e nós comemoramos o título, teve festa no estádio e buzinaço na avenida – lembra o roupeiro Jorge Andrade, que continua no clube até hoje.

Clubes não creem em repetição de episódio

O Joinville recorreu da decisão do árbitro e pediu um novo jogo, em campo neutro. Depois de batalhas judiciais, uma nova decisão foi marcada para o dia 18 de dezembro. No entanto, o duelo ocorreu no Oeste do Estado.

– Os times estavam desfigurados – lembra o meia da Chapecoense na época e atual superintendente de Futebol do JEC, João Carlos Maringá.

A Chape havia perdido o primeiro jogo por 2 a 0 e precisava vencer para levar a decisão para a prorrogação. Fez 1 a 0 no tempo normal, com Marquito, e chegou aos 2 a 0 na prorrogação, com Gilmar Fontana, e ficou com a taça.

Uma faixa na Arena Condá lembra do episódio com os números 1996 em vermelho e preto, lembrando as cores do Joinville, e escrito ¿O Foguetório¿.

O representante comercial Andrei Rodrigues, 24 anos, é um dos guardiões da faixa, que foi confeccionada há cerca de 10 anos pela extinta torcida Loucos Pela Chape.

– A gente guarda ela com carinho, pois é um fato que marcou a história da Chape – disse.

Mas o torcedor não considera que a torcida hoje faria algo similar. Tanto dirigentes da Chapecoense e do Joinville acreditam que a situação hoje é distinta.

– O futebol está diferente, então, uma possibilidade de ocorrer um episódio como aquele não nos preocupa – declarou o presidente do JEC, Jony Stassun, confirmando que o time vai ficar em Chapecó.

O vice-presidente da Chapecoense, Mauro Stumpf, também considera que há 20 anos eram outros tempos e que hoje isso não cabe mais no mundo do futebol.

– A gente foi muito bem recebido em Joinville na primeira partida e tenho certeza que o mesmo vai acontecer com a torcida visitante aqui – afirmou Stumpf.

Vinte anos depois, a decisão deve ficar mesmo restrita ao que acontecer dentro de campo.

Entrevista com Mauro Wilhems, participante do Foguetório de 1996

¿Ficamos até as 5h soltando fogos¿


Mauro Wilhelms
Foto: Alan Pedro, Agência RBS

O servidor público Mauro Wilhelms é um apaixonado pela Chapecoense e um dos participantes do histórico foguetório de 1996. Além de acompanhar o time tanto na Arena Condá quanto em jogos fora, o torcedor de 46 anos chegou a ser presidente da torcida organizada Raça Verde. Conhecido também como Mauro ¿Voia¿, ele concedeu entrevista ao DC para falar do foguetório.

Você participou do foguetório?
Sim, eu sempre digo que fui um dos que mandou o Joinville embora. Éramos um grupo de 25 componentes da Torcida da Curva, que existia no antigo estádio regional Índio Condá. Recolhemos doações de fogos, sem dizer para que era, e compramos o restante.

Como foi?
A gente começou era umas 22h30min. A gente soltava os fogos do lado da Catedral, que fica próximo ao Hotel Bertaso, onde o Joinville estava hospedado. Daí a polícia dava uma batida e a gente se escondia na rua atrás da igreja, onde hoje é o camelódromo, em arbustos ou na praça. A gente largava e corria. Quando a polícia ia embora, a gente voltava a soltar. Tinham aquelas baterias de 12 tiros, que era novidade. Fomos até as 5h da manhã.

Que horas o Joinville foi embora?
Eles saíram por volta das 10h30, pois às 11h eu acordei e fui para a praça Coronel Bertaso para concentrar e ver se soltava mais uns fogos. Daí a gente pensou que o Joinville tinha ido apenas almoçar em Xanxerê para desmobilizar a torcida. A gente foi para o estádio pensando que iria ter o jogo.

Hoje, como você encara o episódio?
Era uma época em que eu era gurizão. Não era bandidagem. Era uma coisa errada, mas para nós era uma coisa boa, sadia.

Mas hoje você não apoiaria isso?
Hoje não caberia mais. A própria polícia não permitiria. É algo que ficou no passado. Um foguetório hoje não faria. Na minha opinião, a decisão tem que ser dentro de campo.


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