"Não adio mais nada na minha vida", diz Alan Ruschel, prestes a voltar a jogar pela Chapecoense Sirli Freitas / Chapecoense, Divulgação/Chapecoense, Divulgação

Alan Ruschel esteve em campo no jogo-treino contra o Ypiranga, na última quarta-feira

Foto: Sirli Freitas / Chapecoense, Divulgação / Chapecoense, Divulgação

Oito meses depois da maior tragédia do futebol mundial, Alan Ruschel está de volta aos gramados. Um dos seis sobreviventes do avião da Chapecoense que caiu a caminho de Medellín, na Colômbia, matando 77 pessoas, o lateral-esquerdo parece ainda não acreditar no que aconteceu naquele 28 de novembro de 2016. Mas Agradece a Deus a cada frase e reforça a gratidão que tem por receber uma segunda chance de viver.

No dia seguinte à entrada em campo, em jogo-treino pelo time de Chapecó, o jogador já vive outra expectativa: o renascimento do Ruschel jogador. Há chance de ser relacionado contra o Atlético-GO, no domingo, pelo Brasileirão, mas deve voltar diante do Barcelona, em amistoso no dia 7.

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Veja os principais trechos da entrevista:

Você consegue descrever o sentimento de retornar aos gramados, ainda que em um jogo-treino?
Na verdade, é um sonho que eu estou realizando pela segunda vez. Tem aquele sentimento de friozinho na barriga de estar voltando a ser jogador profissional. Aquele desejo de moleque voltou, como voltou em mim, quando eu entrei em campo. Foi em um jogo-treino, mas deu para sentir a adrenalina de voltar. Tem também o sentimento de agradecimento a Deus por me dar uma segunda chance de fazer aquilo que eu mais gosto. Foi uma alegria muito grande de sentir tudo isso de novo.

Dá para comparar com o seu início no futebol?
Bem próximo disso, daquele sonho de ser jogador, de jogar uma partida oficial. Eu lembro até hoje do meu primeiro jogo como atleta profissional, contra o Juventude, em 2008, contra o Guarani. Foi emocionante. E ontem também, chegou bem próximo disso. Quando chegar a hora de realmente jogar um jogo oficial, vai voltar tudo aquilo, um sentimento único e só agradecer a Deus por essa oportunidade.

O seu retorno oficial parece estar próximo. A "reestreia" pela Chapecoense pode acontecer no final de semana, contra o Atlético-GO. É mais um friozinho na barriga?
É tudo novo, um sentimento inexplicável. Às vezes, nem para mim a ficha caiu, parece que é tudo mentira. Mas a minha vida precisa andar, a família depende de mim, tem pessoas que dependem da minha profissão. Só Deus mesmo por ter me deixado aqui, por estar realizando esse sonho de novo. Então, eu sou muito grato por isso. Eu não tenho outra coisa a fazer do que agradecer.

Jogador durante treino nesta quinta-feira Foto: Sirli Freitas / Chapecoense, Divulgação

Para quem acompanhou todo o episódio de fora, viu você chegar no hospital e acompanhou a notícia da cirurgia na coluna, é impressionante te ver em campo.
A coisa que eu mais amo e sei fazer é jogar futebol. Depois de tudo o que aconteceu, de toda essa tragédia, eu quero servir de exemplo para muita gente. Exemplo de superação, de força. De uma pessoa que busca o que quer, o seu objetivo. E, primeiramente, eu nunca questionei a Deus o porquê de tudo isso. Eu tento transformar esse "porque" em "para que" eu fiquei aqui. A minha primeira missão foi mostrar que Deus existe. Não tem outra explicação. Foi um milagre de Deus. Depois, acredito que é um exemplo voltar a jogar em alto nível, no Brasileirão, oito meses depois. Para um atleta profissional, parece que é lento, foi demorado. Mas eu sempre falei que sei que não caí de bicicleta, foi uma coisa muito grave. E depois do que falaram no hospital, que eu tinha feito uma cirurgia complicada... Os médicos sempre foram muito sinceros, que não sabiam se eu teria condições de voltar jogar futebol. Andar, me garantiram. Mas jogar não me garantiam. Então, naquele meu primeiro momento, o foco era voltar a andar. Quando saí do hospital de Chapecó, vi que eu queria voltar a jogar e passaria mais uma vez por esse obstáculo. Recebi o apoio da minha família, minha esposa, de todo mundo no clube e de todos que oraram por mim.

Vimos a sua família muito presente e preocupada em dar informações nas suas redes sociais a todo instante. Também sabemos que irás casar em seguida. Essa força toda vem daí?
Vou casar em dezembro, sim. Essas pessoas que são o meu alicerce. Meu pai, minha mãe, meus irmãos, minha esposa. Mas primeiro sempre em Deus. Agradeço sempre por mais um dia quando acordo. E me espelho na minha família, que sempre esteve forte do meu lado.

Tudo isso fez você mudar um pouco o jeito de ver as coisas? A ver tudo como última oportunidade?
Encaro como falaste. Nunca sabemos o que vai acontecer daqui cinco minutos. Então, procuro viver bem e melhor a vida. Procuro aproveitar da melhor maneira possível. Antes, a gente deixava as coisas para depois. Então, o que eu posso fazer agora, não deixo de fazer. Não adio mais nada na minha vida. Procuro aproveitar tudo do melhor jeito possível, é isso que prevalece. E agradecer sempre a Deus, porque a gratidão é o exemplo mais bonito que existe na vida.

A Chapecoense fará um amistoso com o Barcelona. Como está sua expectativa?
É mais um sonho que eu vou realizar. É mais um passo que eu vou dar. Claro que, infelizmente, por uma tragédia, mas quis Deus que fosse assim. Vou realizar um sonho de jogar contra os melhores do mundo, no Camp Nou. Vai ser um momento único, ímpar.

Chegaste a ver todas as homenagens que fizeram? O Barcelona foi um deles.
Vou ser sincero contigo. Logo que eu saí, procurei não ver muita coisa, até para não lembrar. Queria focar na recuperação. Com o tempo, fui vendo algumas homenagens. Vi o mundo inteiro, do futebol e fora dele, orar por nós. Por isso que, por onde eu passo, agradeço.

E, hoje, falar no assunto é menos doloroso?
Hoje já me sinto um pouco mais tranquilo. Logo no começo, a emoção vinha, e falar de todos que perdemos... Mas me sinto mais tranquilo, até porque a minha vida precisa continuar. As pessoas da minha família precisam de mim.

Agora, a dúvida é no campo. Por que o lateral-esquerdo Alan Ruschel voltou a campo como meia?
Conversei bastante com o pessoal da comissão técnica. E a lateral exige mais na marcação do que um meia. Claro que hoje todo mundo, desde o atacante até o goleiro, precisa ter seu papel de defesa. Mas acho que ali no meio-campo, fazendo uma segunda linha, de terceiro volante, exige um pouco menos do que um lateral. O lateral está na última linha de quatro e não pode errar tanto. No meio-campo ainda tem a linha de quatro para te defender. Então, nos primeiros momentos, o ideal seria eu voltar mais na frente. Eu comecei de meia, então, não sinto tanto. 

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*ZHESPORTES

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