Um ano de reconstrução: as marcas de quem sobreviveu à tragédia com a Chape Marco Fávero / Diário Catarinense/Diário Catarinense

Foto: Marco Fávero / Diário Catarinense / Diário Catarinense

Tudo era escuridão. A noite, densa. O céu encoberto pelas nuvens que desaguavam em chuva. Do lado de dentro, o breu também predominava. Estava tudo apagado. Luzes e motores desligados. O avião não fazia qualquer ruído a não ser o do provocado pelo ar em contato com a fuselagem. Não era pouso, estava em queda. Parou quando encontrou a montanha. Despedaçou-se na colisão. Em meio aos destroços da aeronave, Hélio Hermito Zampier Neto aparece. O jogador de futebol profissional se levanta e caminha por entre as peças sem saber onde estava, ladeado pelo rastro de destruição. Pesadelo que ocupou parte da madrugada de sexta-feira que iria raiar no dia 25 de novembro. A angústia diminuiu ao perceber que, ao acordar, esteve o tempo todo próximo da esposa, mãe dos gêmeos Helan e Helen. Era a penúltima noite de sono em Chapecó.

Quatro dias depois, o Avro RJ85 da LaMia, que havia decolado de Santa Cruz de La Sierra, na Bolívia, passa pelas mesmas condições do pesadelo cerca de 30 quilômetros antes do destino traçado, o Aeroporto Internacional José Maria Córdova, em Medellín, na Colômbia. Neto revive tudo igualmente de olhos fechados. Mas agora ele não dormia. Estava acordado. Ao lado do companheiro Bruno Rangel, rezava em voz alta. Cristão convicto e batizado na Igreja Batista, pedia pelo milagre que não aconteceu. O avião caiu, bateu na montanha.

Desta vez, Simone não estava ao seu lado na cama, mas a 4,2 mil quilômetros. Tampouco ele pôde andar pelos escombros. Tudo era escuridão. Estava entre o que sobrou do voo LMI 2933, com o corpo machucado entre metais. A aeronave que levava Neto e outros 21 atletas da Chapecoense, 13 membros da comissão técnica, 10 dirigentes, dois convidados, 21 jornalistas e nove tripulantes parou na mata de Cerro Gordo, a montanha no município de La Unión. Não pousou em Medellín. Quem dera fosse outro susto em meio ao sono, em casa.

A final da Copa Sul-Americana de 2016 não seria mais disputada. Não teve futebol nem time. Alan Ruschel foi o primeiro a ser tirado dos destroços. As equipes de resgate também removeram a auxiliar de voo Ximena Suárez, o técnico da aeronave Erwin Turimi, o narrador Rafael Henzel e os goleiros Jakson Follmann e Danilo, que não resistiu ao chegar ao hospital. Neto ainda estava longe. Gemia sob o que restou do impacto do avião despedaçado pelo caminho aberto na mata em declive. Foi soterrado por galhos de árvores e ferragens, sem a mínima condição de se desvencilhar dos destroços. Diferença entre o pesadelo de Chapecó e o da Colômbia.

Foto: Arte / DC

Imóvel, emitia sopros do fio de vida que o fazia resistir ao frio e às dores. Tão baixos que apenas o policial Marlon Lengua conseguiu perceber na última vez que passava pelo local, oito horas após a queda. Os colegas de resgate iam em direção aos veículos para deixar a montanha. As buscas tinham sido suspensas quando Marlon sentiu que ainda havia vida em meio aos mortos. Encontrou Neto cheio de cortes e fraturas na cabeça e no tórax. Os pulmões fraquejavam, os arranhões e machucados tomavam grande parte de seu corpo. Mexeu apenas os olhos do momento do impacto até chegar o socorro. Foi levado ao hospital em estado crítico, quase quatro horas depois do primeiro sobrevivente.

Entre cirurgias corretivas e sedativos, passou pelas próprias ideias que algo ruim tinha acontecido. Não na partida contra o Atlético Nacional, mas apenas com ele. Demorou para que soubesse que jamais encontraria quase todos os companheiros como no domingo anterior, em São Paulo. Havia chegado ao aeroporto daquela cidade feliz entre os colegas de profissão para dois compromissos profissionais importantes. A delegação viajara de Chapecó para o jogo contra o Palmeiras, pela Série A do Brasileirão, último desafio antes do primeiro duelo pela Copa Sul-Americana. O retorno ao Serafin Bertaso ocorreu 19 dias depois, duas semanas a mais do que o previsto, deitado na maca, 15 quilos mais magro, fraco. Sussurrava em vez de falar. Não era mais o mesmo. Tampouco a Chape e Chapecó.

Neto carrega marcas da tragédia na pele. Um corte no nariz, outros tantos pelo rosto e cabeça, um risco na orelha direita, outro mais grosso na perna esquerda, uma espécie de mancha nas costas da mão direita e outra menor no peito, no lado esquerdo, arranhões pelos braços. Cicatrizes comungadas pelo clube e pela cidade. Assim como o zagueiro, Chapecoense e chapecoenses se recuperam das marcas indeléveis. O clube voltou ao futebol, remontado sob a inspiração dos que vestiram as camisas verdes. Chapecó sente falta daqueles homens que a faziam ser reconhecida no país não apenas pela força da agropecuária. Seguem a vida. Tanto quanto Neto na retomada da rotina de atleta para voltar a jogar.

– As cicatrizes não incomodam. O joelho direito ainda dói um pouco, a coluna também – confessa, quase um ano depois do acidente.  

Coexistem com a dor. A mesma que toma o peito quando faz noite fria, cerrada e chuvosa no Oeste de Santa Catarina, como na de 29 de novembro em Cerro Gordo: a montanha em que um pedaço verde morreu. 

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