Autoridades e líderes de organizadas opinam sobre o novo Estatuto do Torcedor Rovani Ilha/

Medidas pretendem acabar com conflitos como o que aconteceu em 2008 (foto) entre torcedores do Criciúma e do Avaí

Foto: Rovani Ilha

As novas regras estabelecidas no novo Estatuto do Torcedor visam aumentar a segurança nos estádios, inibir as ações de violência nas arquibancadas e punir severamente quem participar de manipulação de resultados. A lei foi sancionada na terça-feira pelo presidente Lula e já está em vigor.

Mas uma destas medidas desperta curiosidade e desconfiança quanto a sua aplicação: a proibição de cantos ofensivos, que possam incitar atos agressivos. Os xingamentos são práticas comuns nos estádios e impedir que isto siga acontecendo é o grande desafios das autoridades.

>>> Mural: o novo Estatuto do Torcedor proíbe as torcidas de cantarem de forma ofensiva nos estádios, sob pena de punição. Você acha que a lei vai "pegar"? Dê sua opinião!

O tenente-coronel Newton Ramlow, comandante do 4º Batalhão da Polícia Militar de Santa Catarina, entende que a lei será fundamental para inibir o vandalismo e fazer as famílias voltarem aos estádios. Ramlow concorda que as músicas de teor agressivo devem ser banidas e diz que os policiais estão preparados para o controle:

—  Esse monitoramento já existe nos estádios. Para coibir as cantorias, basta a gente responsabilizar os presidentes das organizadas. Isso resolve o problema — ressaltou.

A colocação de faixas com dizeres provocativos e que estimulem conflitos entre torcidas rivais também receberá atenção especial.

—  Todas as medidas são boas para quem gosta de futebol. O que nós não admitimos é a apologia ao crime. Isso será reprimido sempre — afirmou.

A instalação de câmeras de monitoramento e a criação de uma "central técnica de informações" nos estádios é outra exigência do novo estatuto. No momento, a Ressacada vem sendo preparada para atender às recomendações.

Outros estádios, com capacidade superior a 10 mil pessoas, terão de passar pelo mesmo processo. São os casos da Arena Joinville, Orlando Scarpelli, Heriberto Hülse e Índio Condá.

O presidente da Associação de Clubes de Santa Catarina, João Nilson Zunino, ressalta que as medidas não têm o objetivo de punir apenas as organizadas:

— Elas (as organizadas) fazem parte do espetáculo e a maioria dos seus integrantes não promovem a violência. Precisamos controlar todas as pessoas, especialmente aquelas que buscam a desordem — destacou.

Zunino acredita que os maiores clubes do Estado podem se adequar às normas, mas precisarão de um certo tempo.

—  Quem quiser se adequar, vai conseguir. O governo federal vem fazendo um levantamento das despesas e necessidades de cada clube e destinará verbas para as mudanças.

O procurador jurídico da Federação Catarinense de Futebol (FCF), Rodrigo Capella, elogiou as mudanças e lembrou que o Estado largou na frente neste processo quando, em 2008, determinou o cadastro de torcedores de organizadas junto à entidade.

Na época, uma bomba foi lançada por torcedores do Avaí, no Heriberto Hülse, e atingiu o torcedor do Criciúma, Ivo Costa, que perdeu a mão direita. De acordo com Capella, nove torcidas de sete clubes catarinenses estão cadastradas hoje na FCF.

Com base no Termo de Ajustamento de Conduta assinado há dois anos, em parceria com o Ministério Público, PM e Associação de Clubes, somente os torcedores registrados podem entrar nos estádios com faixas e uniformizados.

Em busca de alternativas

Legitimadas pelo ministro do Esporte, Orlando Silva, que considera fundamental a participação das organizadas nos jogos de futebol, os torcedores catarinenses buscam alternativas para se adequarem às normas do novo estatuto.

Maicon Silva, diretor da Mancha Azul, principal organizada do Avaí, afirmou que a proposta foi bem recebida pela cúpula da torcida e ajudará na diminuição da violência.

— A intenção da Mancha é levantar a bandeira da paz. Estamos conversando com todos os integrantes e queremos acabar de uma vez com essa imagem negativa — destacou.

Para o presidente da Gaviões Alvinegros, Carlos Laus, o Bola, maior torcida do Figueirense, as proibições serão acatadas, mas é preciso respeitar a liberdade de expressão:

— A rivalidade, a gozação entre os torcedores, isso vai existir sempre nos estádios. São situações comuns e que, às vezes, fogem do nosso controle. A gente vai conversar para evitar abusos, mas é complicado — reconheceu.

Ele admite que menos de 1% dos torcedores da Gaviões estão cadastrados na Federação Catarinense.

— É tudo muito caro e burocrático. Enquanto isso não mudar, os torcedores não vão respeitar as exigências.

Atualmente, a Gaviões Alvinegros conta com 783 associados e a Mancha, com quase mil. De menor porte, a Garra Independente, da Chapecoense, procura se adequar às exigências.

O diretor Alexandre de Morais disse que apenas oito dos 52 integrantes possuem cadastro. Quanto as restrições às cantorias, Morais ressaltou que não mudará:

— Apenas incentivamos o time.

DIÁRIO CATARINENSE
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