Ajoelhados e apontando para o céu: como nasceu a comemoração que virou febre Lauro Alves/Agencia RBS

Foto: Lauro Alves / Agencia RBS

Deus é o goleador do Brasileirão. Ao menos, é ele quem tem colhidos os frutos em campo. Artilheiros ajoelhados, rodinha de oração no gramado, times inteiros apontando para o céu. As comemorações dos gols a cada rodada do Campeonato Brasileiro sofreram uma grande mudança na edição 2015. O tempo de vibrar com os gols imitando cachorro, porco, galinha, passinho de funk, jogo de boliche, correndo para o telefone público atrás da goleira ou mesmo quicando, saiu de moda.

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O fenômeno da comemoração coletiva cristã é recente no Brasil, teve início no Campeonato Paulista de 2015, com o Santos do pastor-artilheiro Ricardo Oliveira, mas não se trata de uma inovação. O presidente do movimento Atletas de Cristo, Marcos Grava, explica que esse tipo de comemoração nasceu na Coreia do Sul. Nos anos 1980, o Hallelujah-Immanuel Football Club foi o primeiro time profissional do país. O seu fundador era cristão, bem como os jogadores que atuavam pela equipe. A cada gol, todos se ajoelhavam e erguiam os dedos indicadores para o céu. 





– No Brasil, há um bom tempo essa prática vinha sendo feita de maneira individual por alguns atletas. Agora, ela passou a ser coletiva – comenta Grava. – Nós, do Atletas de Cristo, vemos estas comemorações com muita alegria. Especialmente no momento em que o ódio ao diferente e a intolerância se espalham mundo afora. Essas manifestações pacíficas e não ofensivas por parte de ídolos do futebol são copiadas por milhares de jovens em todo o planeta – acrescenta o líder do Atletas de Cristo, organização que está disseminada em 20 países e que conta com mais de 7 mil integrantes.

 Jogadores do Santos comemoram gol em partida contra o Inter, no Brasileirão Foto: Ricardo Saibun/Santos FC/Divulgação

Após a conquista do Paulistão pelo Santos, as comemorações de gols em grupo se tornaram a marca da equipe da Vila Belmiro – e passou a ser copiada por outras equipes. 

– Essa comemoração não é uma regra, não é uma imposição. No momento do gol, queremos glorificar a Deus. Isso só mostra que todos estão pensando da mesma forma – explicou o atacante da Seleção Brasileira à imprensa paulista.

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 Fluminense também adotou a comemoração Foto: NELSON PEREZ/FLUMINENSE F.C.

Marcos Venâncio de Albuquerque é um dos mais importantes jogadores do Inter nos anos 2000. Foi ele quem, em dezembro de 2006, parou Ronaldinho, então o grande nome do Barcelona, e ajudou o clube a conquistar o maior título da sua história: o Mundial da Fifa. Atualmente na lateral-direita do Cruzeiro, Ceará também atende por Pastor Marcos Ceará. Em 2012, quando ainda atuava pelo PSG, ele foi ordenado sacerdote da Igreja Batista. Em Paris, chegou a batizar colegas de time. Entre eles, o volante francês Blaise Matuidi. 

– Acho ótimo que tantos jogadores estejam comemorando os seus gols dessa maneira. Significa que eles são gratos a Deus pela graça do gol. Um atleta de alto rendimento precisa de um apoio a mais. E esse apoio vem da fé. Quem se compromete com Deus tem resultados extraordinários, pois essa pessoa está mais comprometida com o seu trabalho e não se abate com facilidade – afirma Ceará.

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O lateral-pastor Marcos Ceará nasceu em 1980, o ano em que o então centroavante do Grêmio Baltazar e que o goleiro do Atlético-MG João Leite (famoso por entregar a Bíblia aos adversários antes dos jogos) deram início ao grupo Atletas de Cristo – hoje, o maior movimento organizado de desportistas cristãos do Brasil. Em sua gênesis, a iniciativa visava ao encontro de jogadores de futebol para a leitura da Bíblia. Nas finais do Brasileirão de 1981, Baltazar imortalizou uma frase no folclore do futebol. Após perder um pênalti contra o São Paulo, no jogo de ida, no Olímpico, ele tentou se redimir, projetando a partida do Morumbi: 

– Deus está guardando algo melhor para mim.

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A redenção de Baltazar chegou com o gol da vitória gremista por 1 a 0 sobre o São Paulo, que assegurou o Brasileirão ao time de Ênio Andrade. 

– Citei aquela passagem, em 1981, porque não compreendi o motivo por ter errado o pênalti. Naquela época, um pouco antes, iniciei esse processo de Atletas de Cristo com o João Leite, um evangélico como eu, porque senti a necessidade de alcançar mais pessoas para Jesus – conta Baltazar, de 56 anos. – Os ídolos de hoje estão reconhecendo que precisam de Deus. Eu agradecia a Deus a cada gol, cada gesto meu era para Deus – completa. 

 Joinville comemora gol sobre o Grêmio Foto: Fernando Gomes/Agência RBS

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Baltazar, porém, faz um alerta: teme que a exacerbação das comemorações se torne algo artificial. 

– Deus não pede que você comemore de um jeito ou de outro. Precisa ser algo espontâneo, de coração – ensina Baltazar.

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Pesquisador do Departamento de Ciências da Religião da PUC, de São Paulo, o sociólogo Clodoaldo Leme entende o fenômeno religioso no futebol como uma espécie de bengala, um apoio a jovens submetidos à pressão desde pequenos. Para chegar à elite, muitos meninos de 12, 13 anos saem de casa e passam a viver nas concentrações dos clubes. Apesar do sacrifício, nem todos serão abençoados com os altos contratos das equipes de primeira linha. 

– É aí que entra a resposta rápida da religião em um esporte de altíssima pressão e, se houver falha, poderá representar o fim dos sonhos de muitas pessoas, além do retorno ao mercado de trabalho de uma pessoa que estará despreparada e desamparada – diz Leme. – O carinho da mãe, e o do pai, que estarão longe desses garotos, será substituído pela roda de orações, pelo grupo de reza da concentração. A religião preenche esse vazio de afeto, mas também é usada de forma ingênua pelas pessoas que acreditam que o sobrenatural fará com alcancem os objetivos – analisa o sociólogo.
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 Time sub-13 do Santos seguiu os passos do profissional e comemora da mesma maneira Foto: Pedro Ernesto Guerra Azevedo/Santos FC/Divulgação

Em sua tese de mestrado, "É Gol! Deus é 10 – A religiosidade no futebol profissional paulista e a sociedade de risco", Leme discorreu que o futebol brasileiro (e também latino-americano) sempre esteve ligado à religião. No começo do Século 19, os jesuítas passaram a levar o futebol para as suas escolas. Clubes foram fundados tendo forte influência da religião em seus nomes: Santos, São José, São Paulo, São Caetano, São Raimundo e até o argentino San Lorenzo, cujo torcedor-símbolo é o Papa Francisco. Na Argentina, Maradona é chamado de "Dios" (Deus) e tem até igreja em sua homenagem: a Igreja Maradoniana. Leme acredita não haver espaço para que esse elo futebol-religião seja rompido:

– Mesmo um jogador que não tenha fé, ou que não concorde com esse ingresso da religião no vestiário, teria dificuldades em quebrar a prática. Há altares, imagens, velas acesas nos vestiários. Muitas comissões técnicas têm profissionais que levam as camisas dos jogadores para terreiros de umbanda, sem que os atletas saibam. Outros, fazem rituais escondidos com velas, balas de mel e até sal grosso no gramado.
Clodoaldo Leme lamenta que a crendice exagerada retire do Homem o mérito. Todo o esforço realizado durante uma temporada inteira pode acabar tendo Deus como o responsável pelo sucesso. 

– Quando se ganha, foi Deus. Quando se perde, o trabalho foi jogado fora ou faltou fé. Não sei se isso chega a ser nocivo, mas não ajuda para se evoluir. Rezou, ganhou. Não é assim. Mas esse discurso atinge a massa mais facilmente – pondera.

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Pároco da igreja Nossa Senhora das Vitórias, no Beira-Rio, e diretor da faculdade de Teologia da PUCRS, o padre Leandro Chiarello conta que foi chamado diversas vezes para abençoar jogadores das mais diversas crenças. Cita o Papa Francisco como um grande incentivador do esporte de forma saudável. Para ele, a religiosidade no futebol extrapolou a fé: se tornou um hábito do esporte. 

– O futebol é uma diversão humana e assim deve ser encarado. A oração antes dos jogos virou um ritual, isso vai além da religião – analisa padre Leandro.

Ainda assim, o religioso elogia as comemorações dos jogadores no Brasileirão. Acredita que atletas famosos agradecendo pela graça alcançada seja algo benéfico para as religiões, porém, padre Leandro adverte para os extremos que tal prática possa conter:

– É preciso ter cuidado com o "foi Deus quem me deu o gol, o título" ou "foi Deus quem fez". É claro que não. É nefasto e diminui o ser humano pensar que Deus exige uma troca para fazer alguém ter sucesso. Deus não influenciará para a vitória ou derrota de um time.

Conhecido pelo seu pragmatismo, Muricy Ramalho não gosta de cultos dentro do vestiário ou na concentração. Permite as orações, mas faz a sua reza à parte. 

– Se não correr, não adianta nada rezar. Até porque todo mundo pede a mesma coisa, todos pedem para ganhar. Deus ajuda quem trabalha. Mas, se perdemos, não foi porque Deus não quis, e, sim, porque o outro foi mais competente – justifica o treinador.

Chapecoense entrou na comemoração da rodinha com as mãos para cima Foto: Cristiano Estrela/Agência RBS

Muricy fundamenta a sua postura afirmando que não quer jogadores fragilizados em virtude de uma crença:

– Cada um tem a sua fé. Religião não pode ser muleta. Deus tem muitas coisas com o que se preocupar. Não acredito que ele estará preocupado com um jogo de futebol.

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