Montada sobre uma plataforma com 12 metros de altura, uma câmera igual às utilizadas nas filmagens de cinema está na raiz do sucesso do Corinthians, o virtual campeão brasileiro de 2015. O equipamento é a mais recente aquisição do Cifut (Centro de Inteligência de Futebol), o centro de dados que alimenta a comissão técnica com imagens e ideias.

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Acionada durante os treinamentos, a câmera fornece as ações que serão depois analisadas em conjunto por Tite e jogadores. Editado, o material serve para corrigir defeitos e ressaltar conceitos como intensidade de marcação em campo reduzido, deslocamentos rápidos e raciocínio aguçado para iniciar a jogada e servir de opção para o passe do companheiro. Hoje, sabe-se que o jogador aprende mais pela visualização do que pela palavra.

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O Cifut também fornece valiosas informações sobre os adversários. E mesmo de jogos que não têm relação direta com o Corinthians. Na véspera da goleada por 3 a 0 contra o Goiás, por exemplo, o material analisado na concentração foram as imagens do jogo entre Alemanha e Geórgia, pelas Eliminatórias da Eurocopa. Tite queria mostrar a posse e a retomada de bola alemãs para aplicá-las em seu time.

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Mas essa é somente uma parte do segredo. Outra, tão importante, é a capacidade de gestão que Tite desenvolve cada vez mais. É a chamada liderança pelo convencimento. O técnico não manda por mandar, apenas para provar que é a autoridade. No Corinthians, o jogador sabe que, se errar, será educado, não cobrado ou castigado.

Tite ficou um ano fora do Corinthians. Despediu-se em 7 de dezembro de 2013, na última partida do Brasileirão, consagrado por títulos como Libertadores e Mundial de Clubes, e voltou em 15 de dezembro de 2014. Mas foram poucos os dias de folga nesse período. Primeiro, ele foi ao Boca Juniors conhecer o trabalho de Carlo Bianchi. Depois, passou por Real Madrid e Arsenal, da Inglaterra. Junto com o auxiliar Cléber Xavier, consumiu muita literatura de futebol, assistiu a incontáveis vídeos, participou de reuniões.

— Cada café, almoço ou bate papo era aproveitado. Queríamos corrigir nossos defeitos, mudar algo que não estava correto — explica Xavier.

Uma nova imersão na escola europeia foi feita a partir de setembro, quando Matheus, o filho de Tite, passou a integrar a comissão técnica do Corinthians. O garoto trazia os conceitos de Barcelona e Inter de Milão, clubes em que havia estagiado.

A antena de Tite está sempre apontada para a Europa. Ele acha justo que, enquanto os  clubes de lá compram nossos jogadores e lhes ensinam tática, nossos técnicos percorram o caminho inverso e busquem a metodologia europeia para aplicar aqui.  

Discípulo de Ênio Andrade, Tite é o resultado de várias escolas. Quem convive com ele cita como sua principal referência o italiano Carlo Ancelotti, técnico do Real Madrid. Mas também enxerga no treinador uma mescla entre o estilos de José Mourinho, com suas preocupações defensivas, e o ofensivismo do espanhol Pep Guardiola. Seja qual for, está provado que a fórmula dá certo.




Aprendendo com o líder

Treinamentos
— São curtos, com uma hora de 20 minutos de duração, no máximo, com alta intensidade, em campo reduzido. São raros os treinos em dois turnos. Os coletivos foram abolidos. Não há recreativos. Todos os trabalhos são táticos.

Metodologia
— Uma hora antes dos treinamentos, a comissão técnica repassa tudo o que foi planejado na véspera. Em seguida, os jogadores são chamados para receber a informação sobre no que irá consistir o trabalho. Com frequência, são exibidos vídeos produzidos pela equipe do Cifut (Centro de Inteligência de Futebol do Corinthians).

Conceito
— Numa partida, as ações decisivas acontecem em um raio de 40 metros. Como as transições são rápidas,  o time não trabalha muito com bolas espichadas, ou passes longos. A marcação é por zona, sempre perto, para reduzir o espaço do adversário. O Corinthians prioriza a posse de bola. Os jogadores são treinados para formar triângulos, pensar rápido, dar a bola e aparecer para recebê-la novamente. 

Pontos-chave
— Pressão alta muito forte. Atenção nas saídas de bola. Rápida transição da defesa para o ataque. Jogadas em triangulações. Quatro jogadores no meio, com Jadson aberto, mas ingressando por dentro. O Corinthians atua de forma propositiva, e não reativa.

* ZH Esportes

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