Prancheta ZH: quais os benefícios e os problemas do árbitro de vídeo no futebol? Franck Fife / AFP/AFP

Nestor Pitana contou com o auxílio do árbitro de vídeo para anular gol irregular de Portugal

Foto: Franck Fife / AFP / AFP

O uso do recurso da tecnologia com o árbitro de vídeo tem sido uma atração na Copa das Confederações da Rússia. A revisão das jogadas já rendeu a anulação de um gol de Portugal, além da anulação e da confirmação de um gol do Chile na primeira rodada. O sistema ainda está em período de testes pela Fifa, mas deve ser aplicado de forma gradativa nas principais competições internacionais.

Um impacto imediato, citado pelo ex-atacante Marco van Basten, atual chefe do departamento técnico da Fifa, é o aumento dos minutos de acréscimos nas partidas — seja para evitar cera dos jogadores ou para compensar o tempo gasto nas revisões.

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Por isso, Zero Hora ouviu especialistas em arbitragem. Eles entendem que a tecnologia no futebol é inevitável, mas que é preciso ajustar o ritmo para manter o interesse do público na partida.

Márcio Chagas, comentarista de arbitragem da RBS TV

Você é favorável ao uso do árbitro de vídeo?
Sou favorável, sim. Só não entendi qual o protocolo que foi treinado. Tem lances simples de definir, que o árbitro ou o assistente poderiam decidir, e que se dá sequência no jogo para só depois entrar em ação o árbitro de vídeo. Isto ainda não está em plena sincronia.

O recurso atrasa o ritmo do jogo?
Não atrasa o ritmo, porque até tem sido bem dinâmico. Em determinadas situações, não haveria a necessidade do uso, há um preciosismo só para dizer que está sendo usado. Mas tem que ser usado para lances capitais. Sabemos que a polêmica só é boa para quem vence. Para quem perde e para quem erra, é ruim. É bom usar a Copa das Confederações como treino, para chegar mias ajustado à Copa do Mundo.

Como você avalia as primeiras aplicações na Copa das Confederações?
Acho que tem sido importante. Este tipo de atuação é de suma importância, salva a arbitragem e salva o resultado da partida. A discussão fica em torno dos times, nada vai para a conta da arbitragem.

Tem como aplicar a competições de menor porte?
Eu acredito que no Brasileirão é bastante possível, tendo em vista que as arenas estão preparadas para ter uma sala em que os árbitros de vídeo vão ter o recurso. Já em estaduais fica mais complicado, porque os estádios do interior mal comportam a imprensa. Mas no Brasileirão, tanto na Série A quanto na Série B, é possível fazer.

Renato Marsiglia, comentarista de arbitragem da Rede Globo

Você é favorável ao uso do árbitro de vídeo?
A situação chegou a um ponto em que fica impossível não querer usar a tecnologia nas competições em que existe recurso para isso. A questão é que vai levar tempo para operacionalizá-lo e não causar prejuízo para a dinâmica do jogo, para que a partida não fique prejudicada.

O recurso atrasa o ritmo do jogo?
No início, é natural, não havendo a prática dos envolvidos, que isso traga algum prejuízo no andamento do jogo. A decisão tem que ser tomada de forma mais rápida. No futebol, ao contrário de outros esportes, quanto menos o jogo parar, melhor. Tem que fluir para que fique um espetáculo melhor. Não pode parar a todo momento. Tem que ter cuidado para que não se use o árbitro de vídeo como uma bengala, que ele decida tudo. O árbitro principal não pode deixar de tomar decisões. Ele não pode transferir tudo para o árbitro de vídeo. Isso tem que ser bem estudado e discutido pela Fifa.

Como você avalia as primeiras aplicações na Copa das Confederações?
Eu considero que é importante em lances decisivos, que podem trazer impacto no resultado da partida. Nestes casos, deve haver a utilização do árbitro de vídeo. Mas naquilo em que realmente há necessidade. Teve um lance no Campeonato Pernambucano em que o jogo ficou parado por seis minutos para se decidir sobre uma penalidade em que o árbitro havia marcado e estava a três metros do lances, simplesmente para justificar a presença do árbitro de vídeo.

Tem como aplicar a competições de menor porte?
Essa é uma questão que vai acontecer. Um dos fatores que faz o futebol ser popular é a universalidade das regras, são iguais em qualquer nível de competição. O árbitro de vídeo vai ficar restrito a algumas competições em que existe recurso. Ele deveria ser usado em todas. Não pode usar o árbitro no Brasileirão apenas em alguns jogos, ou a partir da 12ª rodada, para manter o equilíbrio técnico. Ou lances idênticos teriam decisões diferentes. Abre-se mão da universalidade em nome da justiça. É uma questão que não tem solução.

Leonardo Gaciba, comentarista de arbitragem da Rede Globo

Você é favorável ao uso do árbitro de vídeo?
Favorável eu sou, mas o detalhe é que ainda estão tentando encontrar a melhor maneira de fazer. Não são todos os lances em que o recurso é utilizado. Alguns erros não foram corrigidos. A questão do critério me preocupa. Tenho medo da continuidade do jogo, fico um negócio muito frio. Tem a comemoração do gol que não vale, depois vale de novo. Tem que minimizar o tempo de utilização. Particularmente, acredito que se corrija apenas parte dos erros.

O recurso atrasa o ritmo do jogo?
Depende de quantas vezes vai ser utilizado por jogo. Ainda está se achando a melhor forma. Por enquanto, é apenas um experimento.

Como você avalia as primeiras aplicações na Copa das Confederações?
O detalhe é que se mostra apenas o acerto. Vi lances capitais alterados, mas vejo que algumas jogadas não foram. Quero fazer um balanço geral. O recurso não tem a mesma credibilidade do sistema gol-não gol, que é incontestável. A linha de impedimento no gol do Chile foi contestável. A tecnologia usada por eles apontou gol legal, mas outra tecnologia poderia mostrar o contrário. Tem que se pensar em tudo para ter um modelo definitivo.

Tem como aplicar a competições de menor porte?
A CBF não conseguiu. Disse que não tinha dinheiro para fazer. Era um dos grandes incentivadores, mas não tinha dinheiro. O gol-não gol, não teve também. É como no tênis e no vôlei. Só se utiliza em grandes competições. Nós estamos discutindo um recurso que vai ser aplicado em 1% dos jogos mundiais.

Diori Vasconcelos, comentarista de arbitragem da Rádio Gaúcha

Você é favorável ao uso do árbitro de vídeo?
Sempre fui favorável ao uso do árbitro de vídeo ou de formas tecnológicas que pudessem minimizar os erros no futebol. O ponto mais importante dessa novidade é que se trata da maior mudança da história do futebol. Estamos falando de uma regra que altera o jogo de fora pra dentro. Isso requer adaptação dos jogadores, do público e dos que cercam o futebol. Essa adaptação será dificultada se não houver um padrão bem claro para a aplicação do árbitro de vídeo.

O recurso atrasa o ritmo do jogo?
Essa questão é muito importante. Se houver um padrão bem claro para o uso, o público vai entender a parada, e os árbitros terão uma atitude mais dinâmica na tomada de decisão. A parada vai acontecer. Se ela for minimizada, não vejo como quebra de ritmo de jogo. Não é toda hora que ela acontece. Só que essa dinâmica na tomada de decisão nem sempre tem ocorrido da melhor forma na prática. O sistema está evoluindo. E ainda precisa melhorar.

Como você avalia as primeiras aplicações na Copa das Confederações?
Houve melhora significativa na Copa das Confederações se compararmos ao uso do Mundial de Clubes, quando a demora superou dois minutos da marcação do gol para a anulação. Também acho fundamental para a dinâmica do lance que o árbitro não deixe o gramado para olhar o monitor. Afinal, há um árbitro de vídeo só para isso. Sentado de frente pra a tela. Se ele não for capaz de passar uma informação segura pra o juiz principal, não deve estar ali. Nos dois primeiros jogos em que houve a utilização na Copa das Confederações, as coisas andaram melhor. No gol anulado de Portugal, a decisão aconteceu em 40 segundos. Pode ser em menos tempo? Pode e deve. Mas não acredito que 40 segundos seja um problema para que assiste ao jogo. É preciso ter essa decisão como exemplo e evoluir a partir dela. Estamos cansados de ver polêmicas após gols em que jogadores ficam cercando a arbitragem e há demora muito maior. Um sujeito com o vídeo pode reduzir a demora em casos como esse.

Tem como aplicar a competições de menor porte?
É possível aplicar na Série A do Brasileirão. Sem pressa para fazer da melhor forma. É fundamental observar os testes que estão ocorrendo para aprender. Tirar lições. Ver o que está certo e o que está errado. Em divisões inferiores, bem como nos estaduais, não vejo perspectiva de utilização. E isso não é problema. A evolução em qualquer esporte do mundo ocorre no alto rendimento, no alto padrão e nas principais competições. Não há tecnologia em todas as quadras de tênis de um grande torneio, por exemplo. E todos acham normal.

*ZHESPORTES

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