Fanático por futebol e com paralisia cerebral, Guto Delfino vira auxiliar técnico Leo Munhoz/Diário Catarinense

Com a camisa do Pura Arte, Guto auxilia o técnico da equipe, Lui Vandré

Foto: Leo Munhoz / Diário Catarinense

 "Boa noite. Meu nome é Augusto Delfino. Tenho 25 anos. Sou formado em Educação Física pela Unisul. Fui convidado pelo Lui para integrar a comissão técnica do Pura Arte. Agradeço muito pela oportunidade. Vou aprender muito buscando experiência para que, no futuro, eu possa me tornar técnico de futebol profissional. Enfatizo que estou aqui para aprender e espero que seja útil. Nesses primeiros amistosos para o campeonato amador, que iniciará em maio, vou observar o potencial de cada um e discutir com o Lui o melhor encaixe de time. Espero que a nossa caminhada seja vitoriosa, com muita disposição de todos em busca do título. Para conversar comigo, não tem mistério. É só chegar. Falo por um capacete com uma antena com o auxílio de um tablet. Vamos juntos fazer uma linda história!"

Foi com essas palavras que o Guto se apresentou aos jogadores do Pura Arte Futebol Clube na preleção antes do amistoso contra o Vila Santo Antônio, preparatório para a segunda divisão do campeonato amador de Palhoça. A voz foi computadorizada, mas a mensagem passou um sentimento bastante humano: todos aplaudiram fortemente o novo auxiliar técnico da equipe.

Augusto é um jovem apaixonado por esportes, em especial o futebol e o Avaí. Ele nasceu com paralisia cerebral, o que impede os movimentos do corpo e a fala. Só que a parte cognitiva é perfeita. Tanto que se tornou o primeiro bacharel em Educação Física nesta condição no Brasil, em setembro do ano passado. Está sempre presente nos jogos do Leão da Ilha na Ressacada e escreve suas opiniões sobre o Avaí desde 2009 no atualizado Blog do Guto. Trabalha na gráfica da família no bairro Estreito e agora se prepara para o curso de treinador de futebol da CBF. O técnico do Pura Arte, o Lui Vandré, descobriu o sonho do Guto e o convidou para integrar a comissão do time. Ele aceitou o desafio na hora.

— É um menino muito estudioso e que entende bastante de futebol. Está sendo muito legal a participação dele. Eu acredito que vai agregar, vai dar força e vai ensinar muito para todo mundo. Ele traz uma energia boa e uma força de vontade que não tem explicação.

 FLORIANÓPOLIS, SC, BRASIL, 05-04-2018: Jovem com paralisia cerebral vira auxiliar técnico no futebol amador em Palhoça. Augusto Delfino.
Durante a preleção: a voz foi computadorizada, mas a mensagem passou um sentimento bastante humanoFoto: Leo Munhoz / Diário Catarinense

Concentrado

Antes da partida contra o Vila Santo Antônio no campo do Atlântico, na Barra do Aririú, Augusto estava transbordando alegria vestindo a camisa rubro-negra da equipe. Ao lado do pai, Marcos Antônio Delfino, recebia, com sorriso de ponta a ponta do rosto, os cumprimentos e desejos de boa sorte. Mas foi só o jogo começar para ele fechar a cara e se concentrar, com a cadeira de rodas estrategicamente posicionada para o gramado. Ele viu o adversário abrir o placar logo nos primeiros minutos. Precisava dar um recado ao Lui. Com a antena na testa, digitou letra por letra a leitura parcial da partida: "tem que abrir pelas laterais com toques rápidos".

— E aí a gente realmente pediu pros laterais abrirem. A jogada saiu do lateral Luís, que cruzou, e o Thomas fez o gol de empate. Leitura perfeita e com certeza vai dar certo isso aí. O nosso entrosamento está legal — acredita Lui.

A partida terminou vitoriosa para o Pura Arte: 4x3. O seu Marcos, pai incansável e fiel escudeiro do Guto, comemorou, não só o resultado, mas a oportunidade que o filho está tendo.

— Ficar em casa embaixo da asa do pai e da mãe não vai fazer ele crescer. Quando eles fizeram o convite, eu achei maravilhoso. Porque ele vai se despertar. E isso faz com que a cabeça dele vá se abrindo. Ele estuda muito, ele lê bastante livro, mas isso não é suficiente para criar a malandragem, a vivência do mundo.

"Ele deixa claro é possível", diz professora

Maria Leticia Knorr, coordenadora do curso de Educação Física da Unisul e uma das professoras do Guto na faculdade, acompanha a trajetória do aluno desde que ele entrou no Ensino Superior. Na formatura, na sede da Associação Catarinense de Medicina, Leticia estava muito emocionada e chegou a ficar com a voz embargada no momento da cerimônia em que lhe conferiu o grau de bacharel.

A acadêmica lembra que Augusto Delfino era o estudante mais dedicado e presente no curso e que assistia inclusive as aulas práticas. Que, apesar das limitações, ele era comunicativo nas aulas.

— Ele é muito querido, educado, participativo da forma dele. Eu fui professora dele, e ele também pergunta, tira dúvidas, complementa. Aos poucos a gente foi aprendendo com ele. Hoje a gente sente falta.

Leticia destacou a determinação dos pais, Marcos e Rute, que ao longo dos cinco anos do curso fizeram esse sonho ser possível. E acredita que o futuro pertence ao Guto.

— Eu acho que ele vai ter dificuldades, mas as características de competência pessoal dele, de dedicação, de comprometimento e determinação criam um ambiente muito favorável para que as portas se abram para ele, e as pessoas estejam dispostas a entender o Guto. Ele deixa claro que é possível. Claro que a família ajuda muito. A estrutura de carinho e apoio que ele tem faz com que ele consiga conquistar os sonhos.

Rute acompanha Guto durante a colação de grau; a coordenadora do curso, Maria Leticia Knorr, se emocionouFoto: Unisul / Divulgação
Colegas e professores de Guto na cerimônia de formatura em Educação FísicaFoto: Unisul / Divulgação

O maior dos sonhos: treinar o Leão

O tema do trabalho de conclusão do curso de Educação Física de Guto foi sobre a Qualidade dos Serviços prestados no Estádio da Ressacada, que recebeu a nota 8,5. A apresentação do TCC foi feita por um software digitado pelo PowerPoint que reproduzia, em voz, as teses dele. O Avaí inclusive homenageou o ilustre torcedor na colação de grau.

Augusto coleciona fotos com seus ídolos. Marquinhos, Claudinei, o Jacaré, o Guga, todos o conhecem. Em novembro, na véspera do jogo contra o Bahia pelo Brasileirão, foi ao hotel da concentração do Leão e passou uma mensagem de incentivo aos atletas e comissão técnica. O exemplo de superação foi inspirador para todos.

— Minha paixão pelo Avaí começou desde pequeno. A minha família paterna é toda avaiana, meu avô já foi jogador do Avaí nos anos 40. Na minha infância, eu não ligava para desenhos animados. Sempre fui fã de assistir esportes, então foi muito natural. Desde 2001 eu vou na Ressacada, não importa se tiver em Palhoça ou mais longe, eu e meus pais pegamos a estrada e partimos para a Ressacada — destacou Guto para esta reportagem em uma conversa pelo Facebook.

Perguntado se pensa em treinar o Avaí, a resposta foi imediada: "é o meu maior sonho".

— A minha escolha em cursar Educação Física veio por essa paixão pelos esportes, via tudo o que era relacionado aos esportes pela TV. Na verdade, eu acreditava no sucesso das células-tronco, pois tinha o sonho de ser jogador de futebol, mas como não deu certo, fui então partir para cursar Educação Física com foco de trabalhar na área técnica no futebol — concluiu.

Marquinhos, do Avaí, pousa para foto ao lado do fãFoto: Rute Delfino / Arquivo Pessoal

Em busca de mais independência

Enquanto Augusto se prepara para a carreira de treinador, os pais dele alimentam outro desejo: que o filho tenha mais independência para as tarefas diárias e consiga se comunicar através da mente. Há pouco tempo, a família ganhou de um amigo engenheiro que mora nos Estados Unidos um aparelhinho chamado Emotiv.

Trata-se de um pequeno capacete com eletrodos colocados no couro cabeludo. Ele utiliza a tecnologia chamada eletroencefalografia (EEG), que registra a atividade elétrica do cérebro. Com um desses, um homem tetraplégico conseguiu controlar um carro de Fórmula 1, por exemplo. Então por que não uma cadeira de rodas?

— É muita concentração, tem que ter treinamento. Ele ganhou, mas nós ainda não usamos. É uma novidade muito complicada de usar. O Augusto só botou na cabeça, mas está fora de cogitação, por enquanto — adianta a mãe, Rute Botelho Delfino.

Ela e o seu Marcos levaram o capacete para o pessoal da faculdade de Engenharia da Unisul analisar. Um professor e alunos do curso devem ajudar o Guto com o Emotiv. A ideia é projetar uma cadeira na qual ele consiga dirigir sozinho. Contudo, trata-se um plano futuro. Por enquanto, dona Rute e o seu Marcos se dividem entre cuidar do filho e alimentar o sonho do Guto de ser treinador profissional de futebol, e que se prepara nos jogos do Pura Arte. Um passo de cada vez.

 FLORIANÓPOLIS, SC, BRASIL, 05-04-2018: Jovem com paralisia cerebral vira auxiliar técnico no futebol amador em Palhoça. Augusto Delfino.
Jogadores do Pura Arte prestam atenção em GutoFoto: Leo Munhoz / Diário Catarinense


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